Miami

Miami nunca esteve nos meus planos de viagens, mas por um capricho do destino, minha família e eu acabamos indo passar uns dias neste rincão latino incrustado no sudeste dos Estados Unidos. Conforme me disseram amigos, assíduos freqüentadores deste paraíso do consumo, eu mal conseguiria falar o ingles, tamanha a concentração de falantes da língua de Cervantes. No entanto, quem nos recebeu no balcão do hotel, já tarde da noite, foi um vietnamita com um corte à la Neymar e que não sabia patavina de espanhol. Mesma coisa com as mulheres da limpeza, que fizeram cara de tacho quando engatei um espanhol para pedir mais cobertores e papel higiênico. Tive que recorrer ao francês, pois eram haitianas e até o inglês delas era precário. Vi Miami como uma nova Babel, edificada com tijolos de hedonismo, solidamente unidos com a argamassa do consumismo…

Vista do avião, Miami causou em minha esposa o mesmo incomodo que tive ao observar uma cidade norteamericana, do alto, pela primeira vez. É tudo muito quadradinho, planejado, arrumado demais para quem viveu meio século na saudável bagunça do terceiro mundo. Há placas indicativas e proibitivas por todo canto, tive a má impressão de estar sendo conduzido por currais, assim como se faz com o gado confinado. E por falar em confinamento, que sensação mais horrível a de não se poder abrir as janelas no quarto do hotel! Em vão procurei uma maneira de fazer entrar um pouco de ar da rua, naquele quarto recendendo a produto de limpeza, amaciante de roupa e um vago odor de mofo…

Nas ruas não se vê gente a pé, a não ser nas áreas comerciais e turísticas. Tem-se a impressão de uma cidade fantasma. É tudo tão longe, qualquer coisa que se queira fazer é preciso usar o carro. Acabei me acostumando, mas a custo de muito sofrimento. Logo na chegada, alugamos um carro, depois de longos tramites burocráticos e assédio de vendedores inescrupulosos. Eu não tinha intimidade com carros automáticos, de modo que ia dirigindo com muita cautela em direção ao hotel, prestando grande atenção ao que dizia a voz feminina do GPS. Num dado momento percebemos que a geringonça estava doidinha, nos fazendo dar voltas em torno do mesmo ponto, ou afirmando que estávamos no meio do mar, quando na verdade estávamos é cercados de casas por todos os lados. Desesperados e perdidos naquele labirinto de autopistas coalhadas de carros que mais pareciam estar apostando corrida, resolvemos abrir mão da última palavra em tecnologia em geoposicionamento e passamos a seguir as placas em que se lia Miami Beach. Foi só assim que conseguimos. Confirmei, mais um vez, que quanto mais a informática invade nossas vidas, mais complicadas elas ficam…

Finalmente instalados no hotel, deixei minha turma e fui procurar um estacionamento, pois o Best Western Atlantic Beach resort, com esse nome todo pomposo, não conta com vagas suficientes para todos os seus 182 quartos. Pasmem, tem apenas 23 vagas numa garagem que fica a um quarteirão de distância! Pois bem, por sugestão do recepcionista vietnamita, me dirigi a um estacionamento localizado a duas quadras do hotel e fui logo embicando na fila dos veículos que iam entrar. Um pretão fardado se aproximou e avisou que estavam lotados. Voltei para o meu hotel em busca de uma outra sugestão de estacionamento. O recepcionista vietnamita me disse, ou foi isso que entendi, que bastava usar o cartão do meu apartamento que eles me deixavam entrar. Voltei ao estacionamento e dessa vez não havia ninguém dizendo que estava lotado. Quando chegou a minha vez, fiquei em frente à cancela esperando que ela se abrisse. Ela não abriu e fiquei ao lado do totem da cancela, tentando todo tipo de coisas com o cartão do apartamento. Devo ter ficado tempo suficiente para uma mulher se enervar e começar a me xingar e gritar em voz alta que eu devia voltar pra casa da mamãe… De repente me aparece um guarda desses de rua, com cara de índio, que pergunta se podia me ajudar. Eu disse que queria entrar no estacionamento mas não sabia como. Ele apertou um botão, um ticket surgiu de dentro do totem, ele recolheu e colocou na minha mão. A cancela se abriu e eu saí o mais depressa que pude do raio de alcance da voz da mulher do carro detrás. Foi tudo tão rápido, complicado e novo para mim, que no dia seguinte, quando fui buscar o carro, demorei 15 minutos para encontra-lo!

Complicado foi, também, para meu enteado se virar nas compras que fez no Sawgrass Mills, um enorme shopping center com mais de 300 outlets, que faz a alegria do povo que vai a Miami em busca de preços baixos. Ele procurava camisetas tamanho pequeno e lhe indicaram uma pilha numa prateleira. Depois de procurar por toda pilha, ele veio pra mim todo encabulado, dizendo que tinham sacaneado com ele, mandando ele procurar entre as camisetas de mulher. Eu achei estranho, já que estávamos na seção masculina. Indaguei dele:

__Mas por que você acha que essas camisetas são de mulher? Aqui é a seção masculina!

__É porque em todas elas tá escrito chica na etiqueta.

Não pude conter minha risada…

__Felipe, chica quer dizer pequena em espanhol! As camisetas são de homem, pode escolher tranquilo…

Fazer compras num local com tanta variedade e preços baixos, atividade que deveria ser muito prazerosa, acabou tornando-se cansativa. Foi muito difícil encontrar roupas do meu tamanho, nem as pequenas serviam em mim! Me peguei várias vezes procurando roupas na seção infantil! Minha esposa reclamava que as calças jeans para mulher eram muito masculinas e que a maior variedade de artigos era para os tamanhos large e extra large. Minha enteada que já é mocinha e muito magra também sofria com o avantajado do tamanho das roupas. Resultado é que ficamos dois dias inteiros andando por esse tal de Sawgrass em busca de roupas de fossem do nosso agrado. E devemos ter comprado mesmo muito pouco, pois segundo a balconista da TAM, que fez o nosso check-in, uma mala pequena por pessoa é coisa rara entre os brasileiros que voltam de Miami…

Os americanos são famosos por comerem mal, ou seja, ingerem um exagero de gorduras e carbohidratos. Eu, que temia pela minha alimentação, acabei me surpreendendo. Há muita comida cubana e mexicana, de modo que arroz e feijão não faltou. Depois, descobrimos que há também restaurantes brasileiros, mas o melhor de tudo, pelo menos para mim, foi a descoberta do Whole Foods, um supermercado de produtos orgânicos, naturais e comidas étnicas. Até os funcionários desta cadeia de lojas me pareceram mais naturais que o geral dos atendentes em outros estabelecimentos. Gente mais descolada, cabeludos tipo anos 60, muito à vontade e conhecedores do ramo. Quisera eu contar com uma loja dessas na esquina de casa… Foi no Whole Foods o único lugar onde encontrei iogurte com teor de gordura, digamos, normal. Em todos os outros supermercados só se encontra iogurte, diet, light, low fat, 0% de gordura. E assim com todo tipo de comida, daqui a pouco estaremos empacotando e vendendo água e ar com cheiro e sabor, em embalagens coloridas e chamativas, para quem não pode mais engordar de tanto que se entupiu de guloseimas…

Falando de embalagens coloridas e chamativas, lembrei das propagandas na TV, que acabamos assistindo algumas vezes, ao fazer nossas refeições noturnas no quarto das crianças, que contava com uma espaçosa sala extra, uma boa geladeira e um forno de microondas. Comprávamos saladas, frutas, pães a alguma proteina no Whole Foods ou no Publix e preparávamos ótimas refeições. Enquanto comíamos, víamos a TV, sempre em algum canal que as crianças haviam escolhido, geralmente algum reality show ou um daqueles programas que um calouro apresenta seus talentos para uma banca de 3 jurados. Pois bem, a primeira vez que assisti um desses comerciais anunciando antidepressivos, achei que não tinha entendido bem, que tinha me enganado. Mas não, era aquilo mesmo, eles falam dos sintomas, com uma voz paternal, dizendo que se você apresenta tristeza, fadiga, perda de interesse, ansiedade, deve procurar um médico, pois você pode se curar com o remédio que eles anunciam! E o pior de tudo é que eles propõem um free trial! Achei o cúmulo! Me lembrei das advertências que me faziam quando criança – Não aceite nenhuma balinha do pipoqueiro na frente da escola… A coisa não para por aí, não só os antidepressivos, mas todo tipo de medicamento é anunciado, para curar síndromes disso e daquilo, fazem comparação descarada com outros similares, um verdadeiro bombardeio de informações, que cobre todo tipo de sintoma, desde uma pequena fadiga até uma martelante dor de cabeça. Conclusão, nos EUA, você só continua “doente” se quiser!

Depois de um dia exaustivo de compras, o que tem de bom na escaldante Miami, é a praia. Água limpa, de um azul cristalino e morninha, se não fosse pelo tipo de gente que circula pela areia, poderia se dizer que estávamos no nordeste. No primeiro dia de praia, achei muito esquisito um senhor que circulava totalmente vestido, fone de ouvido e um bastão acoplado à cintura, “varrendo” a areia com a parte de baixo do bastão, que se alargava formando um prato de cor preta. Fui perguntar e descobri que Mr Stevenson fazia isso todos os dias, buscando e encontrando moedas, talheres, relógios e jóias. E não era só ele, nos dias seguintes encontrei outros caçadores de bugingangas perdidas pelos turistas, varrendo a areia com seus detectores de metais. Não consigo imaginar alguém fazendo isso no Brasil…

Se a água é limpa, o mesmo não se pode dizer da faixa de areia. Toalhas largadas por todo canto, latas vazias, brinquedos, papel, sacolas plásticas e uma quantidade enorme de cadeiras para alugar. Não vi nenhum quiosque de comida, muito menos vendedores ambulantes, tão comuns nas praias do Brasil. Senti falta da animação brasileira, do barulho, de gente jogando frescobol, mas o que mais me impressionou foi uma fileira de camas (sic), com lençol estendido e tudo, alinhadas quase que na arrebentação das ondas. Em cima delas, estendidos como pachas, os hóspedes do famoso hotel Fontainebleu. Servindo os pachas, atléticos rapazes negros, carregando drinques e quitutes pra lá e pra cá. Passei uma vez por lá, quase no fim do dia, quando os rapazes começavam a recolher as camas e a sujeirada deixada por esse povo. Me senti mal de olhar a cena, parecia um campo de refugiados, ou como observou minha esposa, um hospital de campanha durante a guerra…

Afora a praia, a região de Miami conta com muitos parques. Tivemos a oportunidade de conhecer 3 deles. O Barnacle Historic State Park, que fica em Coconut Grove, o Fairchild Tropical Botanic Garden em Coral Gables e o  Big Cypress Seminole Indian Reservation, dos indios Seminole, este último a umas 50 milhas de Miami Beach, onde ficava o nosso hotel. Foi muito legal ver o cuidado que eles tem com os parques, muitos idosos e voluntários exercendo todo tipo de funções. No Fairchild, por exemplo, quem nos serviu de guia e conduziu o trenzinho pelas diversas coleções de plantas, foi Nancy, uma advogada que doa seu tempo para a fundação que cuida do parque. Ela não entende nada de plantas, mas diz que decorou tudo que mandaram ela falar e tem o maior prazer de contar para os turistas sobre as plantas exóticas e a história do parque, que começou como um local para ir juntando os espécimes que David Fairchild ia recolhendo em suas viagens pelos 5 continentes. Conforme disse a Nancy, David Fairchild foi um dos responsáveis pelas cerejeiras que hoje enfeitam a capital norte americana.

O parque que eu tinha mais curiosidade de conhecer, não foi o que mais me impressionou. Uma reserva indígena e o modo de viver dos índios sempre mexeu com a minha imaginação, de modo que reservei o último dia inteirinho para conhecer o Big Cypress Seminole Indian Reservation. Esperava encontrar aquelas cabanas cônicas, indios de cocares coloridos e semblante sério. Uma placa na estrada vicinal dizia que à partir daquele ponto começava a reserva indigena. A única coisa que mudou foi a vegetação, que de pasto passou para árvores e arbustos. As casas não diferiam em nada daquelas dos americanos médios que se vê nos filmes. Fomos direto para o museu Ah-Tah-Thi-Ki, nos fundos do qual fica uma área que segundo eles é a vegetação original da região, antes da chegada do homem branco. Pagamos o ingresso e nos mandaram sentar numa sala escura para assistir uma projeção sobre a história do povo Seminole. Fiquei até comovido com o massacre os sucessivos ataques que eles receberam e a determinação de manter sua cultura. Mas à medida que o video ia chegando ao final, a emoção foi dando lugar à estranheza. Com a maior sem cerimônia eles orgulhosamente informavam que os indios seminole abriram, em 1979, o primeiro cassino em uma reserva indigena nos EUA. E que em 2007 eles compraram duas unidades da cadeia de restaurantes Hard Rock Cafe, e se entendi bem, tem também dois hotéis, um em Tampa e outro em Miami Beach.

Já meio desencantados, fomos, minha esposa e eu, fazer o tour de 5 milhas pelo caminho de tábuas de madeira, com muitas placas indicativas informando sobre as plantas e árvores e seus usos na cultura seminole. Um sol lascado, as árvores não conseguiam fazer sombra para nos proteger do sol escaldante do meio dia. Noventa por cento da vegetação dali é composta pelo Bald Cypress, que por sua grande resistencia à umidade, é chamada de “madeira eterna”. Lá pela metade do caminho, cortando o silêncio da mata, um rádio tocando música pop americana. Achei estranho escutar musica pop no meio de uma reserva indigena, por isso pensei que fossem trabalhadores fazendo algum conserto no tablado. Mas logo em seguida, ao invés de trabalhadores, encontramos uma réplica de aldeia indigena, com tres ou quatro quiosques de palha. Em cada um deles um velho ou uma velha fazendo artesanato, que de tradicional não tinha nada. Com fome, perguntamos se havia algo para comer. Nada… Um velho desdentado e fumando Marlboro tentou entabular conversar comigo, contando as glórias dos seminole. Senti tristeza. Bebemos um pouco de água de uma garrafa térmica e já na hora de sair apanhei uma folha de capim limão, esmaguei e aspirei o odor gostoso e refrescante. O velho, me vendo fazer isso começou de novo a falar, dizendo que usavam a planta em rituais de cura, mas gaguejou e não conseguia lembrar o nome da planta. Eu refresquei a memória dele.

__This is lemon grass.

__Yes, lemon grass .

O velho olhou para mim com cara de desentendido enquanto eu ia embora, nostálgico de um modo de vida cujos vestígios eu pensei que fosse encontrar naquela reserva.

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No dia seguinte, à noite, uns 15 minutos antes do pouso, sobrevoávamos alguma cidade nas proximidades de Guarulhos, minha esposa e eu admirávamos pela janelinha do avião, a beleza caótica das linhas formadas pelas luzinhas lá embaixo.

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Uma resposta to “Miami”

  1. Shanna Says:

    I have decided that I agree with Pa&r3cet#82i0; YOU LOOK EXACTLY THE SAME AS YOU DID 14 YEARS AGO! It’s nuts! If you still fit into your wedding dress, I may have some serious issues with you!I love you and I’m thinking about you today.

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