Maria José

Depois de cinco filhos homens encarreirados, com diferença de menos de um ano entre cada um, dona Maria Prazeres sorriu e agradeceu à Nossa Senhora do Bom Parto. Logo que botou os olhos no sexo do bebê, viu que acabara de dar à luz uma menina forte e grandona. Dona Maria não mandou chamar seu José Prazeres, que estava colhendo o feijão das águas, no roçado bem pra lá do gordureiro, nem pediu ajuda da parteira do sítio vizinho. Não ia mesmo dar tempo, Maria José Prazeres escorregara pra fora do ventre da mãe com a pressa característica dos que nascem sob o signo de Áries. Maria fez o sinal da cruz e novamente agradeceu à Nossa Senhora do Bom Parto, pois acabara de ganhar, finalmente, sua sonhada ajudante para as tarefas domésticas.

Gulosa, Maria José mamou o quanto quis das tetas fartas da mãe. Enjeitou o peito só mesmo depois que José fe-la provar leite morno e espumoso saído direto das tetas da vaca jersey para a caneca de ágata, adoçado com rapadura e temperado com canela. Fez isso porque receou que a esposa secasse, de tanto que a esganada da menina mamava… Foi por esse tempo que Maria José, com 3 anos, e já podendo com o peso de uma enxada, passou a acompanhar José nas lidas do roçado. As tarefas da casa não despertavam o mínimo interesse na menina. Na verdade, na vida de Maria José não faltava o que fosse de comer e vestir, mas desde cedo ela já manifestara uma sede indefinida, de uma água que não brotava em nenhuma das nascentes daquele sítio perdido no meio do sertão. Maria via com tristeza a sua sonhada ajudante vestir calças compridas e, antes do sol nascer, partir com o pai, carregando no ombro aquela baita enxada quase maior que ela…

Por aqueles ermos onde viviam os Prazeres, pouca gente se aventurava, ali não era rota de tropeiros nem de ciganos. Um que outro viajante perdido aparecia de vez em nunca, pedindo pouso ou orientação. Os tiros de caçadores e seus cachorros americanos latindo ao longe se faziam ouvir na época do pinhão, quando abundavam as pacas.

O transporte ali era difícil, o povoado mais próximo ficava a três horas de montaria. De modo que quando apareceu por lá a falante Auxiliadora, recenseadora escalada pelo IBGE para fazer a contagem das almas naquelas bandas, foi aquela sensação. Maria José ficou encantada com a moça, que chegara guiando um Jeep 4X4, que tinha uma fala que mais parecia música, que trajava roupas que nem em sonho ela supunha que uma mulher pudesse usar e o inusitado dos inusitados, andava sozinha, sem nenhum homem para protegê-la. Auxiliadora não ficou indiferente ao interesse daquela menina de sete anos, que mais parecia um guri, e um diálogo mudo se estabeleceu entre elas.

Auxiliadora traduziu o brilho dos olhinhos de Maria José como um pedido de ajuda, que formou a seguinte frase na cabeça dela – “Me leva junto pra eu conhecer o mundo de onde você vem?”. A recenseadora não hesitou, acostumada que era a seguir de estalo o que lhe ditava a intuição. Fez a proposta aos pais da menina, de leva-la para cidade grande e cuidar da educação da pequena. José e Maria não consideraram indecente a proposta da recém chegada, tamanha a boa fé em que viviam mergulhados naquele canto sem notícias do mundo. Fizeram uma trouxa com os poucos trapos que formavam o guarda roupa de Maria José e despediram-se dela, na certeza de que na cidade a filha iria ao encontro de um futuro mais digno do que naquele lugar esquecido de Deus. Maria persignou-se e, em voz baixa, fez uma oração para Santa Alódia, por via das dúvidas…

Auxiliadora cuidou de Maria José como se fosse a filha que nunca pode ter. Maria José e a cidade grande se entenderam perfeitamente desde o início. Um banho de loja, manicure, pedicure e cabeleireiro não deixaram traço nenhum do bicho do mato que ela fora um dia. No início, Auxiliadora precisou ajudar a menina com as primeiras letras, mas não demorou muito e Maria José já se virava sozinha e bebeu todo conhecimento que pode, dos professores, dos livros e, finalmente, do mundo todo, via Internet. Deslanchou e ultrapassou de longe os seus colegas de classe. Seu sonho passou a ser tornar-se muito rica e poder retribuir o favor que lhe prestara a madrinha ao resgata-la daquele sertão perdido no meio do nada. Botou na cabeça que iria comprar uma casa num bairro chique, dar a ela o melhor carro e aposenta-la muito antes da compulsória. Para isso, estudou muito, se formou doutora em Comunicações e arrumou trabalho no melhor escritório da cidade.

Movida pelo propósito de enricar e demonstrar o tamanho da gratidão que tinha pela benfeitora, Maria José dava sempre o melhor de si e, naturalmente, sobressaiu-se na profissão, uma profissão que não existia até então, mas que ela que ela mesma criou, sob medida para suas necessidades. Ela se tornou consultora no ramo do Prestígio a Qualquer Preço & Lucros Instantâneos e lotava auditórios com palestras para engravatados, ávidos por se tornarem famosos e ricos como a prestigiada palestrante.

Nossa palestrante viajou o mundo, encantando as mais diversas platéias. Príncipes e xeiques cortejavam a poderosa consultora, mas ela fazia ouvidos moucos a todas as propostas de unir-se a um homem. Em sua vida não havia espaço para nada que não fosse a satisfação de sua benfeitora. Dos países mais distantes, Maria José enviava presentes caríssimos para Auxiliadora, que continuava sendo uma simples e humilde funcionária do IBGE, que a cada 10 anos, por ocasião da contagem das gentes, aparecia no sítio dos Prazeres e dava notícias do sucesso de Maria José. José morrera 10 anos depois da partida da filha e agora era Maria que cuidava do sítio, auxiliada pelo filho mais velho, o Pedrão. Os olhos incrédulos de Maria arregalavam-se ao ver a filha impressa no papel brilhante das fotografias que Auxiliadora exibia. Sentia muita falta da menina e afogava as palavras de carinho saudoso nas lágrimas que copiosamente derramava. Queria ve-la novamente, antes que a terra a comesse…

Maria José não se lembrava mais da vida pregressa, da mãe, do pai, dos irmãos, da enxada, do leite morno com rapadura, tudo isso estava mergulhado numa neblina espessa que ela nunca se atrevia adentrar. Sabia que Auxiliadora levava notícias e algum dinheiro aos parentes. Voltar ao passado era impensável, elas quase tinham brigado sua única briga quando Auxiliadora insistiu no convite de uma visita aos familiares. Mas Auxiliadora não era de confrontos, preferiu dar tempo ao tempo acreditando que um dia Maria José se desse conta de que não há como negar de onde viemos; ou aceitamos ou adoecemos misteriosamente…

No trabalho Maria José era incansável, não media esforços para se superar e assim foi tocando o barco, enquanto a máquina era jovem e não precisou de reparos nem remendos. Mas o primeiro alarme foram pontadas na cabeça, as quais ela rebatia com remédio de farmácia, desses que vendem sem receita mesmo. Depois, a sonolência foi invadindo as horas de vigília, a memória duvidando de si mesma e finalmente, sua parte mais feminina começou a chorar lágrimas vermelhas. Maria José percebeu, então, que era preciso tomar providências, sob risco de não conseguir desempenhar a contento o que mais prezava na vida depois de Auxiliadora; o seu trabalho.

Rica que era, procurou os melhores médicos, que lhe pediam exames e mais exames, que, surpreendentemente, não revelavam nada de anormal. Sem saber o que fazer para melhorar a vida da moça, receitaram aquelas famosas pílulas que jogam um pano cor de rosa por cima da dura realidade e, como única opção, deixam o cristão ir empurrando tudo com a barriga. Maria José passou a ser uma dependente dos antidepressivos e calmantes, tomando doses sempre maiores, cada vez que era assaltada por uma aflição ou um medo qualquer. O próximo alarme veio do fígado, que gritou alto e derrubou nossa heroína com um golpe certeiro. Foi isso que fe-la voltar às pressas, mas muito contrariada, para a casa de Auxiliadora, que muito prestativa, recebeu-a com o coração aberto e os olhos marejados de lágrimas de felicidade.

Todos os cuidados de Auxiliadora não foram suficientes para levantar o moral de Maria José, que continuava triste e sem vontade de nada. O choro vermelho parou, a memória melhorou, mas a vontade e alegria de viver foram definhando devagar, que nem o trabalho a motivava mais. Ela só fazia tomar remédios adiando o confronto condigo mesma, a Maria José que ela varrera para baixo do tapete.

Auxiliadora se desesperava, a tristeza de ver a quase filha sofrer assim, estava fazendo com que seus últimos cabelos pretos se tornassem todos brancos. Os melhores médicos continuavam vindo de todos os cantos do planeta, nenhum que conseguisse fazer Maria José voltar a ter o antigo brilho nos olhos que tanto encantara Auxiliadora. A vizinhança toda se mobilizou e acampou na casa de Maria José. Beatas organizavam rezas, aventureiros apareceram com garrafadas miraculosas, as crianças se acotovelavam curiosas na sala de visitas de Auxiliadora, que não sabia dizer não a tanta boa vontade do povo, que vinha prestar ajuda àquela que lhe dera tanta felicidade. Por isso, quando apareceu uma velhinha desdentada, suja e mal ajambrada, segurando uma planta de suinã num vaso de barro, ela a acolheu como acolhia todos que chegavam à sua casa.

O olhar penetrante da velha, a verruga peluda no nariz pontudo e a fala de taquara rachada, assustaram muito as beatas, que deram gritinhos agudos de desdém, mas não Auxiliadora, que conseguiu perceber além da feiura que só assustava aqueles que olham sem ver. A velha pediu para ver a doente, no que foi prontamente atendida. Quando ela entrou no quarto, uma brisa morna levantou as cortinas de renascença branca, que mal quebravam a luz do sol forte do meio dia. Maria José abriu os olhos para sondar o silêncio que se fizera com a entrada da visitante inesperada e deu com a velha lhe estendendo a muda de suinã. Sem saber porque, ela segurou o vaso nas mãos, enquanto escutava instruções da velha senhora, de que a doente deveria depositar a planta do lado esquerdo da cama e tomar uma xícara do chá da casca logo antes da hora de dormir, durante 3 dias seguidos. E que não se esquecesse de rezar um agradecimento a Nossa Senhora Aparecida a cada vez que tomasse a infusão recomendada. Maria José fez que sim com a cabeça, fechou os olhos novamente e mergulhou no torpor que era seu refúgio nos últimos tempos. A velha sumiu, deixando em seu rastro apenas os murmúrios das beatas, indignadas com o que para elas só poderia ser obra do demo!

Auxiliadora, que escutara muito bem o que dissera a velha, ferveu a casca do suinã nos três dias seguintes e serviu o chá minutos antes de Maria José pegar no sono. Na terceira noite, o sono agitado da doente acordou Auxiliadora, que dormia no quarto ao lado. Maria José dizia palavras incompreensíveis em voz alta, quase gritada. Auxiliadora resolveu sacudir e acordar a doente, receosa que a gritaria pudesse sobressaltar as beatas acampadas na sala que na certa mandariam chamar urgente um exorcista. Maria José abriu os olhos e continuou a falar, mas agora sem gritar. Contou que tivera um sonho muito bonito, em que um cavaleiro negro e mascarado, montado em um jumento branco alado, viera lhe dizer que era preciso que ela fizesse uma viagem a um país esquecido, onde a esperava uma fada que tinha o poder de curá-la, e que ela deveria comer da comida que esperava por ela em uma mesa servida, há pelo menos 30 anos.

As duas entreolharam-se, imaginando se aquilo tinha algum significado ou se eram coisas que a cabeça gosta de criar para confundir. Neste momento, num gesto impensado, Maria José bateu na xícara que estava sobre o criado mudo e espalhou no chão o resto do líquido que sobrara. Na poça que se formou, e dessa vez não houve dúvidas, porque as duas puderam ver, era muito nítida a imagem de uma casa perdida, num lugar remoto e esquecido, onde só apareciam viajantes perdidos. O sitio dos Prazeres! Neste mesmo instante, Maria José desandou a chorar, as lembranças desaguando em seu peito, com a força de uma enxurrada presa por anos e anos com medo de olhar pra dentro de si mesma.

No dia seguinte, Maria José reuniu todas as suas forças, fez uma trouxa de roupas e as duas montaram no velho  Jeep 4X4, o mesmo que a trouxera para cidade grande. Durante a viagem, Auxiliadora foi despejando, sob a forma de palavras, toda gratidão que sentia pelo sentido que Maria José dera à sua vida, enquanto Maria José sonhava acordada com o que iria encontrar quando chegassem. Dois dias se passaram, mas o que se passou entre as duas, daria para preencher toda uma existência de uma vida humana. À medida que se aproximavam, as faces de Maria José iam tomando cor e os olhos já deixavam entrever o antigo brilho. Auxiliadora mal cabia em si de felicidade.

Chegaram! A paisagem era praticamente a mesma de 30 anos atrás, parecia que tinham saído de lá ontem… Aqui e ali, se notava que alguma árvore tinha ganhado altura ou encorpado a copa, mas no mais, estava tudo muito igual ao dia em que Maria José partira. Tão igual que o calendário também marcava o mesmo dia do ano de há 30 anos! Adentraram a casinha sem bater, já que a porta estava aberta, aliás, ela nunca se fechava, mesmo nas noites mais frias! Lá dentro a mesa estava posta, com o lugar vazio, esperando por sua dona, há longos 30 anos e a fada Maria mexendo um caldeirão enorme no fogão à lenha. O resto da história vocês podem bem imaginar…

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2 Respostas to “Maria José”

  1. chicoabelha Says:

    Edna, estou dando os primeiros passos na ficção. Seu estímulo vem em boa hora. Quanto à sua conjetura, sim, acho que somos que nem elástico, esticamos o máximo que podemos até não agüentarmos mais, pra depois voltarmos à posição inicial…

  2. Edna Says:

    Chico…Ficou muito bom!
    Gostei muito!
    É a primeira vez que leio algo seu, escrito assim dessa forma…acho que deveria fazer isso outras vezes…A ilustração é linda e tem a inocência do campo…
    Fico pensando se a gente anda tanto pra frente, simplesmente pra poder voltar e ver com outros olhos o que deixou pra trás…

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