O que você fica fazendo, sozinho, lá em cima daquela montanha?

Na virada do século XXI, no tempo em que eu morava sozinho num sítio no meio da floresta, as pessoas tinham muita curiosidade sobre minha vida de ermitão. Uma das coisas que mais me perguntavam era: “O que você fica fazendo, sozinho, lá em cima daquela montanha?”. Na cabeça das pessoas, sítio e natureza estão associados a lazer, não imaginam que é preciso muito trabalho, trabalho de verdade, para manter limpa e produtiva uma área como aquela minha, do tamanho de um campo de futebol. A terra, que eu cultivava praticamente o ano todo, exigia capinas regulares, regas, podas e, claro, havia também que colher o fruto do plantio. Eu fazia tudo isso na base do machado, da foice e da enxada, nada de máquinas, nenhuma tecnologia moderna.

Feita a colheita, eu tinha que dar um fim ao produto; ou consumindo; ou conservando; ou vendendo. As bananas eu secava no forno à lenha (dava uma banana-passa deliciosa!), as laranjas eu transformava em geléia, as goiabas, abacaxis e abóboras viravam doce e as jabuticabas, um dos mais gostosos licores que eu conheço. Havia também a horta, cuja produção eu doava em sua maior parte. Além disso, eu ainda tinha que juntar lenha e rachar em pequenos pedaços, pra queimar no fogão, onde eu fazia minha comida e assava o pão. As louças e a minha roupa, quem lavava era eu também. A casa era varrida todo santo dia e uma vez por mes eu encerava e lustrava o chão de tábuas. O resto do tempo, este sim, era só meu. Essas horas eu usava para ler, tocar um violão ou ir à cidade comprar alguma coisa que estivesse faltando. Se aparecia alguém, alguma visita, eu dava um dedo de prosa e continuava a fazer meu trabalho, pois se eu não fizesse, quem é que ia fazer? E eu não tinha o mínimo pudor de convidar as visitas para se juntarem ao trabalho que eu fazia, seja carregando pedras ou troncos que eu não conseguia carregar sozinho, seja ajudando a arrancar mato na horta.

As visitas eram bem vindas, de modo geral, mas quando elas resolviam que iam pousar lá em casa, aí era complicado. Os hábitos do pessoal da cidade eram bem diferentes dos meus. Eles vinham para se divertir, queriam dormir tarde, se desestressar no silêncio acolhedor da roça, e nem se davam conta que a agitação deles acabava com o meu sossego. Logo percebi que se eu quisesse preservar minha tranqüilidade, teria que construir uma casa de hóspedes. Foi o que fiz.

Construir uma casa no meio da mata, por pequena que seja, é um trabalho hercúleo. Meu sítio não tinha nenhuma estrada de acesso nem contava com energia elétrica, eu nunca quis essas facilidades. Uma época o governo do Estado queria dar de graça, eu recusei, sabia que aquilo seria o começo do fim. Então, com o acesso difícil, tudo que chegava lá em cima, telhas, vidro temperado, lajotas para piso, pias, portas, pregos, arame, óleo queimado, etc… tinha que ser trazido no lombo do burro ou nas costas de gente. Madeira eu tinha muita, na mata, mas era pau roliço e se eu queria uma tábua ou viga, elas precisavam ser serradas, ou com o serrote ou com o traçador.

Nessas horas, quando o bicho pegava, quando não dava pra fazer sozinho, eu pedia ajuda pro pessoal da roça. Eles tinham os animais e as cangalhas com os balaios, e me colocavam lá em cima todo o material, num verdadeiro trabalho de formiguinha. Foi nessa época, quando eu estava ainda estava planejando construir a segunda casinha, que me apareceu um tal de João Serra, um solteirão que tinha ido se esconder lá perto de casa. Um dia cruzei com ele na trilha e começamos a assuntar. O João parecia um homem das cavernas, tinha aquela sujeira preta debaixo das unhas, todo peludo, barba e cabelos ruivos enormes e de sandálias havaianas quase na lona de tão finas que eram. O sotaque era o pior caipirês da região, a fala parecia um grunhido pra dentro. Conversa vai, conversa vem, eu descobri que ele era serrador e que podia me tirar uma tábuas com o traçador, o que vinha a calhar, pois eu tinha algumas araucárias deitadas no meio da mata. Só dependia da disponibilidade do primo dele, um outro Serra, porque o traçador se opera a dois, é como numa dança, coisa bonita de se ver.

Depois de uns dias o primo deu o sim e eu quis combinar o preço, essas coisas é melhor acertar antes pra não ter mal entendido. Fomos até as árvores caídas, o João mediu tudo com um daqueles metros de madeira da marca Bambú e me deu o valor. Achei barato e até comentei com ele.

__João, mas esse valor é pra serrar toda essa madeira em tábuas de 30? Tem certeza? É isso mesmo, não vai me querer mexer nesse preço depois?

__Não, sô Chico, vô mexe nu preço não. Eu to fazeno um preço bão mai to quereno uma coisinha do sinhô. Ouvi dizê que o sinhô tem um baraio de carta que ajuda a desencaiá home sortêro.

Não sei como a informação tinha chegado aos ouvidos do João, mas, na certa, o “baraio” que ele falava era o tarot, que eu andava tirando pros chegados, coisa sem compromisso e na base da amizade. Nunca pensei que um caipira como o João pudesse se interessar, muito menos pra arrumar casamento…! No entanto, curioso que eu sou, resolvi dizer que ia botar o “baraio” pra ele, eu não tinha nada a perder. Fomos pro jardim lá de casa, estendi uma toalha preta no gramado e pedi pra ele cortar o baralho. Ele me devolveu as cartas, e meio que pedindo, meio que cobrando me disse…

__Sô Chico, eu quero uma muié com saúdi, trabaiadêra i honesta. Ser for peituda i boa di anca mió.

__Pensamento positivo é sempre bom, João, saber o que gente quer ajuda muito, viu!

Pedi que ele se concentrasse no objetivo e tirasse tres cartas com a mão esquerda. Os olhos do caipira percorreram sem pressa o leque de cartas espalhadas e, muito sério ele tirou cada uma das cartas e me entregou nas mãos uma após a outra. A primeira que que saiu foi o Eremita, depois os Amantes e finalmente o Mundo. Normalmente aquela seria uma combinação favorável para o que ele queria, mas fiquei temeroso de dar falsas esperanças para o pobre homem. Respirei fundo, me conectei com a intuição e ela me disse: “Vai fundo, é isso mesmo que você está vendo, pode falar pra ele!”. E eu falei.

__João, não demora muito você vai arrumar uma mulher do jeito que você quer. Não precisa nem ir na cidade, é ela vai encontrar você aqui no mato. Fica na sua, não muda nada na sua vida, que as coisas estão boas pro seu lado.

Os olhinhos do João brilharam, ele não cabia em si de contentamento. Me agradeceu e foi embora com um sorriso de orelha a orelha. Nos próximos dias, ele mais o primo me serraram toda a madeira, eu paguei e não ouvi falar mais do João durante uns meses. Um dia, passeando pela cidade, encontrei ele abraçadinho com uma mulher muito bem apanhada, mas não fosse ele me chamar eu não o teria reconhecido. Os dois irradiavam felicidade e dessa vez João estava limpinho, barba feita e cabelo cortado, nos pés uma botina de couro, faiscando de tão engraxada!

__ ÔSeu Chico! O seu baraio não faiô, quero apresentá a Maria, minha esposa!

Confesso que fiquei emocionado, me senti meio que responsável pela alegria daqueles dois. Conversei um pouco com eles, perguntei se iam morar na roça ou na cidade, se tinham planos de botar filho no mundo, essas coisas que se pergunta pra gente recém-casada. Na hora de ir embora, a Maria me pergunta, toda tímida e com uma voz muito doce, se eu não podia ler as cartas para uma irmã dela que já estava prá lá dos 40 e que nem Santo Antônio tinha conseguido desencalhar. Não deu pra negar, não consegui, o que custava tirar um tarozinho para uma solteirona encalhada?

Alguns dias depois me aparece a irmã da Maria, a Cida. E depois dela, uma fila interminável de gente subia o morro e vinha bater lá em casa querendo saber coisas. Volta e meia eu estendia o paninho preto e tirava cartas pra gente querendo saber de paradeiro de filho, documento perdido, traição, morte, saúde, mas o campeão mesmo, a fama que ficou é que o “baraio” era casamenteiro e fazia milagres com gente encalhada! De modo que, dessa época em diante, somei mais essa tarefa aos meus afazeres diários no sítio. E mesmo assim, muita gente ainda me achava um bon vivant, vivendo uma vida de aposentado desocupado, lá em cima na montanha…

Anúncios

Tags: , , , , , , , , , , , , , , ,

2 Respostas to “O que você fica fazendo, sozinho, lá em cima daquela montanha?”

  1. chicoabelha Says:

    Edna, como sempre, você me percebe com uma precisão surpreendente. Na época eu não tinha essa perspectiva, mas hoje sei que o período que vivi na floresta foi mesmo o do retiro do eremita. Compartilhar essa vivência, tem sido muito gratificante, é o meu Mundo! rsrrs!

  2. edna Says:

    Logo no início…Faz seis meses mais ou menos…Não conhecia você…Ao menos não como agora que ja li tanto a seu respeito.
    Logo que tive contato com a sua história…Essa de ter ido morar na mata…Tive essa intuição do eremita da carta do tarot…Essa impressão de alguém que tem um trabalho grandioso a fazer…Silencioso…Interior…Mas que ao mesmo tempo é transformador…O eremita busca em sua gruta o recolhimento…É isso que uma gruta representa…Escuridão, inconsciente, recolhimento, desprendimento… E mesmo afastado da vida mundana não perde a sua luz…
    Descreve em seu texto exatamente isso…Lá…Dentro de seu recolhimento foi procurado por tantas pessoas que precisavam de algo…Seja uma luz ou uma orientação…Acredito que todos temos uma missão…Acredito que lá…Na mata…Foi construir a sua…Essa…A de dividir com quer quer ou precisa esse que é você…
    A carta mundo que escolheu…Perfeita! Essa é a sua carta…Esse é o seu momento…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: