Sonho

Setembro de 1998

Naquela manhã de primavera, mal o dia se anunciou e Chico Abelha saltou de sua confortável cama de bambu, que construira no mezanino da sua cabana na floresta. Ainda meio escuro, ele saiu de casa, caminhou até o buraco que lhe servia de banheiro e deu sua contribuição diária para a fertilidade do solo da região. Pronto, estava novinho em folha, leve e solto para enfrentar o dia que começava. O frio da noite dera lugar a um vento morno que descia das montanhas e acariciava seus longos cabelos soltos. Ele inspirou lentamente o ar e uma sensação de paz e plenitude preencheu o corpo e a mente do ermitão. Mais uma vez ele se deu conta do privilégio que era estar naquele paraíso terrestre, onde tinha certeza que seria enterrado, um dia, quando a máquina do corpo decidisse que era hora de encerrar as atividades.

De volta à cabana, na varanda de cimento queimado, ele olhou preocupado para a roça de milho que ficava pro lado de cima da cabana de troncos. Ela pedia por água, estava seca demais. Ele poderia regar o milharal com água da mina, mas isso iria tomar muito do seu precioso tempo, melhor esperar pela chuva que o vento noroeste anunciava. Tirou as havaianas e, descalço pisou no chão encardido de tábuas de araucária, madeira tombada e serrada ainda no tempo em que ninguém falava de preservação da natureza, nos idos anos 60. Acendeu o fogão de lenha com galha de pinheiro, colocou água para preparar a cevada e num canto da chapa jogou 3 bananas prata com casca e tudo. Elas iriam assar lentamente dentro das cascas, até se transformarem num creme doce e aveludado. Virou-se para a pia de inox que destoava naquele ambiente rústico, abriu a torneira e começou a descascar os inhames que havia colhido no dia anterior. Na falta de pão integral, cuja última fatia havia sido consumida na noite anterior, o café de cevada, as bananas assadas e o inhame cozido seriam o seu desjejum naquela manhã.

Olhando pela janela em frente à pia, que dava vista para o pequeno jardim no estilo japonês, Chico Abelha passava mentalmente em revista as tarefas do dia, enquanto tirava a casca dos inhames. Normalmente, ele os comia crus, mas esta variedade era selvagem, exigia cozimento completo para ser consumido sem o inconveniente dos ráfides picando a boca e o tubo digestivo. A vantagem desse tipo de inhame, uma variedade rústica, de talo vermelho, é que não precisava de nenhum cuidado, crescia exuberante na pilha do composto, era só colher, descascar e botar pra ferver até amolecer.

Chico apreciava o que a natureza, de mão beijada, colocara ali à sua disposição. As prolíficas bananeiras, que rebrotavam infinitamente e sem nenhum trato, forneciam muito mais que o suficiente para o consumo e ao longo do ano todo. Não é à toa que a planta fora batizada pelos europeus com o sugestivo nome de Musa paradisiacaAlém dos inhames e das bananas, havia também as jabuticabas, os pinhões, os maracujás, as goiabas, os araçás, os araticuns e uma infinidade de frutas do mato. Com um pouco de planejamento, uma hortinha básica e um roçado, seria possível viver da produção local. Foi com o sonho da auto suficiencia, que este idealista, egresso da sociedade tinha chegado a este pedaço de terra esquecido no sopé da Serra da Mantiqueira.

Chico Abelha não entendia o por que das pessoas se matarem de trabalhar para consumir e acumular tanta inutilidade. Coisas e mais coisas, muitas vezes caríssimas e até mesmo perniciosas para a saúde delas! Ele ali vivia com o mínimo necessário para manter o corpo em boa forma e a mente limpa de pensamentos e desejos. Pra que mais? Nesse mais, estavam incluídas pessoas, festas, relacionamentos íntimos, tudo que envolvesse o contato com outro ser humano. Não que ele tratasse mal as pessoas que apareciam por lá, mas nunca as convidava, fazia questão de deixar claro que preferia estar só e até agradecia quando elas partiam. Para os mais chatos avisava que não estranhassem caso escutassem trombetas tocando no caminho da volta; era ele celebrando o fato de estar só novamente.

Terminado o desjejum, deixou sobre o fogão, terminando de cozinhar, as panelas de pedra com o arroz integral e o feijão guandu e saiu para mais um dia de labuta. Pegou uma calça e uma camisa surradas e fedidas que ficavam penduradas do lado de fora da cabana, vesti-as e sentou-se num banco na varanda, para calçar as botas 7 léguas. Era preciso sacudir bem as botas de borracha, elas eram o esconderijo predileto de cobras e aranhas. Naquele ermo, era prudente tomar todas as precauções a fim de evitar um acidente. Sem telefone e a pelo menos 4 km do vizinho mais próximo, uma picada de cobra poderia ser fatal. Apanhou o chapéu de palha, a foice, enfiou uma pedra de afiar no bolso de trás da calça e saiu com a idéia de abrir mais um pedacinho de roça lá pras bandas da cachoeira. A fresca da manhã dera lugar a um calor que não era normal, a chuva não devia tardar. Chico abriu um sorriso ao imaginar a chuva molhando a terra seca, cuidava das plantas como se fossem filhas…

O caminho até a cachoeira era uma trilha estreita de um metro de largura, ladeada de marias-sem-vergonha de todas as cores. Elas se instalavam sem cerimônia na beira da trilha, cresciam mais rápido que qualquer outra planta e não economizavam exuberância e beleza, afinal, estavam em seu habitat natural, um ambiente úmido e sombrio. Chico Abelha passou pelas colmeias, às quais devia o seu apelido, e sentindo o cheiro perfumado do mel de assa-peixe lembrou que já estava atrasado para a colheita. Anotou mais essa tarefa na lista de afazeres e seguiu até a clareira que pretendia roçar. Lá chegando, correu com os olhos a área a ser limpa e calculou que não gastaria mais que 2 horas para dar fim naquele gordureiro que escondia a parte mais fértil do seu sítio.

A roçada com a foice é como uma dança. Ela sobe, desce cortando, continua o movimento para o lado oposto até quase completar 360 graus, troca-se a posição das mãos e ela desce novamente cortando o mato. Chico Abelha passou as duas horas que calculara dançando com a foice, parando de vez em quando pra beber uma água e descansar os braços. Ah, sim, parou também para mudar para um lugar seguro, uma família de ratinhos do mato, que por sorte viu a tempo, antes que foice acabasse com eles. Com o sol já alto no céu, sentiu calor e dirigiu-se ao riacho, para o poço onde sempre tomava banho. Despiu-se e arrepiado entrou devagar na água gelada; na serra a água nunca era quente ou morna, pois corria entre as árvores, recebendo muito pouco dos raios do sol. Apanhou o sabão que escondia sob uma pedra, passou pelo corpo todo e mergulhou de novo para enxaguar-se. Deixou-se massagear pela força da água enquanto pensava no almoço. O estômago, nessas alturas, já estava pedindo o conforto de uma comida quente. No entanto, ao sair, Chico deitou-se na pedra aquecida pelo sol para secar-se e esqueceu-se do tempo. Os olhos cerraram-se ele mergulhou num sono profundo.

Passou ali estendido uns 20 minutos, imóvel, os olhos para o céu. Acordou assustado e incomodado com o ardido do sol quente, sua pele branca já vermelha de dor. Tivera um pesadelo totalmente fora de propósito. Estava num país muito quente, à sombra de umas palmeiras que pareciam de plástico, em meio a turistas super barulhentos, casado com uma mulher que nunca vira na vida mas que estranhamente lhe era familiar. Eles tinham dois filhos, que insistentemente pediam para comprar tudo que aparecia pela frente. O pior de tudo é que no sonho, Chico Abelha estava nú, de botas 7 léguas, sem chapéu, segurava numa das mãos um telefone celular e na outra uma foice. As pessoas falavam ingles com sotaque espanhol e gritavam de felicidade por estarem naquele lugar. Era tudo muito penoso e de uma intensidade insuportável.

O corpo todo suado pela exposição demasiada ao sol e o nervoso do pesadelo o fizeram entrar na água novamente. Já acordado e refeito depois do mergulho, sacudiu a cabeça e mandou embora a sensação ruim de ainda havia pouco. Deu risada de si mesmo, sonhar com tal absurdidade… Vestiu-se, tornou à casa, preparou uma salada de mostarda da horta, almoçou com o arroz e o inhame, deitou-se na rede para a sesta e esqueceu do sonho, que mergulhou de volta no poço profundo de onde havia saído.

Julho de 2011

Com o corpo todo suado pela exposição demasiada ao sol e nervoso porque as paredes do estômago estavam coladas de tanta fome, Chico Abelha foi tomado por uma sensação de deja vu muito intensa, em meio aqueles turistas barulhentos que coalhavam Miami Beach. Pegou o celular e ligou emburrado pela terceira vez para o hotel em que estavam hospedados, cobrando o almoço que lhe prometeram servir na praia, à sombra dos coqueiros. Depois de uma conversa tensa em espanhol, desligou decepcionado. Virou-se para a esposa e as crianças e disse com raiva:

__E dizer que estamos no primeiro mundo, que vergonha! Acho melhor comermos cachorro quente e uma coca-cola naquele boteco, os caras falaram que estão atrasados e ainda vão demorar, isso é o fim da picada!

As crianças, que até então tinham os olhos colados, cada um no seu game predileto, esboçaram uma reação, à simples menção das duas palavras mágicas; cachorro quente e coca-cola. A família recolheu seus cremes, chapéus, toalhas, documentos, chave do carro e eletrônicos, botou tudo numa sacola de palha e partiu em direção ao boteco.

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9 Respostas to “Sonho”

  1. edna Says:

    É verdade…A água de rio ou cachoeira deixa o cabelo muito bom…Nem precisa de condicionador pra desembaraçar…
    Não sei quem é…Não faço idéia…

  2. chicoabelha Says:

    Não tenho nenhuma saudade do cabelo comprido… pra mim não dava trabalho, eu nunca penteava e tomava banho de rio, de modo que o cloro não incomodava nem um pouco… Quem é esse Sansão? Eu dei um google e achei esse cara…

  3. edna Says:

    Muito bom esse Sansão…rsrsrs
    Não teria escolhido uma melhor!!!
    Tem saudade de ter cabelo Comprido?
    Dá muito trabalho pra cuidar né?
    Imagino morando na mata e tomando banho de cachoeira então…rsrsrs

  4. chicoabelha Says:

    Nem eu sei… vou tentar descobrir… descobriiiiiii! mas só eu posso fazer isso, não acho que vc consegue. só o admin pode fazer mágica! rsrsrsrs!

    https://i0.wp.com/im.r7.com/record/files/2C92/94A4/2DC5/F205/012D/CDE6/53F1/205C/0-Sans%C3%A3o-e-Dalila---Munir-Chatack---Sans%C3%A3o-(Fernando-Pav%C3%A3o)-3.jpg

  5. edna Says:

    Ia postar uma foto do sansão…Mas não sei como fazer isso aqui!rs

  6. chicoabelha Says:

    Vou experimentar fazer isso, sempre achei que as receitas macrobióticas eram para quem acordava e dormia dentro da cozinha… elas são demais de trabalhosas! rsrssrs!
    Pois é, o cabelo, se foi com o sonho…

  7. edna Says:

    É uma técnica que aprendi na macrobiótica…Tem a ver com potencializar a energia…e é um processo muito rápido…Uma ligeira escaldada só…
    É mas agora o seu cabelo é curto…rsrsrsrs

  8. chicoabelha Says:

    Edna, nunca escaldei e espremi antes de refogar nada… qual é a intenção? Acho que perde nutrientes…
    Como disse no YuBliss, a cabana ainda está de pé… a janela existe… pedindo, o universo pode ajudar…
    Abraço!

  9. edna Says:

    Costumo preparar a mostarda escaldando-a em água fervente, utilizo hashis compridos para não queimar a ponta dos dedos…
    Escorro, espremo, corto de 3 em 3 centímetros, refogo em panela de fundo grosso com azeite e tempero com shoyu…Fica deliciosa!
    Senti vontade de olhar a paisagem que descreveu da janela de sua cozinha na época…
    Abraço

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