Casamentos

Domingão de sol, o casal sentado no jardim da frente da casa, curtindo o merecido descanso e tomando sua cervejinha gelada. A fome apertou e Ana Helena perguntou a Mário se ele gostaria de acompanha-la ao supermercado, comprar alguma coisa pronta para o almoço. Pelo tempo que ele demorou para responder ela deduziu que não, que ele não estava nem um pouco a fim de ir. A resposta que ele acabou dando, depois de refletir longos segundos, encontrou Ana Helena já abrindo a porta do carro:

__Você vai demorar muito no supermercado, Ana?

Ela devolveu um olhar atravessado e retrucou:

__Você não quer ir, eu sei, fica aí que é já que eu volto logo com a comida.

Mário ameaçou abrir a boca para responder, mas desistiu. Imaginou o calvário que se seguiria se ele se atrevesse a justificar sua não ida ao supermercado e optou pela manutenção da paz que o teor alcoólico da cerveja lhe proporcionava naquele momento. Apenas observou a esposa dar ré no carro e fincar o pé no acelerador. Por que ela fazia isso? -pensou ele. Incontáveis vezes ele já havia advertido a mulher que não se corre num lugar onde as crianças brincam nas ruas! Este simples pensamento foi suficiente para acabar com sua tranqüilidade naquele momento e ele praguejou em voz baixa…

__Mas que saco! Por que ela não me escuta? Parece que eu falo com as paredes! Como é que eu faço essa mulher entender que ela não vive sozinha no mundo, que ela não pode ir fazendo o que dá na telha? – Um arroto ácido forçou passagem pelo esôfago e aflorou na garganta. Pronto, o sábado estava definitivamente contaminado pelo azedume.

Levantou-se, foi até a geladeira, abriu a porta e percorreu com o olhar todas as prateleiras, em busca de alguma coisa para disfarçar o gosto ruim que lhe subia das entranhas. Apanhou a sobra do estrogonofe do dia anterior, a panela ainda estava pela metade. Cheirou, ia comer frio mesmo, mas parou a colher a meio caminho da boca.

__Se eu comer agora vou perder a fome e quando ela voltar vai dizer que eu não esperei pra almoçar com ela, já sei… – e colocou tudo de volta na geladeira. Encheu meio copo com água, misturou um pouco de bicarbonato e tomou de um gole só. 

Voltou ao jardim e deitou-se na espreguiçadeira. A azia cedeu, mas os pensamentos voltaram a atormentar, como moscas em cima de carne podre.

__Será que eu não deveria ter ido com ela? Mulher gosta de desfilar na companhia do marido, mostrar pra todo mundo que ela não está sozinha. Que saco, eu preciso ter mais iniciativa! Da próxima vez que ela convidar eu aceito na lata! Vou fazer melhor ainda, na próxima oportunidade eu mesmo convido ela pra sairmos!

Mas Mário não gostava de sair. Achava caro e desgastante comer fora; nunca se come tão bem como na paz e sossego do lar, dizia. Por ele, preparavam uma boa salada e esquentavam o estrogonofe e o arroz que sobraram do dia anterior.

Sentia-se paralisado. Queria satisfazer a esposa, mas ao mesmo tempo não queria contrariar a si mesmo. Essa divisão o acompanhava há tempos. Já era o seu quarto casamento, todos os outros relacionamentos anteriores haviam terminado por questões pequenas, bobas mesmo, que iam se acumulando e viravam uma avalanche de acusações e brigas intermináveis. O que ele vivia agora era um deja vu, uma repetição amarga de um filme cujo roteiro ele conhecia muito bem. Dessa vez ele queria, ele precisava, ele tinha que fazer diferente. Mas não sabia como, não via saída, não vislumbrava nem ao menos uma luzinha, fraca que fosse, no fim do túnel.

Com a primeira esposa foi um fracasso total. Ela queria e fez de tudo para que ele participasse dos negócios da família, nos quais ela estava envolvida até o pescoço. Eles dariam tudo de mão beijada, era só ele dizer sim e entrar de cabeça na construtora, numa posição de liderança e com uma boa retirada mensal. Mas ele preferiu o conforto de um emprego na montadora, não queria cobranças nem responsabilidades. O casamento não durou um ano. Ele foi tachado de preguiçoso e sem ambição de subir na vida. Divorciaram-se, mas por iniciativa dela e ele cedeu por que não quis o confronto judicial com uma pessoa que ainda amava. Foi seu primeiro trauma, foi pego de surpresa, pois no altar ele tinha certeza de que aquela seria sua esposa até que a morte os separasse. Ainda hoje se questionava… teria acertado ao aceitar a separação, sem brigar pelo que achava ser o correto, o justo, o combinado diante do padre e do juiz?

Não ficou muito tempo sozinho, logo apareceu a segunda, mais dócil, quase submissa, bem diferente da primeira, que era autoritária até a medula. Ela não trabalhava fora, era uma autêntica Amélia, cuidava do lar como ela só. Com essa não se casou, nenhum dos dois sentiu necessidade de formalizar a relação. Viveram bem, ou pelo menos ele assim pensava, por 4 anos. Até que um dia, do nada, ela começou a reclamar do tédio que era viver com ele, que a monotonia estava sufocando o relacionamento. Discutiram muito, conversavam até altas horas e ele descobriu que o silencio dela encobria segredos terríveis, dores insuspeitas e expectativas totalmente descabidas. Como ultimo recurso tentaram uma terapia de casal, sem sucesso. Um dia, chegando do trabalho, encontrou um bilhete na porta da geladeira, lugar certo de ele ler, já que a primeira coisa que fazia ao adentrar o lar era abrir uma cerveja geladinha, pra em seguida ligar a TV e assistir o canal de esportes na sua confortável poltrona. O bilhete dizia:

“__Mário, eu parti para uma viagem sem volta e nem pense em me procurar. Não dá pra agüentar sua apatia diante dos desafios da vida, cara! Não foi esse o homem que eu conheci há 4 anos, você me prometeu outra vida! Essa que eu tenho levado com você só está me fazendo doente, enfurnada nessa maldita casa. Eu não mereço isso!!! Fiquei quieta todo esse tempo e a dor só fez crescer, me sinto muito solitária demais nesse lugar. Meu coração precisa de sangue novo! Fui!”

Ao terminar de ler o bilhete, Mário sentiu um misto de surpresa, alívio e culpa. Foi como se uma nuvem pesada e escura tivesse saído de cima da sua cabeça. Mas não pode evitar de recriminar-se, pelo fato de não ter sido capaz de perceber que o silêncio daquela mulher, que viveu a seu lado durante tanto tempo, escondesse tanta dor e sofrimento. Foi à polícia, fez um B.O., mas nunca conseguiu saber do paradeiro da mulher…

Passou meses remoendo as memórias, tentando juntar as peças de um quebra-cabeças imaginário, cuja imagem revelaria toda a beleza do casamento ideal que ele tanto buscava. Pulou refeições e começou a emagrecer. Ficou desleixado no trabalho e por isso foi dispensado no primeiro corte que a montadora fez. Agora, além de infeliz no amor, estava desempregado. Condição que o levou e frequentar grupos de auto-ajuda onde, por um capricho do destino, encontrou sua terceira esposa.

Dessa vez juntou-se a uma mulher dinâmica, empreendedora e bem sucedida, uma pessoa que levava a vida a viajar, não tinha morada própria, uma cigana que vivia dando palestras pelo Brasil afora. Foi amor à primeira vista. Ela convidou-o para assessora-la em suas viagens e ele viu nisso a saída para todos os seus problemas, os financeiros e os de relacionamento. Imagine, uma mulher resolvida como aquela, ele estava feito! No início foi aquela maravilha, ela elogiava o empenho do companheiro e o ego dele inflava de orgulho. Ele fazia tudo o que ela pedia, pelo prazer da novidade e pela paixão que sentia. Foi assim durante os primeiros 12 meses. Até que Mário começou a querer dar palpites aqui e ali. Para ele era óbvio que havia como melhorar o que já era bom, mas a palestrante não arredou um centímetro. Tinha que ser do jeito dela e pronto! Afinal, a profissional ali era ela, Mário não passava de um auxiliar! Resultado, acabaram se desentendendo e Mário viu que daquele mato não ia sair coelho nenhum. Sentindo-se inútil e desprezado ao lado daquela prepotente, acabou voltando para sua casa, que por sorte estava desalugada na época.

Mais uma vez achou que o responsável era ele, que podia ter sido diferente se ele fosse diferente. Precisava, agora, botar ordem em sua vida, encontrar um fio da meada que o ajudasse a desenrolar a barafunda que tinha conseguido fazer com seus sentimentos. Cadastrou-se num desses sites que juntam pessoas afins. Preencheu os dados com o maior cuidado possível, foi o mais honesto que pode ao dar as informações. Ofereceram-lhe Ana Helena, uma engenheira solteirona e que morava sozinha, como sendo a parceira ideal para ele. O primeiro encontro foi num restaurante chique, escolha dela. Na hora de pagar a conta ela logo percebeu o embaraço de Mário e disse que já estava acostumada com isso, a noite era por conta dela. Em seguida foram a um motel, onde confirmaram as afinidades. Daí a morarem juntos numa casa alugada, que não era nem dele nem dela, foi um pulo. Ana Helena inclusive arrumou um bom emprego para Mário, na mesma firma em que ela estava prestando serviço.

Naquele domingo de manhã, se eles tivessem olhado no calendário, ou se tivessem boa memória, saberiam que estavam juntos há dois anos. Mas os pensamentos de Mário estavam no supermercado, mais especificamente ele pensava no por que da esposa estar demorando mais de hora para voltar com o almoço. Sua cabeça inundou-se de pensamentos negativos.

__Decerto ela está me sacaneando e decidiu almoçar sozinha, só porque eu não quis ir com ela. Se ela tivesse esperado um pouco eu acho até que teria ido junto, mas ela saiu que nem um corisco antes de eu responder! Ela fez de propósito, só pode ser, ela conhece meu ponto fraco e tem prazer em me cutucar! Eu mereço isso, meu Deus? Eu mereço?

Resignado e morrendo de fome, decidiu ir à cozinha preparar seu almoço. Pegou tudo que era legume e verdura da geladeira e montou uma salada caprichada. Palmito, alface, tomate, beterraba, cenoura, nabo, gengibre, cogumelos, misturou tudo numa travessa grande e já ia começar a temperar quando ouve o barulho do carro na garagem. Uma bola cresceu na sua barriga, chegara o momento de enfrentar o touro à unha. Ele já temia pelo pior…

Ana Helena adentrou a cozinha com um pacote contendo um cheiroso frango assado com farofa e ao ver o marido temperando a salada exclamou animada:

__Meu amor, foi transmissão de pensamento! Eu ia pedir pra você ir preparando a salada mas acabou a bateria do celular. A gente tá mesmo conectado! E sabe que você tinha razão? Foi ótimo você não ter ido! Encontrei a Mariângela da academia, a gente ficou falando sobre o Pilates que ela começou a fazer e está adorando… eu nem vi o tempo passar. Se tivesse ido você ia sobrar, querido. Você vê como a gente dá certo até quando não dá?

Ela abriu um sorriso, abraçou-o por trás e lascou um beijo na boca do atônito Mário, que deixou-se levar pelo momento, esqueceu de tudo que havia passado pela sua cabeça naquela última hora e sentiu-se mais casado do que nunca.

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