Aconteceu comigo

A máquina começou a pipocar e eu achei que estava na hora de recorrer a um serviço autorizado. Minha esposa é homeopata, me conhece a fundo, pedi ajuda a ela. Perguntei se não podia mudar a potencia do meu medicamento de fundo, o Nux Vomica. Ela me olhou bem e perguntou o que eu estava sentindo naquele momento.

__Uma baixa de energia geral, tenho tido muitos altos e baixos.

__Que tal se você fizesse uma acupuntura?

Eu achei que ela não estava mais com saco de aturar minha arenga hipocondríaca e quis passar a bola pra outro.

__Não tá querendo me dar essa força? – perguntei.

__Não, falei por pura intuição, foi a primeira coisa que me veio na cabeça, acupuntura.

__Mas com quem? Eu não conheço nenhum bom acupunturista…

__Vai aparecer, espera que quando tem que ser, aparece.

Continuamos o passeio de domingo à tarde e quando chegamos em casa, não deu meia hora e toca o telefone. Era minha irmã Ana, de São Paulo, querendo falar comigo.

__Chico, achei um cara 10 pra você biografar.

__É mesmo? Quem é?

__O meu acupunturista, um húngaro de chegou ao Brasil com 4 anos, uma mão na frente outra atrás, fugindo da Revolução Húngara, em 1956. Foi engraxate na favela no Rio de Janeiro, conseguiu se formar médico, foi cardiologista durante um tempo, desistiu de ficar remendando os pacientes e hoje ele é acupunturista. Foi ele que tirou o Rogério do buraco, lembra?

__Sabe o que é, Ana? O personagem é interessante, mas eu estou sem tempo, aliás estou sem energia pra ficar inventando moda. Mas você disse que o cara é acupunturista? – perguntei, me lembrando da conversa com a esposa minutos atrás.

__É, foi isso que eu falei. E o cara é um barato, queria que pelo menos você viesse aqui conhecer ele.

__Ana, me marca uma hora com esse cara, eu quero uma consulta com ele. Aí eu aproveito e falo com ele sobre a biografia.

Ela marcou, eu fui à consulta, falei com o médico, dr Gabor, figuraça, gostei muito dele e o melhor; o cara quer ser biografado. Comecei um tratamento e estou voltando a cada semana para fazer mais sessões, sempre às quintas e sextas-feiras. Diz o doutor que são necessárias duas por semana e não podem ser no mesmo dia, de modo que durmo na casa da minha irmã, de quinta pra sexta.

Nesta sexta, minha irmã resolveu me dar uma carona e aproveitar pra se deixar espetar por ele também. Minha irmã é baixinha, deve ter no máximo um metro e cincoenta e cinco, e o carro dela é um Sentra, parece uma criança ao volante. Lá foi ela costurando em meio aos ônibus e motos, todo mundo querendo tirar o pai da forca, isso às 7h da manhã! Se ela tivesse um carrinho menor ia ser mais fácil trançar no meio daquela barafunda.

__Ana, por que você não arruma um carro menor? Não sei como você não perdeu o retrovisor com essa fina que você tirou daquela van, você não viu?

__Vi, Chico, mas eu to acostumada. Nem me fale em perder um retrovisor, custa mil reais cada um e ele não é dobrável, bateu quebrou! Até agora eu to virgem, nunca quebrei um!

Um minuto depois, um motoqueiro passou do meu lado e deu uma porrada no retrovisor. Tomei um baita susto, mas percebi que foi só a batida, o espelho continuava lá. Olhei pra minha irmã e demos risada:

__Ô lingua!

O motoqueiro continuou costurando à nossa frente e eu imaginei que ele fosse fugir, temendo a represália de um motorista mais nervosinho. Mas que nada, ele começou a encarar a gente e eu temi o pior. No sinal, paramos lado a lado. Pensei comigo, vai dar merda… Ele fez um sinal que não entendi bem e minha irmã abriu o vidro do meu lado. Achei que fosse sair o maior quebra-pau e eu entre os dois fogos. Eu estava redondamente enganado. Ele levantou o capacete e falou:

__Dona me desculpe, sinto muito, eu não tive intenção. – e minha irmã, com a maior calma do mundo retrucou.

__Meu, você precisa ser mais cuidadoso no transito, cada retrovisor desse custa R$ 1000! – ao que ele respondeu.

__Não, se tivesse quebrado a gente ia dar um jeito de pagar, a senhora me desculpe, foi erro meu. – e foi embora com cara de sem graça.

Eu estava boquiaberto e muito emocionado, nem consegui falar direito. Então existe gente assim no meio da selva paulistana!

__Ana, eu nunca vi uma coisa dessas! Isso não é normal.

__Comigo é normal Chico, já estou acostumada. Acredita que já me pararam no sinal, mais de uma vez, me pediram pra abrir o vidro só pra me dizerem que eu tenho uma proteção muito grande? É gente que nunca me viu, me falam isso e vão embora.

__Nossa, Ana, eu preciso andar mais com você…

Olhei para a frente e vi que os ipês-rosa estavam no máximo de sua floração, lindos, magnânimos. Senti um grande bem estar.

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