O Mamoeiro

De uma hora pra outra, os mamoeiros lá em casa começaram a produzir. Era uma meia dúzia de pés que nasceram sozinhos, das sementes que jogamos no jardim. Um fruto com a polpa bem amarelinha e muito saboroso, de uma variedade que não se encontra nos mercados, o mamão caipira. O que fazer com tanta fruta? Na época eu fazia licores, fiz alguns testes com mamão mas deu um produto muito ruim. Eu acabava dando pras galinhas, isso quando os passarinhos não devoravam a fruta no pé mesmo. Mas dava com dó, galinha pode comer tanta coisa que a gente não come… elas comem até merda humana, sabiam? E comem com gosto, brigavam até, disputando o quitute que saia do cano do esgoto, num canto do galinheiro lá do sitio!

Nesse tempo eu vivia com a Sô, uma mulher que era pau pra toda obra, uma companheira e tanto. Depois de ter me separado de uma mulher intelectual e sofisticada, resolvi juntar os trapos com uma que fosse mais pé no chão. Deu certo. Ela era de Touro, bem pé no chão, realizamos muita coisa juntos. Trabalhadeira, não parava um minuto, estávamos sempre inventando ou pondo em prática alguma invenção. Pois nasceu da cabeça dela a idéia de fazer pudim com os mamões excedentes.

__Pudim de mamão, Sô? Tá doida? Nunca ouvi falar disso, será que dá certo?

__Deixa comigo, Chico. Eu bato uns ovos, manteiga e farinha no liquidificador, boto canela, açúcar e meto no forno, você vai ver que gostosura!

Eu não botei muita fé na invencionice da Sô, mas ela fez o tal pudim e não é que a coisa ficou boa? Parecia um quindim, mas muito mais leve, sem aquele gosto forte de gema de ovo. Demos pro povo experimentar e todo mundo aprovou. Passamos a vender o pudim embalado em celofane, junto com os licores, mel, goiabada e bombons de coco que ela fazia.

Foi vendendo esses produtos que conseguimos juntar uns trocos e ir para a Europa, numa época em que a inflação era tal que se você não comprasse um produto de manhã, de tarde já tinha que pagar um pouco mais pelo mesmo produto! Pra preservar o valor de compra dos Cruzados que entravam, a gente comprava dólar, todo dinheiro que passava nas nossas mãos virava dólar.

No dia em que fomos comprar a passagem pra França, o agente de viagens, o Seu Roberval perguntou o endereço da gente.

__Bairro do Costinha – eu falei – km 105 da Estrada de Monteiro Lobato, na beira do asfalto.

__Km 105? É numa curva fechada?

__É, por que?

__E a casa fica à esquerda da entrada, a uns 50m da porteira, numa colina?

__É isso mesmo, como o senhor sabe?

__Estou achando que eu ja morei lá nesse lugar…

Ele fez uma cara tão comovente que eu resolvi convida-lo pra ir em casa.

__Vá lá visitar a gente, vá ver se é lá mesmo que o senhor morou.

E o cara foi, no próximo fim de semana lá estava o Seu Roberval, um senhor de uns 60 anos, batendo palma na porteira.

__Não tem cachorro bravo? Posso subir?

__Pode entrar tranquilo, aqui nem tem cachorro.

Ele subiu ofegante e chegou até a varanda da casa, vermelho, suando em bica. A Sô ficou preocupada de ver o homem naquele estado.

__Senta aqui nesse banco, Seu Roberval. Aceita uma água? – ela perguntou.

__Aceito sim.

Ela foi buscar a água mas o Seu Roberval não se sentou no banco. Ficou parado na entrada da varanda e encostou no mamoeiro mais bonito, o que produzia mais, e que estava carregadinho de frutos de todo tamanho. Tirou um lenço do bolso e enxugou o rosto. Foi só então que percebi que ele estava chorando.

Ele olhava em volta, não falou nada de primeiro, mas depois desandou a falar.

__Aqui ficava a capineira, ali pra cima o mangueiro, atrás da casa a jabuticabeira, mais ali o terreiro, eu brincava de rodar pneu no terreiro com os meus irmãos. O pai lidando com o gado, a mãe cuidando da casa, foi um tempo muito feliz, eu não queria nunca ter saido daqui.

E ele caia novamente no choro… Ficou bem uma meia hora ao lado do mamoeiro, falando e chorando entre as falas. Eu tava só vendo a hora daquele homem ter um troço na nossa frente! Não quis entrar nem sentar, parecia que tinha uma barreira invisível impedindo que ele adentrasse a casa. Foi embora triste e desenxabido. A Sô e eu nos olhamos, sem entender direito o que aquele cara tinha ido fazer lá em casa.

No dia seguinte, acordamos cedo, eu estava na cozinha e a Sô foi dar de comer às galinhas, que a gente ia sair pra cidade. De repente, um grito e a So entra correndo em casa com cara de quem viu assombração.

__Vem ver, vem ver, você não vai acreditar o que aconteceu, Chico!

Imaginei uma tragédia, pela expressão dela eu podia pensar qualquer coisa, alguém morto na varanda ou algo dessa monta. A Sô não tinha medo de nada, uma vez até tirou uma cobra de dentro do nosso guarda-roupas! Se ela estava apavorada, não podia ser por pouca coisa. Fui até a porta e não vi nada.

__Mas o que houve, Sô? Não to vendo nada!

Ela apontou pro chão, na esquina da varanda e eu pude ver o mamoeiro estatelado, a mamoada madura toda estourada. Senti um golpe na barriga e lembrei do Seu Roberval, encostado nele no dia anterior.

__Bem, antes o mamoeiro no chão do que a gente…

Depois desse dia eu comecei a acreditar em mau-olhado. Antes eu achava que isso era superstição.

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Receita do pudim de mamão da Sô

Ingredientes
1 mamão grande maduro, sem casca e sem sementes
1 xícara (chá) de leite
1 e 1/2 xícara (chá) de açúcar
1 colher (sopa) de manteiga
2 gemas
4 colheres (sopa) de farinha de trigo
2 claras em neve
Margarina para untar

Modo de preparo
Coloque o mamão, o leite, o açúcar e a manteiga em uma panela e leve ao fogo médio por cerca de 10 minutos, mexendo de vez em quando. Depois, passe por uma peneira e despeje o creme em uma tigela. Deixe esfriar, junte as gemas com a farinha de trigo e misture. Acrescente as claras em neve, misturando delicadamente e acomode essa mistura em uma fôrma de buraco no meio de 22cm de diâmetro untada. Leve ao forno médio, preaquecido, em banho-maria, por 30 minutos ou até que ao enfiar um palito, ele saia limpo. Retire do forno, espere amornar e leve à geladeira por 3 horas. Desenforme e sirva.

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4 Respostas to “O Mamoeiro”

  1. chicoabelha Says:

    Cris, eu não tinha pensado nessa possibilidade, do mamoeiro ter se sacrificado pelo Roberval… Bem, até ontem eu chamava esse fenômeno de “mau-olhado”, como devo chamar agora? De “bem-sacrificado”?

    Acredita que no momento em que eu finalizava a história, na parte em que ia escrever sobre o mamoeiro caído, minha esposa me chama para tomar café e eu tive que parar o texto. Um pouco antes, eu tinha saido para a rua e apanhei uma flor do flamboyant que tem aqui na esquina de casa e deixei-a ao lado dos óculos da minha esposa, como um presente pra ela.

    Sabe o que ela disse? Que esse flamboyant é como uma proteção da nossa casa e que cada vez que a prefeitura vem podar arvore, ela sente a dor dos galhos cortados… Eu nem tinha comentado sobre o texto que estava escrevendo! Tá tudo ligado mesmo!

    Sim, a ida pra França é uma outra história, Cris… Quase cedi à tentação de encaixa-la nesse texto…

    • edna Says:

      Essa sensação da Paulete é pertinente…Eu sinto também a energia das plantas, principalmente aquelas que estão ligadas a mim pelo afeto…Ela deve ter amado encontrar a florzinha ao lado dos óculos! rs
      Quando sai da casa do meus pais aos dezoito anos, deixei um vaso lindo de avenca…Enorme e bem formado…Super saudável! Apesar dos cuidados de minha mãe esse vaso definhou e morreu…No litoral plantei uma nova avenca que ficou tão linda como a primeira e com a nossa saida da casa ela também morreu…Algumas coisas não da pra explicar com palavras…Acho que funciona mesmo assim!

  2. edna Says:

    Chico que história linda essa…Do bem enorme que fizeram ao Roberval! Eu acredito muito que a gente vai encontrar pela frente o que a gente precisa ou o que precisa da gente…Nada é por acaso! Ele tinha algo a dever ou a cobrar daquele lugar que no momento era a sua casa…Não sei se da pra chamar isso de “mal olhado”, já que a planta amorosamente recebeu aquilo que fazia o Roberval sofrer…Eu prefiro ver com esses olhos…De que nada mais foi que o sacrifício da planta pelo bem do outro…O mamoeiro cumpriu sua missão de alimentar os pássaros, você e a Rô…O povo todo que comeu desse pudim… Escolheu morrer dando algum alívio a quem precisava mais de aceitação e compreensão do que de frutos ou doces…Que bom que lembrou de colocar a receita, pois já conhece seus leitores que devoram seus textos e quitutes…rs

    Essa sua ida pra França é uma outra história…

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