Dona Denise

No ano de 2036, quem tinha dinheiro suficiente para pagar, estava morando num condomínio fechado. Todos os outros cidadãos, os de segunda e terceira classes, os sub-humanos, moravam espalhados em tendas e barracos, do lado de fora dos muros. Os condomínios contavam com todo tipo de comércio, serviços e lazer, de modo que a pessoa podia passar o dia todo dentro dos muros, sem o inconveniente de ter que se arriscar na terra de ninguém, no caos que reinava do lado de fora. Com um pouco de sorte podia-se trabalhar intramuros ou via internet, embora todas as empresas empregadoras também estivessem localizadas em condominios devidamente protegidos.

Quem não precisava transitar entre os condominios era considerado privilegiado, pois sair de um condomínio para chegar a outro condomínio era uma verdadeira operação de guerra. Felizes eram os passarinhos e os pernilongos, que voavam indiferentes aos muros, alheios a tudo que se passava no mundo dos homens.

Nas conversas nos cabeleireiros, bares, restaurantes, etc… corriam toda espécie de lendas e histórias fantásticas, de pessoas que foram surpreendidas, roubadas e até mesmo mortas, por tentarem fugir ou se recusarem a dar o que pediam os assaltantes. No noticiário da TV, o que fazia mais sucesso eram os relatos das tragédias das vítimas da violência. Comentava-se que a vida nunca tinha sido tão difícil, nem o mundo tão hostil, e que a violência vinha num crescendo insuportável. O aparato policial não dava conta do serviço e à boca pequena, dizia-se que os policiais estavam mancomunados com a escória que atanazava a vida dos homens de bem.

Dona Denise, apesar de aposentada, ou, talvez por isso mesmo, porque fosse aposentada e não encontrasse muito o que fazer da vida depois que largou o magistério, era muitíssimo informada sobre tudo o que se passava no mundo, o de dentro e o de fora dos muros. Ela não perdia o Jornal da Oito, a voz do governo central, que ela tinha em alta conta. E toda sexta-feira o entregador deixava na sua caixa de correio a revista Olhe, que ela lia de cabo a rabo, em tres tempos, gulosa que era de informações um pouco mais elaboradas do que as da TV. A entrevista das páginas amareladas ela deixava para o fim, era a cereja do seu bolo semanal de leituras.

A matéria de capa dessa semana era a revolta dos maconheiros na Universidade Central. Dizia a revista que os alunos estavam em greve, reivindicavam o direito de fumar livremente maconha no campus. A professora aposentada achou aquilo um descalabro e imputou a baderna à falta de pulso do governo. No entender dela o poder público já poderia ter acabado com a pouca vergonha se tivesse permitido que a polícia cumprisse seu papel com mais energia. Não o fizeram e agora estavam nas mãos de um bando de meninos sonhadores, que ao invés de estudar ficavam tumultuando a vida dos companheiros que queriam realmente aprender.

O condomínio de Dona Denise era privilegiado, contava com uma considerável área de mata nativa, o que aliviava um pouco a poluição do ar, que no ano 2036 voltara a ser um problema, com o aumento da população e a consequente produçãode gás metano que emanava dos dejetos humanos e dos animais confinados.

Naquela manhã de domingo Dona Denise acordou cedo como de costume. Ela não fazia distinção entre os dias da semana, todos os dias acordava e se levantava da cama, ligeira e ágil como uma mola que se distende. Abriu a janela do seu quarto, a que dava para o lado da mata e perscrutou o horizonte visível. Seus olhos espertos deram com algo estranho; sobressaindo do verde da folhagem, ela percebeu o vulto de dois homens metidos entre as árvores e encheu-se de indignação e suspeita. O que estariam aqueles dois fazendo na mata? Não teve dúvidas, vestiu-se rapidamente e saiu ao encontro dos dois suspeitos, levando a tiracolo o seu Lulu, o fiel poodle branco que a acompanhava em suas incursões detetivescas.

Ao aproximar-se dos dois suspeitos, viu que um deles se abaixou, pegou alguma coisa do chão, entregou para o outro e na seqüência vieram andando pela trilha de pedrisco, na direção de Dona Denise. Ao cruzarem-se, a professora viu que um dos rapazes era o Pablo, filho da vizinha, sua velha amiga Dona Esmeralda. Pode ver também que ele estava com os olhos vermelhos e inchados.

A associação foi imediata, ela não teve dúvidas, dois rapazes no meio do mato, o Pablo com os olhos vermelhos, só poderia significar que estivera consumindo drogas. Ela precisava, urgentemente, avisar o patrulheiro do do dia! E o que foi que o amigo pegou do chão e colocou na mão do Pablo? Ora, decerto fizeram ali mesmo uma transação, eram traficantes, como é que ela iria contar para Dona Esmeralda essa desgraça com o filho dela?

Possuída pela indignação, nem um bom dia ela deu aos rapazes, passou direto e reto por eles e correu para um dos interfones espalhados pelo condomínio. Ela tinha que dar a notícia de qualquer jeito, o mais rápido possível! Mas quis o destino que ela topasse com Dona Saturnina, uma mulher que falava pelos cotovelos, justo ela! Dona Saturnina desandou a falar, a reclamar disso e daquilo e principalmente do barulho infernal que faziam um bando de galinhas d’angola debaixo de sua janela, todas as manhãs. Dona Denise, quando achou uma brecha, objetou que os problemas que Dona Saturnina apontava não eram nada, em vista do que ela havia acabado de presenciar.

Dona Saturnina, percebendo que Dona Denise estava mesmo muito vermelha e abalada, perguntou assustada:

__E o que foi que você viu, Denise?

__Saturnina, o tráfico de drogas está do lado de cá dos muros, eles invadiram nosso território! Temos que fazer alguma coisa urgente!

__Mas como você sabe disso, Denise?

__Eu vi, acabei de ver com meus próprios olhos!

__Viu o que, criatura de Deus?

__Vi o filho da Esmeralda, o Pablo, ele estava comprando droga de outro rapaz! Os dois estavam no meio da mata, com os olhos inchados de tão vermelhos, e fugiram depressinha quando eu me aproximei. Eu sei que as pessoas que fumam droga ficam com os olhos vermelhos, é um dos sintomas, Saturnina!

__Mas você tem certeza que era mesmo o Pablo, Denise? Ele é um rapaz tão comportado e educado!

__Mas você está duvidando de mim, Saturnina! E tem mais, agora eu entendi quem foi que roubou minha caixinha de Tic Tac de alcaçuz que eu deixava sempre no meu carro que fica aberto em frente de casa. Foi ele, o drogado não pode ver açucar, ele não se controla e rouba! Temos que nos…

Saturnina levantou as mãos para os céus e depois levou-as à boca. De repente ela entendeu tudo e não podia deixar aquilo ir mais longe. Interrompeu a amiga para explicar:

__Denise querida, eu tenho que explicar duas coisinhas que você não sabe. Eu vi o Pablo e o amigo dele hoje de manhã entrando na mata.

__Ah! Você viu também! E não achou suspeito eles entrarem lá uma hora dessas?

__Claro que não, Denise, pois eles estavam carregando o Rex, foram lá na mata enterrar o pobrezinho, que morreu esta madrugada… E você sabe, o rapaz era muito apegado ao cachorro, chorava aos borbotões quando o vi. Quanto às balas de alcaçuz que sumiram do seu carro foi o Juninho, aquele pestinha do meu neto que pegou! Ele me apareceu com elas em casa dizendo que ganhou de um amigo, o malandrinho… Ele nem as comeu, achou que tinham um gosto estranho…

Dona Denise ficou com cara de tacho, como se tivesse levado um soco no pensamento perfeito que havia construído ainda há pouco…

__Saturnina, preciso ir para casa, na pressa que eu sai acabei esquecendo de tomar o meu antidepressivo…

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2 Respostas to “Dona Denise”

  1. edna Says:

    Quem conta um conto aumenta um ponto…
    É o mito da caverna de Platão…Todos vivem tão confinados e o único ponto de ligação com a realidade é a mídia…Ou seja…As sombras!
    Gostaria de ser mais otimista em relação ao futuro…
    Agora escreve um com floresta e bichinhos que eu quero fugir dessa imersão na realidade…rs

    • chicoabelha Says:

      Vou tentar, Edna, vou tentar ser mais positivo na próxima história… Quem sabe eu faço uma inspirado na imagem da mulher contando história para os bichos com o gramophone…

      Eu aumentei alguns pontos, mas tudo que está no relato aconteceu…

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