Cisco nos olhos dos outros…

A Érica vocês já conhecem de outras histórias anteriores. Ela é uma pessoa muito querida, que duas vezes por semana deixa sua casa, seus filhos, suas orquídeas e seu marido, toma um ônibus invariavelmente lotado ( mas muito divertido ), e vem até nossa casa pra botar ordem na bagunça que a gente faz quando ela não está por perto.

Nossa casa tem 5 habitantes e a Érica chama 4 deles de “amor”. O único que não tem esse direito sou eu. Imagino que o marido não tem problemas de saber que o cachorro, a patroa e os filhos pequenos da patroa são tratados tão intimamente. Já com o patrão isso não caberia, eu entendo perfeitamente e não me sinto discriminado. O que eu não entendo é o medo que ela tem de ficar sozinha e por isso deixa o rádio ou a TV ligados enquanto trabalha, para dar a “sensação” de que tem alguém em casa…

Como ultimamente eu tenho passado a maior parte do tempo trabalhando em casa, pedi a ela que desligasse o som,  já que ela não estava mais sozinha. Ela desligou, sim, o som eletrônico, mas ligou um outro som, o humano. Agora ela conversa comigo… Deu uma brechinha e ela pergunta: “__Chico, só duas folhas de repolho tá bom pra salada ou eu corto mais? Cozinho as batatas na pressão, ou não? Chico, posso usar o telefone?” Ou então ela me conta a última que aprontaram com o marido dela na fábrica, ou do cachorro que ela quis adotar mas devolveu ao antigo dono porque o bichinho comeu toda roupa no varal e por aí vai… Quando dou por mim, a conversa se estabeleceu entre nós e eu larguei o que estava fazendo… Mas não reclamo, a Érica me diverte e acaba me dando muito material para os meus textos.

Por exemplo, hoje de manhã eu discutia ao telefone com minha mãe, sobre os pães que quero assar na sexta-feira santa, enquanto a Érica recolhia o coco da Juli, a cadela aqui de casa e escutava nossa conversa, com os olhos arregalados.

__Chico, como você fala assim com sua mãe?

__Érica, minha mãe simplesmente quer que eu passe a sexta-feira santa inteira meditando sobre a morte de Jesus. Não quer que eu faça os meus pães porque isso é trabalho! Você acha que eu vou ficar quieto?

__Nossa, mas então ela fica meditando o dia todo na sexta-feira santa? Ai meu Jesus, as religiões inventam cada proibição esquisita, não é Chico?

Imagino onde é que está o pensamento da Érica , ao se olhar no espelho pela manhã. O que ela acha do cabelo que não pode cortar, dos joelhos que tem que ficar sempre debaixo dos panos da saia e dos ombros que nunca tomam sol? Será que ela não gostaria de ser, pelo menos um pouquinho mais parecida com as mulheres da novela que o pastor já avisou que ela não deveria assistir?

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4 Respostas to “Cisco nos olhos dos outros…”

  1. edna Says:

  2. edna Says:

    Senti sua falta também!

  3. chicoabelha Says:

    Ah, como sempre é vc, dona Edna! Senti sua falta no fim de semana santa… bj!

  4. edna Says:

    “Debulhar o trigo
    Recolher cada bago do trigo
    Forjar no trigo o milagre do pão e se fartar de pão”

    Vejo divindade no pão, santidade no trabalho… alienação na religião!
    Saudade Chico Abelha!

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