Memórias (A cabana)

Na escola em que eu estudava, na cidade, por mais de uma vez eu passei por arrogante. Não era pra menos, nós do CTA éramos muito diferentes do povo da cidade. Praticamente todos os que morávamos no CTA tínhamos vindo de fora, muitos haviam até morado no exterior, era mais do que natural que nosso comportamento cosmopolita se chocasse de frente com o do pacato e interiorano povo de São José dos Campos. Some-se a isto o fato de que nossos pais, contratados pelo ITA, faziam parte da elite pensante da nação; os joseenses tinham todos os motivos para implicar com os nossos ares de superioridade.

Minha mãe conta que logo que ela chegou ao CTA, vinda de São Paulo, em agosto de 1950, as instruções que receberam eram de que saíssem da área do CTA o mínimo possível, para evitar o contágio pelos tuberculosos, que nessa época lotavam os sanatórios na cidade. Se tivessem que ir ao povoado, que evitassem contato físico ou o consumo de um simples e trivial cafezinho. Era perigoso até se sentar no mesmo assento, num táxi que tivesse sido usado por um tísico! Talvez por isso o CTA foi planejado para ser auto-suficiente, com supermercado, açougue, farmácia, cinema, banco, hotel, igreja, restaurante, posto de saúde, etc… Mas na época que ela chegou, ainda não estava pronta a escola, que havia sido prometida para os filhos dos professores do ITA e funcionários do CTA. Por isso, minha mãe tinha que se deslocar para a cidade todos os dias, numa caminhonete americana de banco de madeira, que passava recolhendo todas as crianças em idade escolar, e os levava do CTA até o João Cursino. Com 12 anos e recém saída de um colégio de freiras em São Paulo, ela ia para a escola toda embonecada e dividia os bancos escolares com rapazes já barbados, que nem sapatos tinham nos pés. O contraste era evidente!

Foi nessa mesma escola, no João Cursino, duas décadas mais tarde, que eu acabei cursando o meu colegial, que naquele tempo ainda se dividia entre clássico e científico. Com a mente nada exata que tenho, claro que escolhi o clássico! Mas minha vontade, mesmo, era de ter ido para o Olavo Bilac, onde estudavam todos os meus amigos mais próximos. No entanto, com seis filhos pra sustentar, pagar uma mensalidade de escola particular estava fora de cogitação para os meus pais. O remédio foi me mandarem para uma escola mais barata, onde eu não conhecia ninguém e onde acabei sendo um estranho no ninho… Imaginem a cena: chega um aluno novo, que não fala com ninguém e passa os intervalos das aulas lendo um Dicionário de Filosofia! Esse cara era eu, meus colegas deviam me achar um nerd, mas o que estava era me escondendo atrás de uma pretensa erudição, por pura timidez e falta de jeito. Ao invés de me socializar, o que eu consegui foi me isolar ainda mais! O gelo só se quebrou quando meus colegas perceberam que eu era bom em inglês e português e passaram a me pedir cola direto… Mas não foi suficiente para me integrar com eles não, eu continuava muito mais identificado à turma do CTA.

À tarde, já de volta da escola, meu programa era me juntar com alguém que estivesse dando sopa entre os Hs ou nos pontos de ônibus e combinar alguma aventura. Que podia ser desde uma guerra de “bomba amarela” (um cogumelo que brotava debaixo dos eucaliptos do H17 e que espalhava uma fumaça amarela quando impactado) até uma excursão à lagoa lá na área dos institutos, em busca de escorpiões, aranhas, lacraias e girinos. Ou ainda, dar pedrada em casa de marimbondo e sair correndo, por maldade pura e simples…

Mas já naquela época, o que eu gostava mesmo era de cavucar a terra. Lembro de ter passado uma tarde toda com o Neném (Weis) destruindo um cupinzeiro enorme, só pra encontrar a rainha, coloca-la num pote de maionese e mostrar pra toda a “negadinha” (turma), como se fosse um troféu. Agora, a grande obra de escavação foi o que nós chamávamos de “cabana”. Um buraco de 2 andares que escavamos perto da pista de “bicicross”, a famosa Intergalhos, cujo nome era uma junção de Interlagos, o circuito automobilístico, e dos galhos dos eucaliptos que sombreavam o traçado da nossa pista. A entrada da “cabana”, ao nível do chão, era toda camuflada, os adultos não podiam saber de nada, era tudo secreto. Levantava-se o madeirit, ou algo do gênero, e avistava-se uma passagem com uma escada de 1,5m, que levava à primeira câmara, que devia ter o volume aproximado de uns 3 ou 4 mil litros. Espalhados pelo chão do primeiro nível, alguns pedaços de pau, velas, fósforos, latas daquelas de 18l com alça, uma pá e algumas facas, material esse que era usado na engenharia da escavação. Nessa primeira câmara ainda filtrava alguma luz do sol, mas na segunda, que saia do piso da primeira, reinava a escuridão completa, só dava pra ficar lá embaixo com lanterna ou com vela. As escavações eram realizadas por turnos, as latas cheias de terra passando de mão em mão até chegar na superfície. pois no andar mais inferior o ar abafava e ficava muito quente quando estávamos removendo a terra. Era um trabalho de formiguinha que a mim dava grande prazer e a sensação de estarmos construindo um mundo à parte dos adultos, independente, só nosso, essa coisa bem característica de adolescente.

Na cabana devem ter acontecido muitas coisas que eu nunca soube, já que era grande o número de escavadores. Mas para mim, além do prazer de cavar, a curtição eram os campeonatos de xadrez, jogados sempre à noite, no primeiro andar e à luz de velas. Participavam o Wolfgang, o Laia, o Gordinho, o Carweis, o Liteira e o Butina, que eu me lembro. Pois foi numa noite dessas, na final de um campeonato, estávamos todos reunidos quando alguém que tinha ficado lá fora de vigia deu o alarme.

__O pai do Wolfgang! O pai do Wolfgang! Corre, “negadinha”, corre que ele tá vindo!

O pai do Wolfgang, o Prof Valter, era um senhor alto e muito sério, que impunha respeito e era temido por todos nós, principalmente pelo filho dele, que se fosse pego ali, na certa ia levar uma boa coça. Em dois tempos não sobrou ninguém dentro da “cabana”, saímos todos zarpando, antes que ele chegasse. Uma semana depois, quem passasse por ali, só iria ver uma elevação de terra vermelha revirada, mas uma alma mais sensível talvez pudesse escutar os soluços do nosso sonho que ali jazia enterrado…

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13 Respostas to “Memórias (A cabana)”

  1. chicoabelha Says:

    Foi pura sorte ter achado essa foto, se não fosse ela teria que ser uma dos eucaliptos, mas onde achar isso agora?

  2. edna Says:

    Quando ví achei que era foto sua…Do CTA…Justamente por ter notado as folhas de eucalípito que menciona no texto…

  3. chicoabelha Says:

    Sim, eu pensei de avisar você que a imagem é a do tal cogumelo. Não foi fácil de encontrar, tive que googlar muito antes de topar com ela. Estava num site sobre cogumelos australianos, vc pode ver que tem umas folhas de eucalipto ao lado, justamente o meio onde ele nascia lá no CTA!

  4. edna Says:

    Já ia mesmo perguntar da imagen…É o tal Cogumelo suponho…rsrsrsrs

  5. edna Says:

    O coração é um bom lugar pra nascer um livro…Tudo vem no seu tempo! Ele vai acontecer quando o momento certo chegar…

  6. chicoabelha Says:

    Sim, não me vejo escrevendo este livro hoje. Preciso de um empurrão da vida…

  7. edna Says:

    “Pode demorar anos pra ser transformado em palavras… Ou será que não?
    …”

    Levando em conta as reticências…Acho que pode levar anos sim…rsrsrsrs

  8. chicoabelha Says:

    Mãe, eu me lembro muito bem que você disse, não faz muito tempo, que seus colegas no João Cursino não tinham sapatos, usavam sandálias havaianas ou coisa do tipo, ou seja, não usavam sapatos nos pés!
    Os bancos da caminhonete eu confundi mesmo, não consegui imaginá-los de couro.
    Quanto ao contágio, eu entendi que era para vocês se cuidarem ao máximo, pois como iam saber quem era tuberculoso, ou não?
    É verdade, sem imaginação eu não sou nada, adoro voar! rsrsrsrs!

  9. MariaHelenaLacazRuiz Says:

    Chico, quem disse para vc que os bancos da caminhonete eram de madeira? Eles eram de couro mesmo.Que historia era essa de que evitassemos o contato com os joseenses? Não me lembro disso. O cuidado é o de sempre, para evitar doencas.E os meus colegas nào andavam descalcos.Sua imaginacào voou longe…Que pena que nào percebemos o seu desejo de cursar o Olavo Bilac… Teriamos feito um arranjo para que vc estudasse lá.Porem….agora não dá mais.Mãe

  10. chicoabelha Says:

    Pode demorar anos pra ser transformado em palavras… Ou será que não?

  11. edna Says:

    Feliz de quem tem um romance no coração e a capacidade de colocá-lo em palavras…Vou esperar por ele!

    Publica Sim…É lindo o texto…
    Bjs

  12. chicoabelha Says:

    Edna, não sei se vou publicar este texto no YuBliss, ele é muito dirigido a quem me conhece ou viveu no CTA do meu tempo, não acha? Sendo assim, estou livre do Tony! rsrsrsrs!
    Sobre a minha vocação de arquiteto, eu vivia construindo cabanas quando criança, acho que nunca parei. Quando escoteiro, uma das coisas que mais gostava era construir cabanas com galhos e folhas. Acho que é a coisa canceriana da relação com a casa…
    Depois que o prof Valter apareceu e o local foi enterrado, ali virou meio que zona proibida, parece que houve alguma advertência por parte dos pais, não me lembro bem, mas a região da cabana ficou com o estigma de zona proibida. E tem outra coisa, a gente já tinha 16 ou 17 anos, estavamos ficando velhos! rsrsrsrsrs!
    Você me fez lembrar que tenho o projeto de escrever um romance, mas ele ainda não se desenhou na minha mente, está apenas no coração…

  13. edna Says:

    “dar pedrada em casa de marimbondo e sair correndo, por maldade pura e simples…” Já vejo o Tony crucificando você por isso! rsrsrs

    Que delícia teria sido participar dessas aventuras…Apesar de ter vivido situações parecidas, pois tive infância e adoslecência no interior e fazíamos muitas coisa como essas…

    A cabana era o esconderijo…O refúgio…O segredo de vocês…Nisso reside todo o encantamento do projeto…
    Chico… Nascia aí uma de suas vocações…O arquiteto já morava em você…Tinha notado isso?

    Então o Prof Valter acabou com a brincadeira?
    Não voltaram a usar a cabana depois disso…

    Sua história em alguns momentos me lembrou o filme stand by me, amigos unidos por um ideal comum…
    http://www.adorocinema.com/filmes/conta-comigo/

    E tem um pouco do encantamento da casa da árvore do ponte para terabítia
    http://www.adorocinema.com/filmes/ponte-para-terabitia/

    Amei! Mas acabou tão rápido…Queria que fosse mais comprida 😦

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