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Ultimamente, minha família tem sido presença assídua nos assuntos dos meus textos. Meus anos de isolamento na floresta me abriram um grande apetite pelas gentes em geral, minha família incluída nessa fome. Para sacia-la, tenho devorado reuniões, visitas a parentes, batizados, casamentos, festas de aniversário – entrei num verdadeiro rodízio de compromissos, que tem constituído o que chamo de meu processo de “deseremitização” (neologismo que criei para descrever minhas recentes transformações; de ser rural, isolado e anti-social, para um ser urbano, super-conectado e cheio de compromissos). Hoje já não vivo mais sem a agenda do computador e o telefone celular, este último tem me acompanhado até para uma simples e trivial caminhada…

Nos tempos em que fiquei isolado, aprendi a me auto-observar. Não tendo outras pessoas ao meu lado, o que restava era eu e aquele mundão de natureza ao meu redor. Assim, foi natural que, além de estar atento ao barulho da cachoeira e ao canto do jacuzada anunciando os primeiros albores do novo dia, eu também ficasse muito atento ao que me pedia o corpo, o que falavam meus órgãos internos e o que me sussurravam os pensamentos… Pude separar o que era meu, daquilo que foi colado em mim. Joguei fora o mais que pude; o que faz o regalo da juventude, transforma-se em lastro penoso para o corpo que envelhece… Sábio é aquele que carrega consigo apenas o necessário para viver bem o momento presente.

Queimei muitas fotos, paixões, medos e fantasias, nas noites frias e solitárias em frente ao fogão de lenha. Mas de uma coisa não pude me livrar – minha herança familiar, aquela que está impressa em meu código genético. Isso não sei fazer e nem sei se é possível ou desejável fazer. No entanto, é o que sinto-me tentado a fazer e é nisso que venho botando energia nesses últimos tempos. Segundo a Biologia, sou o produto da interação dos meus gens com o ambiente; se retiro os gens e o ambiente dessa equação, o que resta? Quero descobrir e ainda nesta vida…

Muito se fala de causas genéticas das doenças, mas eu desconfio demais disso. Acho que se deve tomar muito cuidado com esse tipo de afirmação, que me soa como se fosse uma sentença imutável, um destino anunciado. Temos os gens, sim, temos uma predisposição, é certo, mas nada garante que temos que seguir o mesmo caminho dos nossos antepassados. Se eu acreditar que sou o depositário passivo da hereditariedade dos meus ancestrais, estou frito! Vou ter diabetes, arteriosclerose e alzheimer? Eu não!

Eu ia longe nesses pensamentos, ontem à noite, enquanto observava meu pai, bem quietinho, sentado num sofá, em meio à algazarra que fazia um bando de crianças. Estávamos na festa de aniversário da minha sobrinha, evento ao qual compareci como parte do meu esforço estratégico de integração intensiva. Eu olhava meu pai, estático naquele sofá e imaginava meios e alternativas para não seguir pela mesma trilha. O que fazer para escapar da sina de perder o contato com esse mundo, estando ainda vivo o meu corpo? Como manter o controle dos meus esfíncteres e não passar pelo constrangimento de usar fraldas e ficar na completa dependência do outro? O que eu devo fazer ou como eu devo viver para não cair presa dessas doenças incapacitantes? Como me sentir útil, participante, vivo até o último suspiro?

Eu devia estar tão compenetrado e distante nessa hora, que a moça sentada ao lado do meu pai, a Anita, que cuida dele nos fins de semana, me perguntou preocupada:

__O sinhô tá bem, sô Chico?

A Anita é uma mulher da roça, uma pessoa simples, que já está na cidade há pelo menos uns 30 anos, trabalhando como doméstica. No entanto, ela deixa transparecer, em cada detalhe, as suas origens – desde o sotaque até o jeito de se vestir. Em meio ao falatório geral, mais a música indiana que tocava na televisão e a correria das crianças, consegui ouvir a pergunta dela como se fosse um eco distante…

__Hein?!? Ah! Tá tudo bem sim, Anita. É que to com a cabeça longe, to pensando em como é que as pessoas fazem pra ficar doentes. Esse Alzheimer que meu pai tem, por exemplo, como é que as pessoas ficam com Alzheimer? Tava pensando se não tem um jeito de escapar dele, parece que a coisa tá se espalhando demais da conta, não tá não?

__O senhô qué sabê o qui eu acho? – perguntou ela, com os olhos fixos em mim.

__Claro que sim, Anita. É tudo que eu quero saber nesse momento da minha vida!

__Pois eu tenho pra mim sô Chico, que essa doença só dá in gente qui pensa dimais, in gente inteligente. I tem mais, depois que começa a tomá remédio, só faiz piorá. O sr escuta o qui eu tô falano! Cunheci muitos causo assim…

Nessa hora, o pessoal todo foi pra varanda do apartamento, ver os fogos que meu irmão estava soltando na praça em frente ao prédio. Se a Anita falou mais alguma coisa eu perdi, porque fui com a turma assistir a queima dos fogos.

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4 Respostas to “Busca”

  1. chicoabelha Says:

    Edna, meu pai passou por várias anestesias durante a vida toda… nunca pensei que isso pudesse ter alguma relação com Alzheimer. Vou ficar atento. Interessante o que observou sua amiga.

    Não tenho duvida que o isolamento e a privação coloca a pessoa numa outra dimensão. Fiz isso instintivamente, era o que eu queria fazer na época. Hoje seria masoquismo.

  2. edna Says:

    Fala também do período em que ficou na mata…De solidão! Temos falado sobre a importância do outro para que possamos compreender a nós mesmos…Já que experimentou as duas coisas poderia dizer se agora que interage mais com outras pessoas…Se tem sentido que isso te dá uma dimensão maior de você mesmo? Vê no outro mais possibilidades de autocrescimento?

  3. edna Says:

    Ela tem trabalhado com idosos e tem observado que aqueles que desenvolveram a doença tinham passado por hospitalizações para cirurgias ou emergências médicas que tiveram…Muitos deles começaram a apresentar os sintomas em seguida…

  4. edna Says:

    Que coincidência…Falei sobre esse assunto na sexta, com uma amiga…Ela comentava que tinha uma teoria…A de que pacientes que se submetiam a anestesias e se isso ocorresse muitas vezes com a mesma pessoa ela poderia desenvolver a doença…Já que, na opinião dela…Desligar o cérebro com medicamentos era tarefa fácil, no entanto para o “start”…Para que ele recobrasse o funcionamento o caminho é lento…Observando a recuperação de mamãe notei exatamente isso…Ela foi apagada assim que entrou no hospital, agora que estão fazendo o processo de retorno da consciência dela…Vemos que ainda não consegue falar e aparentemente sem lembranças…Até que ponto essa doença pode ser fruto dessa dependência de fármacos que hoje é o tópico da saúde pública…

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