Quinze de Novembro

Eu estava me sentindo um peixe fora d’água em meio aqueles pais de adolescentes aguardando suas crias, à saída do exame vestibular da Unicamp. Perdido no mar de carros estacionados caoticamente em frente à universidade, em pleno feriadão de 15 de novembro, lá estava eu, sem nada pra fazer dentro do veículo, impaciente, esperando por meu enteado. Ele estava demorando demais pra apontar no portão, que não parava de vomitar adolescentes, todos muito iguais entre si e recitando a mesma ladainha: “O que você respondeu na questão 27? A 42 só podia ser letra C, era muito fácil! Quando sai o gabarito?”

Tenho alergia ao sistema de ensino e todos os seus sintomas. Eu só estava ali porque a mãe do meu enteado estava acamada, teve uma súbita dor nas costas e me pediu para levar e buscar o filho. A mim, o prédio da universidade à minha frente se assemelhava a uma grande fábrica de enformar seres humanos, definitivamente, eu me sentia um estranho naquele ambiente. Mesmo após 4 anos vivendo na cidade, algumas coisas ainda me causam muita estranheza. O ritual dos pais levando os filhos para o exame vestibular me incomodava muito naquele momento.

O tempo estava encoberto, céu cinza escuro, e a chuva se anunciava. O vento quente trouxe um cheiro conhecido para dentro do carro, um cheiro acre que eu não identifiquei imediatamente, mas que me deu uma sensação de conforto e me encheu de nostalgia. Junto com o cheiro chegaram imagens, de uma floresta com uma cabana e um pasto com vacas deitadas à sombra. Quando vi as vacas o cheiro fez sentido: era da bosta delas o odor que inundava o ar.

Há exatos onze anos, também num feriadão de 15 de novembro, eu estava naquele pasto cuja imagem, agora, se fazia muito nítida na minha imaginação. Como uma formiga obreira, eu apanhava telhas em grupos de 6, atravessava o riacho e as depositava no local onde seria construida minha segunda cabana. Lembro que naquela época estava estudando alemão, de modo que a cada viagem eu associava um número e ia contando enquanto carregava as telhas: eins, zwei, drei, vier… até chegar naquele número. Pelos meus cálculos iria demorar uma semana para transportar a pilha toda, era a minha meditação, eu repetia os números em voz alta, como se fosse um mantra. Consegui aprender a contar atémil em alemão.

Numa das idas de vindas, me aparece na trilha um grupo de turistas. Volta e meia eles apareciam lá em casa, queriam ver o ermitão, comer “natureba”, tirar um tarot, receber uma massagem ou simplesmente passar umas horas em meio à natureza. Ficavam umas horas e iam embora, de volta para suas vidas urbanas.

Cumprimentei o casal meia idade, um adolescente e um garoto, este último era o guia do passeio. Eu não sou de parar o que estou fazendo para fazer sala, costumava e costumo, ainda, deixar as pessoas bem à vontade, para que se conectem com o que bem quiserem. De modo que continuei minha carregação de telhas até que meu corpo estivesse bem quente para o banho frio no riacho. Tomado o banho, dirigi-me à cabana, nu como Deus me fez, e adentrei a casa. O pessoal que mandava turistas para mim já sabia, eu não era uma pessoa comum. Quem chegava em casa já estava avisado que meu sitio não era nenhuma Disneylandia, se chegaram até mim é porque buscavam o anticonvencional.

Enquanto perguntava do interesse de cada um, o que queriam naquele passeio, acendi o fogo e comecei a preparar o almoço para todo mundo. O mais falante do grupo era o homem, um engenheiro de sistemas que desandou a falar e não deu espaço para mais ninguém. Veio com uma conversa de nova ordem mundial, que o sistema financeiro ia entrar em colapso, que ele elaborou um sistema revolucionário que ia substituir o dinheiro e que ele só apresentaria ao mundo no momento adequado, quando a humanidade estivesse preparada. Isso tudo saído da boca de um sujeito super careta, certinho até a raiz do cabelo. Ele tinha vindo me conhecer porque disseram para ele que eu vivia praticamente sem dinheiro, o que, para infelicidade dele, eu não pude confirmar.

Quando o homem deu uma brecha, perguntei à mulher, que estava encantada com o meu desempenho no fogão de lenha, o que ela tinha ido buscar lá na montanha. Ela me pareceu muito tímida, era médica, apenas amiga do engenheiro e queria aprender mais sobre o uso de plantas medicinais. O rapaz da agencia tinha dito que eu era um profundo conhecedor de ervas e ela ficou interessada em me conhecer. Prometi que depois do almoço faríamos um passeio educativo pelas redondezas da casa. Ela não abriu mais a boca, nem ela nem o filho do engenheiro, um rapaz soturno demais pro meu gosto.

Depois do almoço, um banquetezinho com carne de soja ao molho de caruru, omelete de ovos de pata, salada de beldroega com pepino e nabo, e um suco de lima da pérsia para ajudar a descer tudo isso, sentamos na sala e o engenheiro deu indícios de que iria continuar o discurso sobre a teoria do colapso do sistema financeiro. Eu não ia aguentar o segundo round daquela lenga-lenga, propus então uma brincadeira para descontrair, pra fazer aquele povo sair da cabeça e ir pro corpo.

Era uma brincadeira simples, que aprendi com uma amiga muito louca, e que sempre funcionava quando o povo era muito mental. A gente batizou a coisa de Só Para Loucos, inspirado no Lobo da Estepe, do Hermann Hesse. Dentro de um grande saco plástico, desses que servem para embalar colchão, eu tinha uma coleção completa de fantasias de todo tipo, trajes de homem e de mulher, desde pirata até bruxa. Botei tudo em cima do tapete, pedi que cada um escolhesse uma roupa e atuasse o que estivesse sentindo naquele momento. Pra facilitar a atuação e animar a brincadeira, pedi a um amigo que acabara de chegar, que tocasse um violão, o que viesse à cabeça dele. Quando não tinha quem tocasse o violão eu botava uma fita cassete no aparelhinho à pilha, um Manu Chao ou um Deep Forest eram perfeitos. De um jeito ou de outro, todo mundo participava e dessa vez não foi diferente. O povo todo aderiu.

O engenheiro pegou uma roupa de cigana e soltou a franga. O rapaz jogou um lençol preto nas costas e assumiu o lado escuro, fazendo caretas de filme de terror de terceira. O guia botou um chapéu de pirata, montou numa vassoura e saiu gritando ordens aos marujos. A mulher, ainda um pouco tímida, não vestiu nenhuma fantasia, mas acabou entrando na dança caótica que tomou conta da cabana. Eu me vesti de Adão, com uma folha de bananeira ao invés de folha de parreira. O negócio só foi esquentando, as fantasias sendo trocadas, muita improvisação, concurso da fantasia mais ridícula, tudo-que-seu-mestre-mandar, o pessoal gostou tanto que esqueceu da hora e íamos entrar noite adentro se o guia não interrompesse a brincadeira. O caminho de volta era longo, não dava pra arriscar andar na trilha no escuro.

No fim da história eu nem tinha mostrado as plantas para a médica, mas pela cara dela, na hora em que nos despedimos, o passeio tinha valido a pena. Nos demos um abraço gostoso e nessa hora eu vi nela uma pessoa especial, muito diferente da primeira impressão que tive. Disse ela que apesar de ter ficado um pouco assustada, me achado muito louco e ter vivido coisas muito diferentes do que estava acostumada, que um dia iria voltar, mas nunca voltou. No entanto, fez melhor do que isso. Seis anos depois, quando eu vendi o sítio em que nos conhecemos, ela ficou sabendo da venda meio que por acaso. Por iniciativa dela, nos encontramos uma vez, depois outra, e por fim entramos num acordo tão bom, mas tão bom, que eu acabei casando com ela. Há 4 anos ela é minha esposa. A gente tem se dado muito bem, apesar de eu estar a cada dia mais urbano e conectado, e o sonho de consumo dela ser um sitio nas montanhas… Quanto às plantas medicinais, ela não precisou aprender, eu mantenho uma horta em frente de casa; lá tem hortelã, boldo, carqueja, picão, mentruz, caruru, beldroega, estomalina, erva-cidreira, alfavaca, manjericão, bálsamo, babosa e mais algumas outras que eu devo estar esquecendo…

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5 Respostas to “Quinze de Novembro”

  1. chicoabelha Says:

    Quem sabe você ja conhece a casinha na floresta… quem sabe já foi lá em sonho, viagem astral ou qualquer outro caminho que a gente não percebe mas faz… rsrs!

  2. edna Says:

    Que bonitinha é a história de vocês…Não da pra encontrar coerência nesse esforço que o universo faz pra juntar as pessoas que se pertencem…
    Se um dia eu te conhecer pessoalmente, espero que esteja vestido! rs
    Não consigo explicar como é sentir saudade de um lugar que nunca vi…Me sinto assim em relação a essa casa das fadas!
    Hoje acordei com uma dor de cabeça horrível…Me diga guru das ervas medicinais o que indica para esse meu achaque…
    Como sempre…Sempre boa!
    Bjss

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