Meu pai e a morte

Desde que me conheço por gente, meu pai vive falando em morte, já tendo ameaçado abreviar sua vida por muitas e muitas vezes; mas que eu saiba, nunca tomou providências concretas para tanto. Sempre foi tudo da boca pra fora. De concreto, mesmo, foi só o susto que ele nos deu quando, aos trinta e tantos anos teve um entupimento da válvula mitral e não se agüentava nem pra subir sozinho a escada do sobrado em que morávamos em São Paulo. Os médicos davam pouca esperança e o que havia de mais moderno em termos de cirurgia na época, apenas daria a ele uma curta sobrevida, caso ele concordasse em abrir o peito, numa operação muito arrriscada, e colocasse uma válvula artificial. Isso foi há exatos 47 anos, eu tinha 7 anos e a força da morte desabou sobre a criança feliz que eu era, pintando de cinza escuro a vida cor de rosa que eu levava.

Me lembro de ter sentado em frente de casa, sozinho, encostado no portão e de olhar para o céu e conversar com o Deus barbudo e benevolente que me fora apresentado nas aulas de catecismo. Pedi a Ele que não levasse meu pai, em troca de que, eu me propunha a não mais ver televisão escondido e, tomar sem reclamar, uma horrível sopa de tomate que minha mãe insistia em fazer uma vez por semana. A barganha funcionou.

Naquela época, meu pai tinha uma pequena fábrica de artefatos de plástico e metal e quis o destino que ele conhecesse um grande cirurgião, o dr Adib Jatene, para quem acabou produzindo algumas peças que o cardiologista usava em suas cirurgias pioneiras.  Ficaram amigos e foi o dr Adib que acabou costurando, dentro do peito do meu pai, uma gaiolinha de metal, com uma esfera de silicone presa lá dentro. Essa válvula é um dos primeiros modelos, uma carroça em relação ao que existe hoje, todos os outros pacientes que tiveram implantada a mesma válvula implantada, já morreram faz muito tempo. Meu pai conseguiu sobreviver todo esse tempo graças à disciplina de tomar religiosamente a medicação que controla a coagulação do sangue e que permite que a válvula funcione adequadamente.

Depois desse debut no mundo hospitalar, meu pai ficou fã do pessoal de branco e acabou voltando para a mesa de cirurgia por diversas vezes. Fez cirurgia de hérnia (2X), hemorróida, tumor no pescoço e mais outras tantas que não me lembro. Eu tinha nítida impressão de que ele preferia estar numa cama de hospital a ficar em casa com a família. Lá no hospital ele era o rei, o centro do universo, em casa ele tinha que dividir a atenção da esposa amada com seus seis filhos, mais a empregada e o cachorro! Era de fazer gosto ver a cara do velhinho de olhos azuis, cercado de enfermeiras paparicando o doente mais simpático que elas já tinham visto… Imaginem a cachoeira de elogios nada discretos que ele não derramava pra conseguir que elas se derretessem todas por ele e o cobrissem de mimos…

A cada vez que ele baixava no hospital, a conversa da morte voltava à tona. A família, dizia ele, estaria garantida, com o seguro que ele tivera o cuidado de contratar e minha mãe, ele fazia questão de frisar isso, era ainda muito jovem e linda, não teria dificuldade de achar outro marido… Cansei de ouvir essa história de que dessa vez ele ia embarcar (era a expressão preferida dele, pra se referir à morte) e algumas outras variações sobre o mesmo tema. A coisa ficou tão escrachada que recentemente, num aniversário do meu pai, meu irmão mais novo apareceu em casa com um pacote enorme e deu de presente pro velho. Todos irmãos e agregados reunidos, grande suspense, meu pai foi desembrulhando devagar o volume, ninguém podia acreditar quando o papel foi finalmente rasgado e mostrou um requintado caixão de defunto preto com uma cruz branca, feito de madeira compensada. A gargalhada foi geral, todos entenderam a intenção. Neste dia eu percebi que meu irmão mais novo tinha senso de humor…

Últimamente a saúde do meu pai tem deteriorado muito. Ele tem Alzheimer, Parkinson, degeneração do fígado, pressão irregular, além de ter que controlar rigorosamente o tempo de coagulação do sangue. Os remédios que ele toma, uma dezena deles, interferem um no outro e é preciso fazer uma marcação cerrada para perceber as alterações e fazer as mudanças necessárias. É claro que tudo isso tem um custo, que não é só financeiro e de desgaste físico e psicológico de quem cuida dele. Falo do desgaste da máquina, do corpo dele. Com tantas intervenções cirúrgicas e o fogo constante da química dos medicamentos, a lucidez já se foi, as palavras saem enroladas, truncadas e as frases ficam devendo sentido para quem escuta. O que sobrou foram alguns momentos em que parece, a gente não tem certeza, que ele está se comunicando. Outro dia eu conversava com esse irmão, o que deu o caixão de presente, comentávamos que o que sobrou do meu pai é apenas o corpo, que o espírito já se foi faz algum tempo…

Mas hoje de manhã eu tive dúvidas em relação a isso, meu pai sempre surpreende, já renasceu das cinzas várias vezes. Eu tinha ido substituir o novo enfermeiro que cuida dele, que se preparava para ir embora. Na hora de se despedir, o rapaz perguntou na maior inocência:

__Então, seu Wilson, o senhor gostou de mim?

Ao que meu pai respondeu sem titubear, com cara de indignação…

__E eu lá gosto de homem, ? – o enfermeiro ficou sem graça, coitado…

Eu não sei se essa era uma frase pronta, uma informação que os neurônios não tiveram dificuldade de acessar porque está no cérebro dele faz muito tempo, mas o fato é que o timing, a expressão, tudo foi perfeito! E ele ainda olhou pra mim com um sorriso maroto, depois de ter soltado a frase! Em momentos como esse eu consigo rever meu antigo pai…

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