A garrafa de azeite

Eu caminhava pela estrada de terra com meu amigo frances, os dois voltando do correio, onde tínhamos ido buscar as notícias, cada um do seu país. Naquela remota cidadezinha na costa sudoeste da ilha de Creta, Paleochora, a correspondencia demorava uns 15 dias pra chegar do Brasil e uma semana quando vinha da França. Para chegar à nossa casa, tínhamos que percorrer cinco kilometros entre a montanha pedregosa e o mar azul turquesa, uma paisagem de tirar o fôlego, com oliveiras, amendoeiras e parreiras ao longo de todo o caminho. Estávamos em dezembro de 1989, inverno europeu, um vento gelado soprava do norte, fazendo com que a caminhada fosse muito penosa. Minhas roupas brasileiras eram totalmente inadequadas e o que me salvou foi um sobretudo de lã que eu tinha achado na praia. Eu sentia muito frio, pela primeira vez na vida eu sentia frio.

Pierre, com quem eu dividia a casa para a qual nos dirigíamos agora, era um normando magrelo, cabelos lisos escorridos e com os dentes bem amarelados, manchados pelos Gauloises sem filtro que fumava, um atrás do outro. A casa pertencia a uma senhora dinamarquesa que nos deixou ficar lá os 3 meses de inverno, cuidando de seus 4 gatos, enquanto ela estava na Suíça levantando um dinheiro fácil como cuidadora de idosos, o que lhe garantiria uma vida mais do boa durante o resto do ano. Pierre eu nos encontramos em uma balada na cidade de Paleochora, contávamos passar o inverno colhendo azeitonas ou qualquer outro trabalho (δουλειά) que aparecesse. E trabalho era o que não faltava, e muito bem remunerado, pelo menos para alguém como eu, que vivia espartanamente. Nos seis meses que passei na Grécia, ganhei dinheiro para continuar viajando mais seis meses e quando voltei para o Brasil, tinha nos bolsos os mesmos 2000 dólares que tive que mostrar na imigração, no aeroporto de Barajas, Madrid, para provar que eu tinha como me virar na Europa.

Pierre tinha ido parar na Grécia porque estava lendo A Odisséia, de Homero, o que despertou no rapaz a curiosidade de conhecer in loco o cenário do poema. Eu fui parar na Grécia fugido do rigor do inverno europeu. Alguém na França me disse que em Creta precisavam de apanhadores de laranja (πορτοκάλι) e eu não tive duvidas, atravessei a Itália, tomei um barco em Brindisi e aportei num país cuja língua eu não falava nenhuma palavra. Eu olhava para as placas escritas no alfabeto grego e me sentia como num labirinto. Minha salvação, mais uma vez, foram os mochileiros estrangeiros, que conheciam tudo de antemão, graças aos seus inseparáveis companheiros de viagem, os guias do Lonely Planet. Com a ajuda deles fui parar num albergue da juventude, passei alguns dias em Atenas e logo que pude zarpei para Creta, onde encontrei o Pierre na balada.

Nós dois, recém chegados na cidade, estávamos pagando quarto em hotéis e buscando uma alternativa mais barata para passar o inverno. Os quartos não eram tão caros, era fora da temporada, mas eu já tinha feito as contas e se eu continuasse num hotel, minha grana só daria para mais 2 meses… Pierre sugeriu que a gente morasse numa caverna, isso não ia nos custar nada, e no dia seguinte fomos visitar um outro francês que morava debaixo de um amontoado de pedras num canto ermo da praia. Fiquei apavorado com a possibilidade do mar subir e afogar a gente lá dentro, eu não estava preparado para viver de maneira tão despojada, ainda. Mas na caverna, com o frances, estava morando uma gringa que tinha sido roubada por um argelino, ficou sem passaporte e sem dinheiro e tinha que voltar para o país dela.  Ela nos falou de uma bocada que ela ia pegar se não fosse pelo infortúnio de que fora vítima. A bocada vinha a ser a casa da tal senhora dinamarquesa, que precisava de alguém para cuidar dos gatos enquanto ela estava fora. Acertamos com a senhora, a dona Barbara, que nos deixou com a casa e os gatos, não sem antes fazer mil recomendações sobre os privilégios dos felinos, que ela tratava como filhos. Eles tinham que dormir na cama dela e comer conosco à mesa, uma loucura que respeitamos na primeira semana. Depois disso eles passaram a ser gatos normais e não reclamaram nem um pouco…

Era para a casa da Barbara que nos dirigíamos naquela tarde fria e ventosa, depois de um dia de trabalho exaustivo, colhendo tomates em uma estufa, os dois em silêncio, compenetrados, cada um lendo a sua correspondência. As minhas falavam de uma inflação galopante, de preços que mudavam a cada hora, eu dando graças a Deus de ter saído do Brasil e estar vivendo numa economia estável, onde eu podia fazer uma previsão com base no que eu ganhava, mesmo sendo trabalhador braçal num país que ainda pleiteava entrar no clube dos desenvolvidos. As cartas do Pierre eram da noiva desconfiada, cobrando provas de que um dia ele retornaria à França para se casar com ela.

Nossas mochilas vinham carregadas de tomates, os patrões nos deixavam levar o quanto quiséssemos das estufas; todos os gregos que cruzei sempre foram muito generosos comigo. Kυρία Marika, por exemplo, nos servia frutas secas e raki, uma aguardente de uva muito forte, sempre que íamos à sua casa para fazer uso do único telefone que havia no povoado de Anidri. Kυρία Marika e Kύριος Pavlos, seu marido, eram dois velhinhos que nos tratavam como se fôssemos netos deles. Com o pouco ingles que ela sabia e o pouco grego que falávamos na época, estabeleceu-se entre nós uma relação muito gostosa, a ponto de ela se preocupar se tínhamos o suficiente para comer, se não estávamos passando frio, se estávamos nos dando bem com os patrões, esse tipo de coisa que só mãe e vó se interessam. Nos sentíamos como sendo da família, tal o grau de hospitalidade deles. Mais tarde, na época da Páscoa, Kυρία Marika me apresentou a neta dela, uma garota muito bonita e que já tinha morado nos EUA, isso sendo uma grande vantagem, no entendimento deles. Ficou claro, nessas alturas, que eles queriam me arrumar um casamento. Fiquei assustado e comecei a espaçar minhas visitas, mas felizmente meu visto estava pra vencer e eu saí da Grécia pouco tempo depois. Eu não teria agüentado uma ser adotado por uma sufocante família grega…

Kυρία Marika sempre nos dava o excedente da sua horta, eles plantavam muita fava, cenoura, repolho, cebola e nabo e o que não consumiam tinham o prazer de compartilhar. Neste dia, quando chegamos já era noite, passamos na casa dela e apanhamos uma cesta com os vegetais, que ela deixava separados para nós quando chegávamos muito tarde e colhemos também um pouco de urtiga. Nosso plano era fazer um ensopado com os legumes e o frango que trouxemos da cidade, acompanhados de vinho grego (κρασί), que não é nenhuma especialidade, mas dava pro gasto. Ao chegar em casa, lavamos tudo e íamos começar a cortar a cebola e por o frango pra refogar, quando nos demos conta que faltava o azeite para fritar, que lá não se usa óleo, a gordura nacional é o azeite de oliva. E agora? Pedir para Kυρία Marika estava fora de cogitação, já era muito tarde. Ficamos olhando um pro outro com cara de bobo…

__Et alors, qu’est ce qu’on fait? – “E agora, o que a gente faz? – perguntou o Pierre?

__J’ai une idée, Pierre, attends moi,  je reviendrai tout de suite! – “Eu tenho uma idéia, espere que eu já volto”- eu disse a ele, mas não falei o que era.

Fazia uns dias, por indicação da dona Barbara, eu tinha ido visitar uma igrejinha com pinturas no estilo bizantino, ali mesmo, não longe de casa. A igreja era um pequeno comodo, quase uma caverna, que ficava encravada na montanha e estava sempre aberta. As pinturas eram realmente muito bonitas e bem cuidadas, apesar do local ser muito simples e acanhado de tamanho. Mas o que me chamou à atenção foi uma grande quantidade de garrafas e garrafões que estavam ao lado do altar, devia haver uns 50 ou mais. Curioso, eu tirei a rolha de uma delas, cheirei e vi que era azeite de oliva. Muito depois fiquei sabendo que eram oferendas que os fiéis faziam, em agradecimento pela boa safra de azeitonas. Pois foi para lá que eu fui, munido de uma lanterna daquelas feitas com uma lata com uma vela dentro, na certeza de que ninguém daria falta de uma garrafa de azeite e que Deus iria me perdoar, sendo o motivo muito justificado.

Escolhi uma garrafa pequena, devia ter uns 500 ml de líquido, afinal a gente não ia precisar muito aquela noite, eu podia até repor depois, pensei, me desculpando. Eu já ia saindo, quando senti que um dos santos dos afrescos estava me encarando e não estava achando nada engraçado o meu pequeno delito. Me sentindo culpado e como se isso diminuísse o meu crime, ajoelhei e fiz o sinal da cruz em frente ao que eu achei que era o altar da igrejinha. Foi nessa hora que ouvi o barulho do trinco da porta e percebi que alguém entrou… Eu gelei! Um espírito? Pierre? Alguém do povoado que viu a luz dentro da igreja e veio ver o que era? Sei que eu fiquei paralisado e não me mexi até escutar uma voz grossa dirigida a mim.

__Kαλησπέρα! – “Boa noite!”.

Virei-me devagar e meus olhos puderam discernir, apesar da penumbra, que se tratava de um padre ortodoxo, um Papa, como eles o chamam, com um daqueles chapéus pretos, característicos deles. Arrisquei um boa noite em ingles e ele entendeu. Na sequencia, me perguntou, em ingles, o que eu estava fazendo ali. Pensei rápido, me vi ajoelhado ali no chão e resolvi tirar proveito da situação.

__I’m praying, papa! – “Estou rezando, papa!” – eu disse com voz grave e baixa.

Ele me lançou um olhar de aprovação, a anos-luz de imaginar minhas reais intenções. Mas minha audácia não sairia barata. O papa pos-se a discorrer sobre a fé ortodoxa, me inquiriu sobre a minha, de onde eu vinha, etc… e ainda teve a pachorra de me ensinar o pai-nosso em grego. Se algum crime eu cometi, ali mesmo eu paguei, pois passei mais de hora “preso” pelo papa, encantado de ver alguém tão devoto em sua igreja. Antes de nos despedirmos, como sinal de hospitalidade, tão característica dos gregos, não é que ele me entrega de presente a mesma garrafa de azeite que eu tinha ido buscar na sua igreja? Ironia do destino? Não sei, o que sei é que quando cheguei em casa, Pierre já tinha preparado a janta e já tinha comido. No lugar do óleo ele usou uma tantada de azeitonas espremidas e descaroçadas e sabe que até que não ficou ruim o ensopado feito dessa maneira! Intrigado com a demora, me perguntou o que tinha acontecido. Respondi que eu tinha me perdido, o que não era de todo mentira…

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3 Respostas to “A garrafa de azeite”

  1. Edna Says:

    Vou ler sobre as urtigas…
    Vivendo e aprendendo com Chico Abelha! rsrsrs
    Turista realmente perde muita coisa…Perder a câmera deve ser muito frustrante, pois junto perde suas melhores recordações das férias…
    Uma pena!
    Imagino como estava quando chegou ao ponto de queimar suas fotos…
    Entendo que isso simbolizou algo interno que estava vivendo…
    Não faria isso deliberadamente…De jeito algum!
    Uma riqueza mesmo essa sua experiência…A balança ficou equilibrada, pois o prazer de viver tudo isso acabou minimizando os sofrimentos…
    Parto normal…Sou totalmente a favor!
    A gente não tem mais idade de ficar tirando coisas à fórceps…
    Tem que fazer o que gosta, por prazer de se ver realizado no que faz…
    Amei a história…Uma delícia de ler!

  2. chicoabelha Says:

    Cris, urtiga se come e é muito saudável e gostosa! Sei que ela é boa para anemia e estimula a produção de leite na mulher que amamenta. Estou louco para arrumar mudas de urtiga, quando eu morava no sítio tinha sempre ao lado de casa. Ela é rústica e nunca desaparece, um verdadeiro tesouro da horta! Veja mais informações no link abaixo…

    http://www.dulcerodrigues.info/plantas/pt/ortiga_pt.html

    Eu tirei fotos nessa época, com uma camara que uns amigos de dona Barbara me emprestaram ou me deram tbm, uma camara que eles tinham achado na praia, acredita? A praia lá era fonte de muita coisa boa, devido ao grande afluxo de turistas, principalmente alemães. Em seis meses que estive lá, tirei apenas um rolo de filme, imagine! Era caro e difícil mandar revelar… Mas, infelizmente, como você já deve saber, quando eu morava no sítio em Monteiro Lobato, fiz uma grande fogueira e queimei todas as minhas fotos, na intenção de romper com o passado.

    Essa história foi parto normal, escorregou rápido, depois de algumas horas com contrações… rsrsrsrss! E não precisa ficar com pena de mim, eu curtia muuuuuuito tudo isso enquanto vivia e se foi sofrimento, só me fez mais forte e melhor.

  3. edna Says:

    Fiquei olhando a figura no início… Intrigada!
    Entendi no final…rsrsrs

    Chico…Urtiga?
    Urtiga não é aquela folha que dá coceira? Pq colheram urtigas?

    Tem fotos dessa época?
    Que vontade que deu de conhecer os lugares por onde andou…

    Senti um pouco de pena da vida dura que levou lá,
    quase indo morar em uma caverna…Do frio que passou!
    No entanto imagino os lugares lindos que visitou,
    as pessoas que encontrou pelo caminho…Quanta riqueza!
    Quanta coisa já viveu…Nem imaginava tudo isso!

    Não é a toa que trabalhou nisso o dia todo…
    Mergulhou fundo em suas memórias…
    Amei a história…
    Linda!

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