Sobressalto, apenas.

Hoje de manhã dei um pulo na casa da minha mãe pra pegar emprestada uma daquelas panelas elétricas de fazer arroz. Enquanto descia do carro, parei um instante para contemplar as mudanças recentes na fachada da casa e foi o suficiente para me bater uma nostalgia de um tempo em que ela, minha mãe, não vai mais existir. Não sei de onde me veio tal pensamento, o fato é que ele se insinuou pela minha cabeça e chegou no coração, sob forma de um aperto saudoso. Minha mãe é uma pessoa muito forte em todos os sentidos, a impressão que tenho é de que ela é eterna, por mais absurdo que isso possa parecer.

Adentrei a casa tomado por esse sentimento e não sei se ela percebeu, mas dei-lhe um abraço um pouco mais demorado do que de costume. Sentei-me à mesa da cozinha com ela, meu pai e a moça que cuida dele, a Zezé. Graças a Deus o rádio não estava ligado na espalhafatosa Jovem Pan AM, senão eu teria pensado duas vezes antes de sentar. Congelei a cena, como um instantâneo que se quer guardar pra ser visto outras vezes.

Todas as vezes que apareço na casa da minha mãe, ela aproveita para me pedir ajuda na execução de pequenas tarefas, que antes, certamente, eram feitas pelo meu pai. É uma lâmpada que queimou, uma torneira que vaza, o computador que travou ou até mesmo um palpite na quantidade de açúcar do último licor que ela preparou. Hoje eu não estava com muito tempo, queria voltar logo pra casa e botar o feijão branco de molho, para o cassoulet que vamos preparar para o meu almoço de aniversário, amanhã. Mas fui fazendo sem pressa o que ela me pedia, como se o estar lá, na presença dela, me confortasse do sentimento de que um dia ela estará em outro mundo… E para minha surpresa, quando ela me convidou para caminharmos juntos os seus 800m diários, eu disse sim! Esqueci da pressa.

E lá fui eu acompanhar aquela senhora de 75 anos, mas que caminha com passinhos apressados de uma criança afoita. Tive até que pedir que ela diminuísse a marcha!  E ela lembra mesmo uma criança que se recusou a crescer, leva a vida como se tudo não passasse de uma brincadeira. Sua heroína é Pollyanna, tem um sorriso sempre estampado no rosto. Poucas vezes a vi contrariada e abatida, de modo geral está super disposta e encara programas que eu, 20 anos mais moço, recusaria sem pensar duas vezes. Ela vai a São Paulo de carro, sozinha, para assistir uma peça de teatro, organiza excursões de uma dia para compras no sul de Minas com ônibus fretado e não perde, por nada nesse mundo, uma festa com as amigas!

Já tínhamos andado metade do caminho, quando, de repente, ouvimos um barulho infernal. Era um rapaz que “varria” o jardim de uma casa com um daqueles sopradores movidos à gasolina, que num instantinho juntam um montão de folhas e o que estiver dando sopa no chão. Minha mãe ficou eufórica…

__Ah, eu quero um desses, isso é uma maravilha, que coisa mais prática e útil!

Ela adora tudo que é modernidade que surge no mercado, é o tipo de freguesa que faz a felicidade dos vendedores desses gadgets eletroeletrônicos que entulham as residências hoje em dia. Consumir a faz feliz, muito feliz! Ela compra e vai acumulando, vai enchendo os já transbordantes armários embutidos, já cheios de coisas acumuladas ao longo de décadas. Isso tem seu lado bom, antes de eu comprar qualquer coisa sempre dou uma perguntada:

__E aí, mãe, você não tem uma bolsa de viagem assim ou assado pra me emprestar?

Geralmente ela tem o que eu quero e não sossega enquanto não encontra. Começa então uma via sacra pelos armários, à procura do que ela jura que viu faz uma semana, em algum canto da casa. Passa a mão numa escada dobrável mambembe, que faz o desespero da gente que observa e sai prospectando pelos cômodos. Se ela não acha em um armário, passa pro outro, mas é claro que ela não desce ao chão para reposicionar a escada. Não! Aos trancos e barrancos, sem descer do último degrau, lá de cima, ela vai deslocando a escada até a próxima porta de armário! Uma septuagenária! É de arrepiar os cabelos! Essa é minha mãe, foi através dessa figura que euvim ao mundo…!

Já na volta da caminhada, me dei conta de quão aberta ela foi às pessoas que cruzaram o nosso caminho, e que ela cumprimentou praticamente todo mundo que encontramos. Curioso, perguntei:

__Mãe, você conhece esse povo todo?

__Conheço nada, eu cumprimento todo mundo, Chico!

Definitivamente, eu tenho todos os motivos para achar que ela é eterna. Decerto não passou de um sobressalto bobo, a nostalgia que me acometeu, em frente à casa dela hoje de manhã. Ela é muito mais jovem, está muito mais viva do que eu.

Ainda agora, enquanto eu escrevia essas linhas, ela me ligou e entre outras coisas falou que descobriu um chá ótimo, com uma mulher que encontrou por acaso numa loja, hoje à tarde na cidade.

__Que chá é esse mãe, e pra que serve?

__É chá de alecrim, a mulher que me falou dele garantiu que é ótimo para a pessoa se manter sempre jovem!

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4 Respostas to “Sobressalto, apenas.”

  1. edna Says:

    Você tá vivendo um processo interno e isso tem tirado coisas lindas de dentro de você…É um trabalho demorado e lento, por vezes doloroso, mas quando se vê o resultado…Faz ter valido a pena!
    Tem muito de suas reflexões…
    Tem muito da tua verdade interior…

  2. edna Says:

    E tá na sensibilidade de quem escreve também…
    Lendo a sua história me lembrei do poema do Drummond e da canção do Minton…

  3. chicoabelha Says:

    Grato, Edna, a beleza está nos olhos de quem lê…

  4. edna Says:

    Ah! É muito lindo o seu texto…

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