Salvo pela Profecia Celestina

Chegávamos à Tailandia, minha amiga brasileira e eu; depois de 8 meses na India e a diferença era brutal. Ruas limpas e enfeitadas com flores, transito muito mais disciplinado e um silêncio que me causou uma certa estranheza. Era como se faltasse alguma coisa, no caso, o barulho. Na India, em cada traseira de caminhão le-se o pedido – horn please – (buzine, por favor), e eles buzinam mesmo, sem nenhum dó do ouvido alheio. O transito indiano é caótico, move-se como uma frenética serpente que carrega em seu ventre barulhentos rikshás, bicicletas suicidas, caminhões apinhados de gente e as onipresentes vacas; tudo isso envolto na densa fumaça negra que sai dos canos de escapamento dos motores desregulados. Assim, durante o trajeto de ônibus, na hora e meia entre o aeroporto e o centro da cidade, Bangkok me pareceu estranhamente silenciosa e pacífica; o que casava direitinho com a imagem fantasiosa que eu tinha desse país, cuja religião oficial é o budismo. Na “Terra das Túnicas Amarelas”, em que quase 90% da população é budista, a constituição reza que até o rei tem que ser budista. Eu me imaginava chegando a um país muito mais evoluído espiritualmente, um modelo para o mundo; os cartazes no aeroporto ajudaram a confirmar essa minha impressão, pois anunciavam a Tailandia como – Land of Smiles – (Terra dos Sorrisos). Mais tarde, pude comprovar a veracidade do que diziam os cartazes, o povo tailandês tem 13 tipos de sorriso, cada um com um nome diferente! As variações vão desde o “sorriso polido que você dá para um estranho na rua”, até o “sorriso verdadeiro de quem acabou de ganhar na loteria”. Se você, distraído, trombou com alguém na rua, o mais provável é que essa pessoa vá abrir um sorriso ao invés de recriminá-lo.

Uma das expressões que eu mais escutei, durante os meses que passei na Tailândia, foi – mai pen rai – (não se preocupe com isso), dirigida a mim, toda vez que percebiam o meu embaraço diante de alguma situação. Como no dia em que eu fazia a travessia de barco entre duas ilhas paradisíacas e, despreocupadamente, levantei as pernas e apoiei os pés no banco da frente, onde um casal de tailandeses estava sentado. Eu tirava uma soneca, um calor escaldante e de dentro do meu sono escuto um homem gritando no meu ouvido, fazendo gestos indignados e apontando os meus pés. Minha reação natural, ao ver aquele homem me ameaçando, foi me levantar, claro, assustadíssimo. Estaríamos sendo sequestrados, o barco estaria naufragando? Eu não entendia nada! À minha volta, ninguém parecia apavorado, mas o homem e eu atraíamos a atenção de todos. Ele continuou esbravejando em tailandês, eu olhando para ele atônito, até que sua esposa levantou-se, pegou-o pelo braço e pronunciou as palavras mágicas – mai pen rai. Só então ele sossegouUma turista romena veio ao meu auxílio e explicou-me que para os asiáticos, os pés são a parte mais suja do corpo, aproxima-los da cabeça de outra pessoa é tomado como ofensa grave. Aprendi a lição pelo caminho mais duro… Depois desse episódio, resolvi estudar um pouco mais sobre os costumes dos povos do sudeste asiático e comprei um guia do Lonely Planet, numa das muitas bancas de livros usados espalhadas nas imediações da famosa Khao San Road.

Khao San Road, a Meca dos mochileiros, foi para lá que nos levou o ônibus que tomamos no aeroporto. A Khao San é uma rua super movimentada, de um kilometro de comprimento, onde se acotovelam os turistas em busca de hotéis baratos, cybercafés, agências de viagens, casas de massagem, joalherias, restaurantes e toda sorte de moquifos vendendo equipamento e software piratas. É uma verdadeira babel, gente de todo mundo, gente pra todos os gostos. Cansados da viagem, tudo que a gente queria era uma cama de hotel. Resolvemos não procurar muito, afinal, era o ano de 1998 e por causa da Crise Asiática os preços estavam muito baixos para nós brasileiros, coisa de uns 5 dólares por noite. Entramos no primeiro hostel que nos pareceu limpo e agradável e fizemos o check-in. Tivemos que pagar adiantado, diferente da India, onde havia mais confiança e a gente estava acostumado a pagar só no check-out. Depois de algumas horas descansando no quarto, debaixo de um ventilador barulhento mas eficaz, saímos à rua com muita fome. Bangkok é um paraíso para os gourmets que não tem medo de arriscar. Há comida por toda parte; nos restaurantes, em barracas improvisadas nas calçadas e também em carroças puxadas por cavalos. Pois uma dessas carroças estava passando bem na hora que saímos do hostel, foi parada por um grupo de turistas que fizeram seus pedidos em tailandês e foram servidos, cada um num prato de isopor. A comida era farta e parecia apetitosa, resolvemos arriscar. Por meio de gestos encomendamos dois pratos e comemos com gosto aquela mistura de miojo, broto de feijão, algumas verduras e umas cápsulas torradas, que mais tarde viemos a saber que eram vermes que dão no bambu… Posso garantir que estava tudo muito delicioso e não passamos mal, pelo contrário, aquela comida nos deixou leves e muito bem alimentados. Durante toda minha estada na Tailandia, e na India também, sempre comi muito bem e nunca experimentei nenhuma intoxicação alimentar. É verdade que de modo geral a comida deles é muito apimentada, mas até com isso eu acabei me acostumando e gostando!

Não ficamos muito tempo em Bangkok, nossa intenção era partir logo para alguma ilha e esquecer da vida numa rede à sombra das palmeiras, só tomando água de coco. As opções eram muitas e acabamos nos deixando seduzir pelas fotos de umas cabanas de palha em Koh Phi Phi, afixadas na vitrine de uma agencia de viagens. Sem saber, partimos de ônibus para a ilha em que foi filmado o Lagoa Azul e era o destino turistico mais badalado na época… Quer dizer, caímos na muvuca, exatamente o oposto do que a gente estava procurando! Tudo ali era fashion, de uma artificialidade irritante, típica arapuca de turistas. Mas eis que no meio da muvuca, minha amiga enxerga e me aponta uma plaquinha muito despretenciosa que dizia: Thai Massage Training. Eu havia feito vários cursos na India e estava muito interessado em conhecer a tal Massagem Tailandesa. Fomos lá ver do que se tratava.

Era uma casa de massagens como milhares de outras espalhadas pela Tailandia, que oferecia um curso de massagem tailandesa para estrangeiros. Neng, o dono da casa, foi muito cordial conosco e disse que poderia nos hospedar no caso de eu fazer o curso com ele. Aceitamos o acordo e nos foi dado um quarto com paredes de madeira compensada, um ventilador e um fogareiro que era a cozinha de todos os que trabalhavam na casa. Não havia banheiro no quarto. O único banheiro era compartilhado com os clientes, um comodo de um metro por um metro, com um tanque para lavar as mãos e pegar água para soltar a descarga… Neste tanque, pasmem, Neng criava tilápias para consumo próprio! Minha amiga agüentou dois dias nessas condições e partiu sozinha para Chiang Mai, no norte do país, na fronteira com Myanmar. Eu fiquei porque sou masoquista, mas também queria muito terminar o curso e voltar para o Brasil com o máximo de qualificações na área da massoterapia. O banheiro precário e o quarto sem privacidade não eram as únicas dificuldades naquele lugar. A casa de massagens ficava bem no meio da zona comercial, ao lado do Monkey Show, um deprimente circo de pobres macacos amestrados, e de um bar que ficava tocando rock até 3h da manhã. Ao anoitecer, o locutor do Monkey Show começava a gritar sua ladainha, anunciando num ingles macarrônico, o melhor show de macacos do sudeste asiático. Parecia um torturante mantra de mau gosto de alguma religião satânica. Repetia a mesma frase durante duas horas, até 8h da noite, quando começava o show. Acabado o show, o rock começava a martelar nossos tímpanos até a s 3h da manhã… Eu não sei quanto de relaxamento conseguiam ter os clientes das massagens com essa barulheira toda… Acabei ficando mais de um mes nessa ilha. Neng me convidou para trabalhar na casa de massagens quando acabei o curso e eu aceitei, seria uma ótima oportunidade de praticar com clientes de verdade. Meus companheiros de trabalho eram todos tailandeses do norte, gente muito pobre, que na temporada vinha para Phi Phi fazer massagem nos gringos, ganhar uns bhats a mais. Nesta turma de empregados a que mais se destacava era a Li, um mulher forte e troncuda, muito boa massagista. Por ser extrovertida e a única que conseguia se comunicar em ingles, ela acabou sendo a pessoa que me ajudou a me enturmar na ilha. Me ensinou a fazer o arroz branco no vapor, que ficava no fogareiro do meu quarto, à disposição de quem estivesse com fome. Neng nos fornecia comida, invariavelmente um peixe, um legume cozido, chá e o arroz branco sem sal e sem óleo. Eu não me acostumei com isso e de vez em quando ia comer uma sopa ou um Pad Thai num dos restaurantes mais caros da ilha, meu corpo pedia uma comida com mais “sustança”. Ou então a Li me convidava para comer na casa de algum conhecido seu, geralmente famílias simples que haviam alugado um cômodo durante a temporada de trabalho na ilha. Um dia a Li resolveu levar uma salada para a casa dos amigos onde iríamos almoçar. Pensei que fossemos passar no mercado, comprar os ingredientes e preparar no meu quarto/cozinha. Que nada, ela foi apanhando brotos de uma árvore na rua, colheu um mamão verde que estava dando sopa num quintal e tirou um saquinho de aji-no-moto do bolso. O aji-no-moto ela usava pra pressão baixa, junto com pimenta! Ah, sim, ela tinha pimenta no bolso também, andava sempre com ela no bolso! Cortou o mamão em tirinhas com ajuda de um facão enorme, picou as folhas, que eu não consegui saber de que árvore eram, misturou com o aji-no-moto e a pimenta, colocou num saco de plástico e estava pronta a salada! Eu consegui comer só um bocado, minha boca ardendo em fogo não me permitiu continuar degustando dessa “fina” iguaria tailandesa…

Li era solteira e tudo indicava para ela que eu também era solteiro. Na prática eu era mesmo, minha amiga e eu havíamos nos separado por causa da nossa incompatibilidade, o quarto precário tinha sido apenas a gota d’água. Naquela época não havia emails e eu não fazia a mínima idéia de onde ela andava, na verdade eu tinha esquecido da minha amiga. O trabalho com as massagens tomava quase todo meu tempo. Eu acordava lá pelo meio dia, suando com o calor escaldante ou assustado com o estrondo de algum coco que caia sobre o teto de zinco, comia alguma coisa e o resto do dia, antes do trabalho, eu passeava pelas praias com a Li. Para mim sempre foi claro que era apenas amizade, mas um dia ela pegou na minha mão de um jeito diferente e eu entendi que ela me desejava. Foi complicado explicar, sem magoa-la, que eu não estava a fim de nada com ela. Mais difícil ainda foi manter a amizade. Eu me retirei e agora passava minhas tardes lendo pocket books em algum ermo, num canto da praia onde os turistas não se arriscavam porque havia muitas cobras verdes que trepavam nas árvores. Foi nessa época que Neng me veio com a proposta de eu gerenciar a casa de massagens durante a baixa estação. Ele tinha outro negócio em Pukhet e queria alguém de confiança para ajudar a cuidar das duas casas. A primeira coisa que eu perguntei era se a Li ficaria em alguma das casas. Como ele disse que a Li ia voltar para casa dela, eu aceitei e pedi um tempo para ir buscar o resto da minha bagagem que ficara em Bangkok, num desses left-luggage que facilitam a vida dos mochileiros. Nem falei nada com a Li e não me despedi. Um dia saí bem cedinho, peguei o barquinho para o continente e depois o ônibus para Bangkok. Na viagem, conheci uma alemã que queria dividir o quarto comigo, para economizar, eu topei, pois pretendia passar apenas uma noite, pegar minhas coisas e zarpar de volta a Phi Phi. Ela conhecia um hotel baratinho e para lá rumamos. Deixamos nossas coisas no quarto e íamos sair para a rua, quando ainda no corredor do albergue, dou de cara com minha amiga brasileira, de volta de Chiang Mai! Foi um susto, eu não esperava ve-la nunca mais. Mas acontece que ela estava lendo a Profecia Celestina e botou na cabeça que o milagre de me reencontrar ia se tornar realidade. Ela é do signo de Peixes, as coisas mais mirabolantes aconteciam quando eu estava com ela. Diz ela que pegou um mapa, fechou os olhos e colocou o dedo ao acaso, deu em cima da cidade de Pukhet. Ela estava indo para lá no dia seguinte, com a certeza de que ia me encontrar! Foi mais fácil do que ela previra… Depois de botarmos a conversa em dia, ela insistiu muito e acabou me convencendo de irmos para a Indonésia antes de eu pegar o trabalho na casa de massagem. Até hoje Neng deve estar esperando que eu apareça por lá. Minha amiga me convenceu novamente de que um trabalho numa casa de massagens na Tailandia não era currículo para quem queria ser um terapeuta de verdade, que eu tinha que montar uma clínica no Brasil, isso sim ia me dar experiência e credibilidade. Assim, depois da Indonésia nós voltamos para o Brasil, direto para Monteiro Lobato. Voltei a ser um pacato ermitão na floresta… Mas um ermitão que escutava um radinho de pilhas todos os dias pela manhã, enquanto preparava suas bananas assadas na chapa do fogão de lenha. Foi numa manhã dessas, seis meses depois de eu ter deixado a Tailandia, que eu escutei a notícia de que um tsunami gigantesco havia varrido o sudeste asiático e destruído, dentre outros lugares, a ilha de Phi Phi e a cidade de Pukhet. Gelei, e em silêncio, agradeci minha amiga e à Profecia Celestina…

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