Festa Junina

Ultimamente tenho estado mais permeável ao contato humano, de modo que quando minha esposa perguntou se eu queria ir com ela e minha enteada à uma festa junina, minha resposta foi positiva. Apesar de estarmos ainda no meio do mes de maio, as festas juninas já começaram a pipocar pela cidade… Minha única preocupação foi a comida. É que estou sob um regime especial, devido a uma pedrinha chata, que tem feito o favor de me lembrar que meus rins existem e estão gritando desesperadamente por um pouco de atenção… Por isso, não pude deixar de perguntar:

__Quer dizer que hoje não tem jantar, né amor? A gente come por lá mesmo, certo? – de modo geral, eu prefiro a comida feita em casa. Comida de rua nunca se sabe como foi feita, mas desta vez estava disposto a sacrificar meu jantarzinho caseiro por uma causa nobre, um passeio com a família.

__Claro, amor! Vamos jantar bolinho caipira, por que você acha que a gente vai em festa junina?- ela exclamou com um sorriso maroto e guloso ao mesmo tempo.

Fazia tanto tempo que eu não ia a uma festa junina que nem me lembrava mais dos tais bolinhos caipiras. Lembrei dos balões, da fogueira, dos fogos, da quadrilha, do frio que sempre faz nessa época, mas na minha memória de festas juninas não havia bolinho nenhum… As imagens de festas passadas chegaram a me animar, pensei até em botar um chapéu de palha, pintar um bigodinho e cavanhaque com rolha queimada… Mas que besteira! Isso é coisa de criança, pensei. Vou é me agasalhar, que o frio tá de lascar!

A festa era bem no meio do bairro chique da cidade, com flanelinhas uniformizados e tudo. Mas havia algo estranho ali, tão estranho que não me contive e antes de estacionarmos perguntei ao flanelinha se a festa era ali mesmo e se já havia começado.

__É aí mesmo, moço, ali debaixo “desses toldo”. E fique “tronquilo” que seu carro está bem olhado com “nóis”.

Esses toldo” a que o flanelinha se referia, eram feitos de plástico, que vestiam uma estrutura metálica parruda e que não tinham nenhuma cara de festa junina, pelo menos aquelas que eu guardava em minha memória. Eles, os toldos, cobriam a extensão de uns quase 100m de rua, com barraquinhas de comida de um lado e mesas e cadeiras do outro. Na metade da extensão, duas enormes caixas de som tocando o The Time, do Black Eyed Peas. No fim do corredor, um pipoqueiro bem chumbrega e uma barraca de pescaria na bacia (juro!), com brinquedos totalmente sem graça, desses baratinhos, que se encontra aos montes na 25 de março. Ah! E na outra ponta tinha um carro de polícia, com muitas luzes coloridas, que piscavam, assim me pareceu, ao som do Black Eyed Peas… Cheguei a imaginar as duas policiais femininas dançando uma coreografia ao som da música… Da fogueira nem sinal. Os fogos, apenas umas biribas, os sempiternos estalos de salão, aqueles que fazem a diversão dos petizes.

Essa parafernália toda, as barracas vendendo bolinhos, pastéis, doces e vinhos quentes, estava mais com cara de máquina de ganhar dinheiro fácil, do que uma verdadeira festa junina. Depois fiquei sabendo, por um assíduo freqüentador desses eventos, que a parafernália faz parte do esquema de festa junina itinerante, da paróquia da catedral de São José dos Campos e que é a única renda da mesma ao longo do ano. Quando eu lembrei que havia também o dízimo, meu informante, muito bem informado que era, disse que soube por um padre, que o que se arrecada com o dízimo, mal dá para o almoço do padre. Sinceramente, nunca imaginei que a grana andasse tão curta para o pessoal da batina…

Condoído da situação dos padres, resolvi dar minha contribuição e enfrentei a fila de pelo menos uma 50 pessoas, na barraca do bolinho caipira. Compramos logo uns 10, que ninguém teria saco de entrar novamente naquela fila pra comprar mais. Munidos de vinho quente, os bolinhos e uma garrafa d’água, sentamo-nos na única mesa vazia que restara. O bolinho até que não estava ruim, era um bolinho correto; ruim foi o cheiro que bateu durante o tempo todo que em que comemos à mesa. Nos entreolhamos, como que perguntando: foi você? Ninguém teria sido o autor de um suposto flato que infestava nossos narizes. Talvez teria vindo de uma mesa vizinha? Quem sabe?

Ao sairmos, depois de comidos e sem perspectiva de que algo mais acontecesse ali e que pudesse nos interessar, descobrimos o culpado pelo fedor. Uma senhora merda de cachorro debaixo da mesa! Apressamos o passo e saímos dali com aquela sensação ruim de anticlimax. À noite, na cama, minha esposa reclamou que não havia conseguido digerir a comida da festa.

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