O Canto da Sereia

Quando ela apareceu na minha vida, eu estava muito bem casado e tranquilamente instalado na pacata Monteiro Lobato, cidade que eu pensei que ia viver até o fim dos meus dias. Levava uma vida de aposentado e para passar o tempo tive a brilhante idéia de montar um pequeno brechó-sebo ao lado de casa, no qual eu podia passar horas a ler enquanto esperava os clientes. É verdade que o negócio não fazia lá muito sucesso entre os 3000 habitantes da cidade, mas era o suficiente para pagar em dia as contas da casa. Os poucos que se atreviam a cruzar a porta da lojinha eram, em sua maioria, mulheres muito simples e pobres da roça, vinham à procura de uma camisa social para o marido, um vestido de debutante para a filha ou uma revista com imagens coloridas para o trabalho de escola do filho. Homem era raridade ali dentro, o máximo que eles faziam era lançar olhares curiosos e desentendidos, quando passavam pela janela que dava para a rua. A porta da loja ficava sempre aberta, mas as pessoas costumavam se fazer anunciar antes de entrar, hábito da gente da roça…

De modo que estranhei a entrada abrupta e totalmente sem cerimônia, daquela mulher de passos decididos, que de caipira não tinha nada. As roupas não me diziam de onde ela vinha nem o que ela fazia. Seus olhos castanhos percorreram rapidamente os objetos em exposição, mas passaram batido por mim. Ou ela não me viu ou me ignorou. Minha paranóia com autoridade logo encaixou aquela mulher na categoria “fiscal de algum órgão do governo” e comecei a suar frio. O estabelecimento era totalmente irregular, minha esposa e eu simplesmente abríramos uma porta e puséramos à venda o que era demais em nossas vidas. Todos os nossos cacarecos inúteis, acumulados ao longo de nossas existências, estavam ali naquele recinto. No desespero, minha cabeça fui compondo rapidamente um discurso de desempregado, vítima da crise econômica, uma criança pequena para cuidar, etc, etc… Deixei sobre a cadeira um exemplar usado do Macunaíma, minha leitura naquele momento e dirigi-me à figura recém chegada.

__Bom dia, moça, posso ajuda-la?

Mais próximo da moça, reparei que seus cabelos estavam sem penteado, sua roupa com cara de nunca ter visto um ferro de passar e quando me encarou percebi claramente que aqueles olhos nunca poderiam ser os de uma fiscal. Ela seria talvez uma artista, uma cigana, ou quem sabe (?), uma hippy metida a chique. As peças que vestia eram finas, mas, definitivamente, não pareciam se entender muito bem umas com as outras…

__Ah, Chico Abelha? Sua esposa me disse que viesse aqui fazer uma demonstração do meu trabalho para você.

__Você é vendedora?

__Não, eu sou terapeuta.

Minha cabeça bagunçou, aquela mulher não correspondia em nada à imagem que eu tinha de uma terapeuta. Naquele momento eu fiquei realmente confuso, já estava achando que ela pertencia a alguma seita religiosa, as pessoas comuns não tinham o olhar tão intenso como o dela. Não saquei o porque de minha esposa ter mandado aquela mulher falar comigo… Minha cara de desentendido pedia uma explicação à recém chegada:

__Vejo que você está confuso. Eu sou nova na cidade e quero divulgar o meu trabalho, por isso ofereci uma sessão à sua esposa enquanto conversávamos no cabeleireiro. Mas ela me disse que você estava precisando mais do que ela…

Ah! Me fazendo de cobaia, pensei comigo, muito esperta a minha esposa! Ou será que ela achava, mesmo, que eu precisava de tratamento, mais do que ela? Normalmente eu teria declinado da oferta. Eu não conhecia aquela mulher, não sabia de onde ela vinha, desconhecia seu trabalho, mas mesmo assim, apesar de toda estranheza, não me senti desconfortável na presença dela. Minha pergunta seguinte foi quase um sim e ela pegou a dica…

__Mas, como é que é a sua terapia?

__É um trabalho que modifica a informação da suas células com cores e luzes, podemos fazer aqui mesmo, ali em cima daquela esteira.

__Aqui mesmo? Não é preciso um lugar especial, em silencio e um pouco de concentração, dá pra ser no meio dessa bagunça?

__Dá sim, é só fecharmos a janela e a porta.

Enquanto eu encostava a porta e corria o vidro da janela, ela estendia um pano preto sobre a esteira, sentou numa das extremidades e me indicou que eu sentasse na outra. Por cima do pano preto ela espalhou um baralho de cartas e me pediu que tirasse dez delas e que não as virasse para cima. Minha resistência já havia sido quebrada, mesmo achando estranho que um trabalho com cores começasse com um baralho, tirei as dez cartas como ela pediu. Formou uma cruz com as cartas e à medida que foi virando cada uma, desfiava comentários sobre minha vida passada, presente e futura. Ela não tinha papas na língua, falava com muita segurança, sem me consultar para confirmar se estava certa ou não.

Fiquei estupefato, em vinte minutos a mulher havia descrito a minha vida em detalhes, como se estivesse lendo das páginas de um livro. Eu já tinha feito análise antes, nenhum terapeuta jamais havia feito uma descrição tão acertada de como eu sou e a me dado a explicação do porque de eu ter passado pelo que passei. E não só isso. Ela me dizia que em breve eu mudaria de casa e iria morar na floresta, num lugar afastado de tudo e de todos e mais alguma coisa que ela preferia não falar naquela hora… Mas essa parte eu deletei, o futuro a Deus pertence, me contentei com a descrição os acertos sobre meu passado e presente.

Em seguida às cartas, ela pediu que eu me deitasse de barriga pra cima e tirasse a camisa. Riscou meu corpo com um lápis de pintar olhos e com uma lanterna que tinha cristais coloridos e intercambiáveis na ponteira, foi energizando os pontos que, segundo ela, eram os que mais precisavam de mudança de informação; sempre segundo o que haviam dito as cartas.

Devo ter relaxado profundamente, pois quando acordei com o barulho da porta abrindo, ela já não estava mais na loja. Era minha esposa que entrava e para minha surpresa, me chamou para uma conversa franca. Ela precisava de espaço, depois de dois anos juntos, já não estava mais agüentando, estava se sentindo sufocada, mas que eu pensasse bem, não precisava tomar nenhuma decisão apressada. Ela não foi explícita, mas a casa que morávamos era dela, o que deu a entender que quem deveria sair era eu. Discutimos muito, mas ela estava irredutível. Aquilo foi um soco no estômago, entendi como uma traição e a primeira coisa que me veio à cabeça foi me mudar para o sítio que eu tinha na Serra da Mantiqueira, não muito longe dali. Pensei até em morar numa barraca, já que no sítio não tinha casa, nem pra gente nem pra animal.

Muito chateado e meio perdido, passei a frequentar a praça da cidade à noite. Com o impacto do golpe, eu nem me lembrava mais da mulher que me tirou as cartas e botou as cores e nem a reconheci quando ela me chamou pelo nome e sentou-se a meu lado num banco da praça. Contei a ela minha história recente e um sorriso brotou dos seus lábios.

__Olha, eu também estou procurando um lugar para morar, que tal irmos morar nesse seu sítio? Eu posso ajudar você a construir.

Enquanto ela falava eu sentia que um peso enorme saia das minhas costas. O futuro se iluminou e no dia seguinte eu estava cortando árvores no sítio, já com o projeto da cabana na cabeça. Foi tudo muito rápido, conseguimos um pessoal da roça para ajudar a carregar a madeira, montar a cabana e cobrir de sapé. Em questão de um mes e pouco eu me mudava para a nova morada na companhia da Uiara, esse o nome da terapeuta. Segundo explicação dela mesma, seu nome significa “devoradora de homens” em língua indígena. No tempo que passei com ela na floresta, fiz questão de aprender a usar as cartas. Hoje tenho o meu baralho.

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2 Respostas to “O Canto da Sereia”

  1. chicoabelha Says:

    Sabia que isso ia acontecer…

  2. edna Says:

    ah…Tira cartas pra mim?

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