CTA Amarcord.

(Amarcord quer dizer Eu me recordo, no dialeto emiliano-romanholo, falado em Rimini)

Dia desses, por ocasião do lançamento do livro de um amigo, entrei no CTA à noite e uma enxurrada de memórias me invadiu sem pedir licença. Terminada a cerimônia, saí do recinto, dei umas voltas e estacionei o carro atrás do H19. Durante horas, passeei sozinho pela região dos Hs, da Quadra de Esportes, Hotel, Reembolsável, H13, ITA, Cinema… Tinha a nítida impressão de estar num sonho. Os prédios, as ruas, as árvores e os pontos de ônibus se transformaram em uma tela vazia na qual eu fui projetando minhas lembranças; a trilha sonora era o barulho das folhas secas estalando sob meus pés…

Amarcord, de Federico Fellini, foi o primeiro de uma série de “filmes de arte” que eu assisti no cinema do CTA. Instigado por amigos intelectuais, eu acabei comparecendo à sessão semanal do Filme de Arte promovida pelo CASD, o centro acadêmico dos alunos do ITA. Verdade seja dita, eu não entendi grande coisa do filme, boiei mesmo. Típico adolescente educado na linguagem de Hollywood, eu tinha uma grossa armadura impermeável à poesia do filme. As alegorias de Fellini me pareceram um grotesco circo nonsense… Eu estava mais é interessado no roçar de mãos com a Isabel, sentada ao meu lado. Tanto que o filme saiu da minha memória, mas me recordo perfeitamente do cheiro perfumado do cabelo dela, até hoje… Assim como me recordo do cheiro dos eucaliptos em frente o H17C, das guerras de mamonas e bombas amarelas, dos jogos de beisebol e dos calouros do ITA desfilando entre os Hs, entoando o famoso A cova delacomo parte do trote de iniciação. No meu Amarcord particular, revi a cena macabra dos “bixos” envoltos em lençóis, cada um segurando sua vela.

Passei em meio aos prédios do ITA, agora trancados durante a noite. Naqueles idos da década de 70 podíamos passear livremente pelos laboratórios, pelas salas de aula vazias, desenhar fórmulas imaginárias nas lousas, aquele mundo pertencia inteiramente a nós. Dei a volta no auditório que hoje leva o nome do meu avô, Prof Lacaz, e me vi trepando por uma das janelas do fundo, que davam diretamente nos banheiros. Essas janelas eram a entrada alternativa de quem não podia ou não queria pagar ingresso nos ótimos shows que aconteciam por lá. Pude ver Egberto Gismonti, Hermeto Paschoal, Quinteto Armorial, Ricardo Bandeira, etc… a maioria deles sem pagar, graças à generosa abertura na janela basculante!

Segui até o H13, o restaurante do CTA, depois de atravessar a barulhenta sinfonia de sapos e rãs da lagoa que fica atrás do ITA. Não tenho boas memórias desse lugar, ou melhor, dos bailes que aconteciam no H13. Talvez fosse pelo tipo de música, ou talvez por causa disputa que havia pelas meninas. Eu  gostava de rock e esse tipo de som os conjuntos só tocavam lá pelo fim da festa, com o salão quase vazio. E na disputa pelas meninas, os alunos do ITA sempre levavam vantagem, a inteligência era um bem super valorizado no meio ceteano!

Em frente ao H17, tive um ímpeto de adentrar o bosque de eucaliptos, revisitar o local em que botei na terra as primeiras plantinhas, aquelas que despertaram em mim o gosto pela agricultura, um prazer que nunca mais não me largou. Mas nem saí do asfalto, fui detido pela visão de um bloco maciço de casas, no lugar onde elas deveriam estar. Senti saudades daquelas plantinhas que tive que abandonar à força. Um dia, eu devia ter una 16 anos, estava botando água nelas quando me vi cercado por um grupo de pracinhas que me convidaram para uma visita ao CPOR. Lá, me informaram que aquelas plantas colocavam em risco a segurança nacional, que era melhor eu plantar rabanetes, alfaces e cenouras. Achei de bom alvitre seguir o conselho dos militares…

Já fazia uma hora que eu andava pelo CTA, achei estranho não ter cruzado com ninguém à pé. Nos velhos tempos tinha tanta gente trançando entre as residencias, mesmo à noite. Havia a caça aos morcegos com uma vara comprida de bambu, o fogo no metano dos bueiros pra ver a tampa levantar com o deslocamento do ar, a rodinha de violão, as conversas intermináveis nos pontos de ônibus… Mas naqueles dias não havia tanta oferta na televisão, muito menos internet! Quem é que hoje quer sair pra rua, com tanta fartura dentro de casa?

Corri os olhos pelas plaquinhas nos jardins, essas com os nomes dos moradores e o número da residência. Nostalgico, busquei em vão por algum conhecido. Ali morava o Prof Borges, ao lado o Prof Cantanhede e o Prof Walter, mais adiante o Prof Altman e na outra ponta o Prof Cecchini. Eu estava parado agora, em frente à casa do Prof Weis. Não sei se foi alucinação auditiva ou, neste momento, eu realmente escutei a faixa Black Magic Woman, do Santana Abraxas e me vi dançando com uma sansei magrela da cidade, numa dessas festas que a gente dava quando os pais iam viajar e a casa virava território livre (não sei como os vizinhos não reclamavam!). No fim da noite, ou no começo do dia, porque já estava clareando, estávamos os dois numa boa, rolando numa cama num dos quartos da casa. Ali começava o meu primeiro casamento. Dias mais tarde, D. Ivone, a dona da casa onde houve a festa, ao me ver na rua com a nova namorada, me perguntou à queima-roupa, onde é que eu tinha encontrado uma menina tão graciosa como aquela!..

Voltei para o carro e ao lado do veículo, finalmente encontrei alguém com quem conversar. Era um guardinha, que me advertiu que meu carro não tinha autorização para circular naquela área, eu tinha que sair dali imediatamente. O cartão de identificação pendurado no meu espelho retrovisor, que eu pegara na portaria, dizia em letras bem grandes: HOTEL de TRANSITO. Eu ainda permaneci alguns dias imerso no clima do meu Amarcord

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