A cabana de bambu

Dia desses, a garotada que mora aqui perto de casa construiu uma cabana de bambu na área verde do condomínio, num local mais afastado das residências. Quer coisa mais gostosa pra uma criança do que fazer uma cabana? Era minha diversão predileta quando garoto. Fosse uma cabana subterrânea ou de paus e folhas, nela a gente re-criava o mundo, fazia do nosso jeito, ficávamos livres das chatices e das regras dos adultos. Eu gostava tanto dessa brincadeira que resolvi continua-la quando adulto e ao invés de pegar o meu diploma e arrumar um emprego, como tudo mundo faz, me internei no meio do mato e continuei construindo cabanas. De uma certa forma, construir cabanas acabou entrando no rol das minhas profissões, ao lado de apicultor, cozinheiro, massagista, garçon e outras tantas. Hoje não faço mais, moro na cidade, pra fazer uma cabana seria muito complicado… teria que pedir permissão na prefeitura, desenhar uma planta, com tanta burocracia vai-se a graça, mata-se a fantasia, que é justamente o barato de se fazer uma cabana.

Quando fiquei sabendo da construção dessa cabana, meu imaginário iluminou-se, revi as gostosuras das minhas tardes da infancia e pensei feliz: a internet e os games não conseguiram nem vão conseguir acabar com essa delícia, com essa necessidade de inventar um mundo à parte, no meio da natureza! Mas minha felicidade não durou muito. A cabana vai ter que ser destruída! Primeiro porque está numa área comum e representa risco para outras crianças. Os meninos tinham feito até castiçais de bambu e acendido velas na cabana que tem teto de palha, imaginem o perigo! E finalmente porque a cabana foi feita com bambu, cortado ilegalmente, não se pode permitir que ela ali permaneça, como um símbolo da contravenção bem sucedida! Com dó no coração, decidimos, nós da diretoria, mandar remover a cabana. Na verdade nem tivemos grande trabalho, o vendaval de ontem já havia posto a cabana no chão… Pudera, estava amarrada com barbante, lembrei das casas dos 3 porquinhos…

Esse episódio me fez refletir: essas crianças são saudáveis, saíram da frente do computador, que é o terror dos pais hoje em dia, e foram para a natureza, em busca de algo essencial para suas vidas. Eles não querem só sonhar, querem sonhar e realizar seus sonhos, mas nós adultos estamos impedindo que eles expressem essa necessidade! Onde foi que nós, pais, erramos?

Incomodado e me sentindo culpado de estar tirando o doce da boca da criança, fui procurar os menores infratores, na intenção de encontrarmos uma solução que agradasse a gregos e troianos. Na verdade, os menores não eram tão menores assim. Um deles devia ter pelo menos 18 anos, tatuado, muito mais alto e forte que eu, com toda pinta de ser o lider. Pela cara que fez, não gostou nada da minha intromissão, mesmo depois de eu ter elogiado a cabana e dito que na idade deles eu fazia igual. Sugeri que procurássemos uma solução em conjunto, um outro tipo de construção, num lugar mais adequado, mas tudo que consegui foi a declaração de que nenhum deles era o responsável pela cabana, que só tinham ido lá depois que ela ficou pronta. Quem construiu a cabana, então? Silêncio. Ficou um clima de tensão no ar, senti que eu tinha dado um tiro n’água.

Fui embora meio desapontado e, com dor no coração acompanhei a desmontagem da cabana. Ainda vou encontrar um meio de falar a lingua desses meninos…

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6 Respostas to “A cabana de bambu”

  1. Aurora Says:

    Cheguei por acaso em seu blog através da busca de outro assunto e…viajei! Nossa, que saudades da infância, apesar de ser menina e feminina, adorava construir casinhas no grande quintal da casa de meu pai, não era só atividade dos garotos. As preferidas que construi foram as que ficavam nas árvores, p/ lá levava minhas bonecas e demais brinquedos. E tinha as casinhas no chão, uma foi meu “laboratório”, entre outras experiências científicas, criava lagartas (que coletava no jardim de minha mãe)e as soltava quando viraram borboletas. Fiz vestibular para Arquitetura e Ciências/Física, segui a segunda opção. As atividades infantis foram determinantes para meu futuro, e tinha uma amiga “invisível” que conversava comigo, essa me ajudou bastante na criatividade que carrego até hoje! Só quem viveu isso de construir cabanas sabe como é mágico, parabéns pela matéria, adorei.

  2. chicoabelha Says:

    Slow demora mais, talvez depois de amanhã, então…

  3. edna Says:

    oba…mas daí eu quero slow tá?

  4. chicoabelha Says:

    Cabanas são um útero, por isso gosto tanto delas e me identifiquei com os moleques. Mas parece que eu ainda tenho que aprender a falar a lingua deles… vou fazer um curso intensivo! rsrsrsr!
    Um fast texto para um tempo em que tudo é fast… Quem sabe amanhã não tem mais?

  5. edna Says:

    Olha Chico…Isso de falar a lingua desses meninos é coisa muito séria!rs A esposa de meu professor que dá aulas de teatro pegou um grupo de crianças e o trabalho não rendia…O tempo passano e parece que a coisa não engrenava…Preocupada com isso ela passou a observar melhor o grupo…Sobre o que conversavam quando não estavam com atividade e desobriu que o papo era sempre futebol…Não deu outra…Começou a acompanhar as notícias, se interar sobre times e jogadores e participar das conversas…O milagre aconteceu! Ela foi aceita pelo grupo e a partir daí o curso conseguiu ter algum desenvolvimento e proveito…Falar a mesma língua é um ótimo primeiro passo! rs

    A gente ta sempre falando sobre cabanas e de como ela fazem parte do imaginário das pessoas…Eu não sei se é assim com todo mundo, comigo é…De tanto eu subir no pessegueiro do quintal da minha infância, o meu pai construiu uma casinha de alvenaria pra eu brincar…Era pequena e foi ficando ainda menor a medida que eu crescia…Passava boa parte do meu tempo livre lá…Lembrança boa…Lembra que falamos sobre adobe hoje pela manhã e vcocê mencionou que eram lego de gente alternativa…Ta aí de novo a cabana…

    Sabe esse foi um fast-texto…Tão curtinho…Quero mais! rs

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