“Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal…”

Hoje em dia está ficando cada vez mais difícil dormir numa viagem intermunicipal. Os estrambóticos toques dos celulares e seus maleducados usuários estão tornando impossível um momento de relaxamento dentro dos ônibus. E quando o aparelho em questão é um Nextel, aí então é uma verdadeira tortura auditiva.

Antigamente, isso há uns 10 anos, eu me sentava na poltrona do ônibus, não importava a distância, encaixava os joelhos na poltrona da frente, fechava os olhos e só acordava quando o corpo pedia. Hoje já não dá mais pra dormir a sono solto, acordo sobressaltado tão logo um telefone toca, isso nas raras oportunidades em que é possível pegar no sono. Minha estratégia para conseguir um pouco de paz tem sido buscar sempre o fundão do carro, onde há menos passageiros, e de preferência a última poltrona.

Da última vez que voltei de São Paulo, fiz como de costume; comprei a última poltrona e me dirigia para ela, mas percebi que estava ocupada por um cara que, além do seu assento, ocupava o outro com sua bagagem. Ele estava tão compenetrado, entretido com o seu iPod, que decidi não incomodar e me sentei na poltrona à frente dele. Se alguém reclamasse que eu estava em seu lugar eu mudaria de poltrona. Entraram os últimos passageiros e o ônibus partiu. Joelhos a postos, olhos fechados, eu já tinha engatado no primeiro sono quando o rapaz atrás de mim começou uma conversa telefonica numa língua que eu tive dificuldade de saber qual era, mas cuja melodia se assemelhava muito à do português. Lá se foi, mais uma vez, o meu precioso soninho, pensei… E minha mente curiosa não me deixou mais dormir. Ela queria porque queria, decifrar a língua que o rapaz falava.

__Nós ganhamos, nós ganhamos! – dizia o rapaz.

Foram as primeiras palavras que consegui entender. Agora eu já sabia que a língua era a portuguesa. Aos poucos fui entendendo melhor e decidi que o sotaque era do nordeste do Brasil. Mas de que estado? Não, não podia ser do nordeste. Eu conheço todos os estados e ninguém falava assim. Ele continuou…

__Primeiro entrou Chile, depois Japão, Austrália, Brasil, e por fim entramos nós. Foi emocionante este momento, você não achou? Nós ganhamos pela primeira vez, o mundo todo viu isso! E quanta torcida tínhamos! Ah, mas eu estou tão feliz, foi uma beleza a festa que fizeram os nossos!

Com essas ultimas informações saquei que ele não podia ser brasileiro. Me virei para ver a cara dele e vi que era escuro como a noite, bem preto mesmo, os dentes brancos brilhando de contraste com a cor da pele. E ele estava muito bem vestido, muito chique para quem viaja de ônibus. Tudo indicava que era africano. Decidi conversar com ele, gosto de conhecer gente de outras culturas e já que tinha perdido o sono… Me virei para trás, mas antes que eu abrisse a boca ele já estava noutra ligação, na qual falou sobre as mesmas coisas e desligou. Na seqüência ele emendou uns 4 telefonemas, sempre com a mesma conversa. Nessas alturas eu já havia entendido que falavam de algum concurso de beleza e o cara falava com tal empolgação sobre o penteado, a roupa, o maiô, o glamour, que achei que ele devia ser gay.

Nós já estávamos quase chegando no destino, se eu tivesse que falar com ele tinha que ser logo. Me levantei e fiz um gesto, apontei minha boca e apontei para ele, como quem diz que quer conversar. Ele finalizou a ligação e eu logo perguntei:

__Desculpe a curiosidade, mas de onde é esse seu sotaque? De que país você é?

__Eu sou de Angola, mas já estou há dois anos cá no Brasil.

__Seu português é muito diferente, vocês falam assim em Angola?

__Não, não, é que estou imitando o falar de vocês brasileiros, que é todo cantado e cheio de erros.

Tive de reconhecer, sei que aqui no Brasil cometemos alguns erros de concordância, mas eu não queria discutir isso com ele. Queria saber mais do assunto que tanto o empolgava.

__Eu falava do concurso de Miss Universo que ganhamos ontem, não assistiu na TV?

Fiz que não com a cabeça e ele arregalou os olhos, estarrecido por eu me mostrar ignorante de fato tão importante!

__Bem, não dá pra ficar sabendo de tudo que acontece no mundo – me desculpei, e comecei meu habitual bombardeio de perguntas no meu primeiro contato com estrangeiros.

Fiquei sabendo que sua geração é a primeira que não teve que pegar em armas, porque antes até crianças eram obrigadas a servir o exército e entrar na guerra civil, que, segundo ele, hoje já não existe mais. Perceberam, os angolanos, que a Russia estava armando os dois lados do conflito e deram um chega prá lá nos estrangeiros. Disse que estranhou que no Brasil se fale mal do presidente tão abertamente. Em Angola, ainda hoje, o sujeito pode sumir do mapa se fizer pronunciamentos contra o governo… A democracia ainda é um bem a ser conquistado naquele país, ainda existe muita repressão.

Falei da internet e da TV, quis saber se esses meios não estão contaminando os jovens com novas idéias. Respondeu, desanimado, que o país é muito pobre ainda, a internet é pouco difundida e que só existem 3 emissoras de TV: a Televisão Publica de Angola, estatal, a rede Globo e a Record…

Quando ele falou dessas emissoras eu perguntei se havia brasileiros por lá. Ele disse que sim, mas que viviam isolados, em vilas construídas especialmente para moradia deles e que tinham receio de se misturar. Finalmente, quis saber por que ele estava no Brasil. Me contou que faz um curso de engenharia na Unip e que mora muito perto da minha casa, em São José dos Campos. Quia saber se ele sentiu algum preconceito e ele disse que já esteve em lugares piores que aqui. A única dificuldade que teve no Brasil, foi para alugar um apartamento, sendo ele estrangeiro e sem conhecidos no país. Teve que pagar um ano adiantado! Quando ele contou isso, tive que perguntar onde arrumou grana para tal. Seus pais são bem de vida, o pai é piloto de avião e a mãe enfermeira.

Com muito tato, para não melindrar o rapaz, perguntei se havia esse curso em Angola e se havia, por que ele tinha vindo cursar no Brasil? Ele respondeu que sim, que havia o mesmo curso em Angola, e emendou:

__Vocês brasileiros não querem todos ir aos Estados Unidos estudar? No meu caso é a mesma coisa.

Foi uma boa resposta, que me fez lembrar que estamos repetindo o modelo de dominação que aprendemos, primeiramente com os europeus e agora com os americanos. Dei a ele meu cartão de visitas, para que entrasse em contato comigo pelo YuBliss, onde escrevo minhas histórias, mas até agora, passado mais de mes, nem sinal do Ari dos Santos… Será que ele pensou que eu era do serviço de inteligência do governo angolano?

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Uma resposta to ““Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal…””

  1. edna Says:

    Então vc é esse tipo chato que enfia o joelho na poltrona da frente? Viajava muito de ônibus qdo tinha 18\20 anos…Isso era o que mais me incomodava, sentir os joelhos da pessoa de trás nas minhas costas…A segunda coisa que me incomodava era algum desconhecido vir puxar conversa comigo! hahahaha
    É concordo com vc não existe pior modelo pra copiar que o dos EUA…Lamentável! rs

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