A Bandeira do Corínthians

Carlos Eduardo acordou sentindo-se leve e bem disposto naquela manhã de domingo. Achou muito estranho que a esposa não estivesse a seu lado na cama – ela sempre se levantava bem depois dele! Vai ver resolveu fazer uma surpresa e me servir o café na cama, pensou ele.

__É bem possível que ela queira me agradar. É típico dela suplicar o meu carinho com essas manipulações – exclamou em voz alta.

O relacionamento do casal não andava nada bem nos últimos tempos. Talvez tivesse ido caminhar, queimar os kilos a mais que ela tinha ganho nos últimos meses… Não, nada disso parecia possível. Continuou achando estranho que Barbara Heliodora tivesse levantado antes dele, não se lembrava da ultima vez que isso aconteceu.

Vestiu os chinelos e foi até o banheiro esvaziar a bexiga. Silêncio na casa, Barbara deve ter saído mesmo – mas para onde, meu Deus, a essa hora da manhã? Sentou-se no vaso, há anos obrigava-se ao sacrifício de urinar sentado, para não mais ouvir os reclamos da esposa. Distraído, apanhou a Veja da semana (6 de julho de 2011) na pilha de jornais e revistas sobre o banquinho ao lado do vaso. Já se preparava para receber o choque da manchete com a crise da vez ou a última catástrofe natural, mas o que ele leu na capa da revista foi a frase “E eu com isso?“. A pergunta lhe pareceu perfeita naquele momento, entendeu como um recado, enviado por algum anjo, lembrando que as preocupações com os assuntos terrenos não levam a lugar nenhum. Numa associação livre, deixou-se invadir por imagens da infância, quando todas as suas preocupações se resumiam a ter que estudar para ser aprovado na escola; todo o resto era pura diversão e lazer.

Teve a impressão de ter ouvido seu pai e sua mãe chamando-o por ele, mas como, se eles já estavam mortos há anos? No entanto, o chamado parecia muito real. Os pais o chamavam para uma festa, ele deveria se trocar correndo, estavam atrasados já! Riu-se dos próprios pensamentos insólitos…

Carlos levantou-se apressado, foi deixando as peças do pijama pelo caminho, a cueca, os chinelos e parou em frente ao espelho bisotado, na porta do guarda-roupas. Parou alguns segundos para apreciar as próprias formas, tinha orgulho do seu corpo de cinquentão malhado; percorreu-o dos pés à cabeça e tomou um susto quando chegou ao rosto. Viu-se menino, imberbe e chacoalhou a cabeça como se quisesse mandar embora a visão. Ela desapareceu – decerto isso é efeito colateral do Lexotan, o médico bem que avisou sobre possíveis alucinações… Mas que ele parecia mais jovem, ah, isso parecia! Estava até mais disposto do que de costume! Sentiu vontade de correr, extravasar essa nova força, os músculos pediam movimento! Fechou os olhos, respirou fundo e sentiu a energia fluindo pelo corpo todo.

Sem pensar, apanhou e vestiu sua roupa mais chique, um terno Valentino que a mulher havia comprado numa ponta de estoque e que ele vinha resistindo em usar. Voltou ao banheiro para conferir se ainda precisava de uma ultima passada de barbeador, mas não havia barba nenhuma a ser cortada, seu rosto estava liso como o de um bebê! Melhor assim, ele não gostava de fazer a barba, fazia apenas por insistência de Bárbara, que achava que pelos na cara davam uma impressão de sujeira e desmazelo. Novamente os pais gritaram lá da sala, agora fazendo muito barulho. Incomodado, ele resolveu descer para ver o que estava acontecendo.

Encontrou a porta da entrada aberta e Barbara que fuçava dentro do baú em que ele guardava suas preciosidades, fazendo grande estardalhaço. Carlos não entendeu a cena. A mulher vestida sobriamente com um tailleur finíssimo, debruçada sobre o baú, lançando aqueles que eram seus objetos mais queridos pela sala! Que absurdo, que ousadia! Ele não se conteve e gritou!

__Barbara Heliodora, você pode me explicar o que está acontecendo?

Ela não respondeu, continuou a revirar o baú como se estivesse sozinha na sala. Carlos fervia, queria esgana-la, ser ignorado era uma das coisas mais terríveis para ele, um cruzado na boca boca do estomago! Ia revidar mas se conteve, respirou 3 vezes, botou nos pulmões todo ar que conseguiu e soltou vagarosamente. Lembrou-se do estrago causado por ter levantado a voz com a esposa nas ultimas discussões. A situação só havia piorado com as agressões verbais. Dessa vez ele faria diferente, iria se calar, esperar que ela se desse conta da afronta gratuita e descabida!

__Ah! Aqui está ela! – exclamou Barbara, enquanto tirava uma bandeira do Corinthians do baú e a colocava num saco plástico transparente. Foi à cozinha, encheu um copo com água gelada e tomou dois comprimidos de Tylenol. Seu olhar era distante, de alguém que mira o infinito, sem focar em nada exatamente. Carlos observava a tudo atônito, tentando entender que loucura era aquela que acometia a mulher. Por que ela estava levando seu precioso talismã, a bandeira com os autógrafos do time que venceu o Campeonato Brasileiro de 1999? Investiu-se de toda humildade que conseguiu e ensaiou uma aproximação enquanto ela deixava a cozinha:

__Meu bem, por que essa indiferença comigo? Fale alguma coisa, pelo amor de Deus!

Mais uma vez ela não respondeu. Atravessou a sala, saiu da casa  com marido atrás dela, entrou no carro sem ao menos olhar para trás, continuava fazendo como se Carlos não existisse. Este, em desespero, entrou correndo no veículo e sentou-se no banco do passageiro. Seus pensamentos estavam confusos e dizia para si mesmo – O que será que eu fiz para merecer isso, meu Deus? Como faço para essa mulher parar com esse jogo?

Dirigiu-se mais uma vez à esposa, agora seu tom era de súplica.

__Barbara Heliodora, tenha dó de mim, estou disposto a rever a relação, fazer como você quiser, mas é preciso que ao menos me diga o porque de estar agindo dessa maneira! Diga alguma coisa! IEssa sua birra é porque eu disse que não queria ir com você no casamento do seu patrão? Vamos falar sobre isso outra vez, meu bem, eu posso até voltar atrás. Não é isso? Então é porque a empregada contou que eu falei mal da sua mãe? Me perdoa meu amor, eu fui maldoso, retiro tudo o que disse sobre sua mãe! Eu deixo você ter um poodle branquinho, compro aquele anel de brilhantes que você vive me pedindo, construímos o ateliê de pintura com que você vive sonhando, mas para de fingir que eu não existo, não estou mais agüentando!!!…

Carlos pos-se a chorar, lágrimas de arrependimento sincero escorriam por suas faces. Rendeu-se à evidencia de que ele tinha abusado da paciência e boa vontade de sua esposa. Ia tocar o ombro de Barbara e pedir-lhe perdão, quando ela freou bruscamente e saiu apressada do carro. Carlos nem prestara atenção ao percurso que fizeram até chegarem aquele imenso e bem cuidado gramado. Barbara sai do carro, aproxima-se de um grupo de pessoas e ajoelha-se diante de um esquife preto com frisos dourados. Carlos também sai do carro, dá alguns passos e percebe que conhece todos os rostos que estão agrupados à volta do ataúde. São todos parentes, amigos, companheiros de trabalho, o que eles estariam fazendo ali? Barbara abre o caixão, retira a bandeira do saco e estende-a com cuidado sobre o corpo do defunto, só deixando a cabeça à vista. Com a voz embargada, ela finalmente dirigiu-se ao marido:

__Você me disse que queria ser enterrado com essa bandeira do Corinthians, lembra? Eu não esqueci – e caiu num choro copioso.

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