Iniciações

Eu quase que cheguei a lamentar ter passado, logo de cara, no primeiro vestibular que tentei. Cursar agronomia em Jaboticabal seria sinônimo de abandonar a vida boa que vinha levando, até então, no CTA. Tinham sido 7 anos de idílio, 7 anos que se passaram depressa, muito mais depressa do que a minha criança gostaria. Mas eu tive que partir, com 18 anos, já estava mais que na hora do passarinho cair fora do ninho! Pra piorar a situação, o meu companheiro de folguedos, o Carweis, tinha feito o vestibular comigo mas não tinha passado! Resultado, lá fui eu, sozinho, para aquele interiorzão quente e abafado, me instalei numa república com toda minha mudança, mais bicicleta, plantas, mala e cuia e não muita disposição de enfrentar a nova vida de universitário. E a disposição que já era pouca, acabou virando nenhuma, logo nos primeiros dias de aula, quando descobri que o curso de agronomia era muito mais parecido com engenharia, do que eu supus ao me inscrever no vestibular para aquele curso. E com menos de um mes de aula, fui decidido à sala do diretor e pedi o cancelamento da matrícula. De volta para casa, sob protesto do meu pai (é claro!), acabei ganhando uma sobrevida de um ano a mais no CTA!

O retorno não me saiu de graça, fui obrigado a fazer novamente o cursinho do CASD, aquele dos alunos do ITA. Foi o preço que meu pai cobrou para o marmanjo poder continuar usufruindo das mordomias do lar às custas do trabalho dele. Eu não morria de amores pelas aulas no CASD, mas não posso negar que me divertia muito com os professores, cada um mais louco que o outro. Não vou citar nomes, pode ser que eu desperte ciúmes nos que não foram mencionados, mas as únicas fórmulas de física que aprendi na vida, foi por conta das palhaçadas que eles faziam naquele palco que era o CASD nos seus primórdios. Certamente devo a eles meu desempenho pouco melhor que o medíocre, em física, química e matemática, em todos os outros vestibulares que prestei na vida.

Falando em CASD, inevitavelmente me vem a associação com o H8, morada daqueles que me iniciaram em algumas áreas da vida nas quais eu ainda era virgem. Foi com os alunos do ITA, por exemplo, que tomei minhas primeiras biritas e aprendi o caminho do alambique do Antenor, em Caçapava, onde entornei muita pinga de cabeça, superforte, aquela primeiríssima que sai na destilação da garapa da cana. Anos depois, fiquei sabendo que a pinga de cabeça contém metanol, que é um baita dum venenão, que pode até deixar cego o caboclo, e daí entendi as homéricas ressacas com direito infernais dores de cabeça no dia seguinte…

Foi nas paredes do H8, que meus olhos, atônitos, pousaram sobre as primeiras vaginas nuas que contemplei na vida. Revistas de sacanagem é o que não faltava nos quartos que eu frequentava. Eu devorava aquilo tudo com fome de menino guloso, que ainda há pouco tinha sido coroinha, frequentando a missa todos os domingos, e que teria confessado ao padre um simples pensamento libidinoso. De repente, no meio daquelas revistas, eis-me no paraíso!

Nos corredores, à meia voz, em diálogos confusamente obscuros para mim, ouvia muito falar de repressão, ditadura, tortura e guerrilha, mas me parecia que falavam de um outro país. Eu não conseguia relacionar aquele discurso com nada do que acontecia em minha vida naqueles dias. Eram os tempos do “Eu te amo meu Brasil” de Dom e Ravel, canção obrigatória nas aulas de Música ou Educação Moral e Cívica… Eu não podia, ou não queria acreditar, que o Brasil que era vendido na TV e nos jornais, fosse o mesmo em que acontecia a repressão sussurrada nas conversas dos alunos.

Mais do que a conversa dos alunos, eu queria ouvir um outro som, aquele que inundava os corredores do H8, uma música que não tocava na Radio Piratininga e que me pegou logo da primeira vez que escutei: o rock progressivo e psicodélico do Pink Floyd, Yes, Emerson Lake and Palmer, King Crimson e do Genesis. Aquilo me abriu as portas de uma nova dimensão. Junto com as músicas, vieram Aldous Huxley com o seu As Portas da Percepção, e, claro, as chaves para abri-las. Lembro bem de um chá que tomamos numa noite fria de inverno, que era pra ser um inofensivo quentão, mas que fez capotar a mim e ao Carweis, meu companheiro de expedições de toda natureza, pelo CTA afora. Naquele tempo, nada ficava trancado, o ITA podia ser explorado, tínhamos acesso a todos aqueles locais que hoje são fortemente patrulhados. Bons tempos aqueles em que um simples, “sou filho de fulano ou cicrano de tal” nos livrava de qualquer encrenca. Mas nessa noite, a expedição foi mesmo aos nossos departamentos interiores… Sei que quando as coisas voltaram a ficar mais claras, o fundo musical era o Meddle, do Pink Floyd, os alunos já haviam se recolhido, só restaram o Carweis e eu, junto à fogueira, que nessas alturas era só brasas. Nos restava ir para casa, no outro dia tínhamos que acordar cedo pra irmos pra escola, ele pro o Olavo Bilac e eu pro João Cursino.

E lá fomos nós, pelo caminho da quadra, uma estrada de chão batido, que passa por trás dos Hs8, cada um fazendo seu relato da experiência recém vivida. Deviam ser umas duas da manhã, mais ou menos, tinha baixado uma forte cerração e fazia muito frio. De repente, demos com uma cena inusitada. À nossa frente, uma tijela de barro cheia de frutas e flores, um frango preto estendido ao lado e duas garrafas de sidra Cereser. Imagine se a gente teve alguma dúvida! Que nada! Com a garganta seca que estávamos, abrimos cada um uma garrafa e entornamos ali mesmo o líquido refrescante! Só fui chegar em casa quando começava a clarear.

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28 Respostas to “Iniciações”

  1. chicoabelha Says:

    Sim, minha carta da vida no tarot é Os Amantes, que no tarot de Marselha tem a ver com a escolha… Ficar com a mãe ou com a esposa? Qual é a sua? Vc sabe?

  2. edna Says:

    Escolhas…Sempre as escolhas!

  3. chicoabelha Says:

    Corro mais risco correndo ou ficando parado? rsrsrsr!

  4. edna Says:

    Então corre…Risco! rsrsrsrs
    Tem duplo sentido…
    Pode sair correndo também…rsrsrsr

  5. chicoabelha Says:

    Pode.

  6. edna Says:

    Pode ser meio amargo?

  7. chicoabelha Says:

    Bombom de chocolate amargo corre risco tbm? rsrsrsrsrss!

  8. edna Says:

    Se vc se torna um bombom corre risco se ficar perto de mim…rsrsrsrs

  9. chicoabelha Says:

    É isso mesmo, eu sou um bobo querendo ser um bombom… rsrsrsr!

  10. edna Says:

    Seu bobo…Sou em quem gosta de chocolate…rsrsrsr
    Concordo…Tem muita beleza em ser normal…
    Quando a gente relaxa…Abre espaço para aquilo que tem que chegar…

  11. chicoabelha Says:

    Melhor que bom, só bombom! rsrsrsrs!

  12. edna Says:

    Isso é bom…

  13. chicoabelha Says:

    Gera, e hoje estou tentando relaxar em relação a isso, ser mais normal e menos sensacional! rsrsrsr! O processo é lento e gradual…

  14. edna Says:

    O “eu quero” é forte em você…Isso gera algum tipo de ansiedade?

  15. chicoabelha Says:

    Minhas curiosidades sempre foram à margem do sistema, do “mainstream”. Se me servem salada, no mínimo vou querer fazer o tempero a meu gosto… senão vou ter indigestão! rsrsrsrsr!

  16. edna Says:

    Aconteceu como tinha que ser…
    A faculdade pode não significar nada pra quem não tem curiosidade…
    Vontade de aprender…Criar…
    Vc conseguiu isso sozinho…Com suas vivências…

  17. chicoabelha Says:

    Não terminei porque me pareceu um buraco negro e decidi embarcar num navio e rodar o mundo… o que tampouco fiz! Artes Pláticas me possibilitavam ser professor (abominável), designer (menos mal) ou comunicador visual (muita competição para o meu gosto). Eu fui ser o Louco do tarot… e dei nisso que vc conhece…

  18. edna Says:

    Artes plásticas? Que tudo isso Chico!!! Pq não terminou?

  19. chicoabelha Says:

    Em Sampa eu fiz Artes Plásticas na Faap, mas comecei, não terminei, como tudo que tenho feito na vida. (quando foi, mesmo, que eu contratei você para ser minha terapeuta?)

  20. edna Says:

    Facul em SP? O que fez lá?

  21. edna Says:

    A intenção quando postei a imagem e a música não foi a de que utilizasse no texto…queria só ilustrar o que o texto passou pra mim…

    Entendo…Em 64 eu tinha uma ano…

  22. chicoabelha Says:

    Edna, a imagem é muito hermética pra mim, e não tem apelo estético. Veja que acabei escolhendo um video do Eu te amo meu Brasil pra ilustrar o post.

    Sim, se meu amigo tivesse passado eu teria feito o curso, até quando não sei, mas não teria abando nado logo de cara, isso não!

    Só foi muito mais tarde, na faculdade em São Paulo e participando de assembléias e passeatas que fui ter uma noção do que acontecia no Brasil nos tempos da ditadura militar de 64. Antes disso eu vivia nas nuvens…

  23. edna Says:

    Esbarrei nessa imagem outro dia…Antes da leitura de seu texto…Ela me intrigou…Vejo mãos suspensas no universo (sugere a existência de algo maior que nós) segurando ovos alguns já quebrados…sobre esses ovos há uma criança ou um feto…Ele tem algo nas mãos…Me passou a impressão de criação ou de recriação também…

    Sério que se o seu amigo tivesse passado teria continuado no curso? Que maluco isso!!!

    Fiquei me perguntando que idade tinha…De fato Os caras eram mais velhos…No seu lugar não teria me envolvido tamvbém…Apesar do assunto ter uma forte atração sobre mim…

    Sua vida inteira…rsrsrsrs
    Oba! Tem muito pra contar ainda…

  24. chicoabelha Says:

    Edna, não entendi a imagem no YuBliss, verdade não consegui discernir as formas. O que ela quer dizer?

  25. chicoabelha Says:

    Edna, a gente tem mesmo muitas parecenças, né? Sim, minha escolha do curso foi puramente emocional, você sacou bem, eu só escolhi o curso por causa do meu amigo, se ele tivesse entrado eu teria ficado, não teria abandonado o curso!

    Sobre a ditadura não senti vontade, não naqueles dias, eu “sentia” um alarme que me dizia que havia perigo no ar e isso me afastava automaticamente dos caras, que eram muito mais velhos que eu, imagine, nauquela época, uma diferença de 3 ou 4 anos era muuuuuuuita coisa.

    O que veio a seguir? Nossa, minha vida quase que inteira, vou soltando pílulas, não sei vomitar facil não… rsrsrsrssr!

  26. edna Says:

    Lido o texto uma forte impressão de rito de passagem…Fui buscar uma imagem…

    http://www.yubliss.com/user/2641/photo/10049/

    e uma música que representassem o que eu senti…

    “É preciso amar as pessoas
    Como se não houvesse amanhã
    Por que se você parar
    Prá pensar
    Na verdade não há…”

    http://www.kboing.com.br/legiao-urbana/1-200470/

  27. edna Says:

    Esqueci de pedir notificação de resposta ao comentário…

  28. edna Says:

    Me fez lembrar de quando estava na oitava série…No ano seguinte teria que ir para o colegial…Meus dois melhores amigos…Isso é um padrão em minha vida…Amava os dois! Ambos iriam para o Imaculada Conceição para fazer um curso técnico em química…Todas as meninas faziam o normal ou magistério…Me matriculei em química, pois a idéia de deixá-los naquele momento era insuportável! Namorei um deles…Meu primeiro namorado aos 15 anos! É incrível como algumas escolhas que fazemos são absolutamente emocionais…

    Você ao ouvir tais sussurros…Sobre a ditadura! Não sentiu curiosidade de saber do que se tratava…Conseguiu essa isenção?

    A saída de sua casa…Sua permanência do CTA…Tudo isso significou muito em sua vida…Sair da proteção de seus pais e experimentar sua independência…Um rito de passagem!

    Agora estou tão curiosa pra saber o que veio a seguir…

    Gostei…Gostei muito!

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