Κυρία Sophia

Hoje pela manhã, um vento gelado me trouxe de volta a Κυρία Sophia, via uma atualização do Facebook, chegada da página da minha amiga Jacqueline. Κυρία Sophia foi uma senhora para quem colhi azeitonas em Creta, no comecinho da década de 90. Ela chegou de carona numa notícia no site do Pravda em português, que apresentava uma troca de cartas nada amistosa entre um grego e um alemão, relativa à recente crise financeira européia. Em sua carta, o alemão ressaltava a generosidade dos germânicos ao ajudar os helenos, que teriam recebido o maior quinhão da verba destinada à comunidade européia, e criticava o mau uso que fizeram os gregos, dos preciosos euros ofertados pelos alemães. O grego, por sua vez, rebatia com a lembrança da dívida de guerra nunca paga pelos alemães e pedia o imediato repatriamento das obras de arte gregas saqueadas, que hoje se encontram nos museus de Berlim e Munich…

O inverno que passei em Creta foi muito ventoso, o ar gelado descia das montanhas pedregosas e tornava mais difícil minha caminhada de alguns quilômetros, que eu tinha que fazer todos os dias se quisesse trabalhar. Eu não estava preparado para aquele inverno, era a primeira vez que eu enfrentava temperaturas abaixo de zero e minhas roupas eram totalmente inadequadas. A sorte é que eu tinha achado na praia uma capa de lã que me batia nos calcanhares, ela era minha maior aliada contra o frio. Como eu era muito pão-duro, preferi passar frio a comprar roupas que me aquecessem adequadamente! Coisas da juventude que tem saúde. Na época eu tinha 32 anos; hoje, com 54, isso seria impensável.

Ninguém queria trabalhar para  Κυρία Sophia e eu não sabia bem o por que. Quando indagava o motivo, o pessoal dava um sorriso maroto e desconversava. Em sua maioria absoluta os trabalhadores avulsos que estavam ali eram de origem alemã. Havia marroquinos, iugoslavos e alguns  franceses e ingleses, mas 80% eram alemães que vinham gastar seus marcos do seguro desemprego. Para eles a Grécia era perfeita, com uma moeda fraca e um inverno mais quente, ou melhor, menos frio que o deles. O único problema, segundo os alemães, era o jeito bruto dos gregos, que segundo eles, tratavam os trabalhadores como escravos. Eu nunca percebi isso, mas eu vinha do 3º mundo, uma realidade bem diferente da deles. Por uma questão de necessidade absoluta, eu era recém chegado e ainda não tinha feito muitos contatos em Creta, resolvi arriscar trabalhar para Κυρία Sophia. Subi na caçamba da caminhonete Isuzu azul-clara dela, toda caindo aos pedaços e lá fomos nós para as oliveiras da velha.

Κυρία Sophia devia ter uns 70 anos, vestia preto, cabeça coberta e tratava os homens de igual para igual, características da maioria das mulheres gregas que eu conheci. Ela não falava ingles, nenhuma palavra, e eu mal arranhava o grego, estava com apenas um mes no país. Nem por isso nossa comunicação foi falha. Já de início eu percebi que ela era muito exigente, queria somente azeitonas nos sacos de 50 kg que eu deveria encher, nada de folhas, galhos e pedras. Me disse onde estavam os sacos de plástico e estopa, apontou o relógio no seu pulso, mostrou o numero XII e fez um gesto com a mão e eu entendi que o almoço era ao meio dia. Almoço era modo de dizer, o que os patrões davam para a gente era sempre a mesma coisa: pão, azeite, tomate, queijo duro, salame (tudo frio) e um vinho forte, um dos piores que eu já tomei na vida. Depois de uns meses comendo isso, enjoei e passei a preparar minha própria comida em casa. Eles olhavam ressabiados quando eu tirava minha marmita da mochila, como se eu estivesse recusando a comida deles, mas eu tinha que respeitar o meu pobre fígado…

Bem, lá fui eu colher as azeitonas da Κυρία Sophia, sozinho em meio ao sombrio olival milenar, o vento gelado soprando firme. Meus pensamentos, nesses momentos de solidão, viajavam entre o dinheiro que eu precisava fazer para sair dali e a possibilidade de me casar com uma grega e ficar morando naquela ilha para sempre. Ou seja, eu não sabia o que queria e minha cabeça gostava de analisar e sonhar com todas as possibilidades. Estava perdido nessas fantasias, recolhendo as azeitonas com as mãos, quando senti algo se mexer no meio dos frutos que estava selecionando. De início pensei que fosse uma lagartixa, mas olhando melhor vi que tinha um escorpião preto nas minhas mãos! Claro que eu levei um susto enorme e larguei tudo no chão. Como podia? Um escorpião num frio daqueles! Eu jamais podia pensar que eles sobrevivessem nestas condições, mas lá estava ele, assustado, todo preparado para dar sua ferroada com a cauda.

Dei um jeito de apanha-lo e coloca-lo numa sacola de plástico e levei-o para Κυρία Sophia ver. Achei que ela podia me esclarecer se era perigoso continuar trabalhando, se era normal eles aparecerem, mas na verdade eu estava é muito apavorado com a possibilidade de levar uma ferroada do aracnídeo num lugar ermo daqueles.

Chamei-a e ela veio de dentro da casa. Mostrei o bichinho e depois mostrei minhas mãos. Ela ficou apavorada, pensou que eu tivesse sido picado, me arrastou pra dentro da casa e me apontou a cama, querendo que eu deitasse nela. Tentei desfazer o mal entendido falando uma das poucas palavras que eu conhecia:

__Οχι! – que quer dizer não, em grego. Eu repeti várias vezes a palavra, me negando a deitar na cama. A muito custo consegui faze-la entender que nada havia acontecido comigo, mas ela não pareceu entender, queria que eu deitasse na cama de qualquer jeito. Ficou mesmo decepcionada com a minha negativa. E mais ainda quando eu fiz menção de ir embora sem terminar o serviço. Finalmente ela entendeu, mas me fez comer alguma coisa antes de partir. Sentamos-nos à mesa e ela me serviu o de sempre, mais um cafezinho quente, que foi muito bem vindo naquela hora de frio e nervosismo.

Com a ajuda de muita mímica, conseguimos manter uma conversação enquanto comíamos. Depois de perguntar a idade dela, onde tinha nascido, se tinha filhos, quis saber se tinha marido. A palavra para homem em grego, eu sabia. Perguntei onde estava o homem dela.

__Caput Μεγάλου Πολέμου – ela me respondeu. O caput eu sabia que era um jeito de dizer que ele estava morto, e Μεγάλου era grande. Mas a outra palavra, Πολέμου, eu não sabia o que era. Ela repetiu diversas vezes a palavra, fazendo gestos de todo tipo, usando de onomatopéias, tipo PUM!, PUM!, PUM!, chegou mesmo a ficar indignada de eu não saber o sentido e finalmente desistiu. Eu só vim a saber o sentido quando olhei no dicionário grego-portugues, que eu havia comprado em Atenas logo que cheguei. Πολέμου queria dizer guerra, o marido dela tinha morrido na II Guerra Mundial.

Depois dessa história da guerra, ela ficou meio desenxabida e eu resolvi que era hora de ir embora. Num salto ela se levantou da mesa e veio em minha direção, acenando com um bolinho de drachmas, a moeda grega naquela época. Eu entendi que ela ia me pagar pelas poucas horas que eu havia passado juntando azeitonas e ia aceitar o dinheiro. Mas o que ela fez foi enfiar a mão com as notas no meu bolso e se adiantou de maneira muito clara, me dando um abraço sufocante. Demorei alguns segundos para entender o que estava acontecendo e me livrar daquela boca que tentava encontrar-se com a minha. Quando consegui, saí correndo dali o mais rápido que pude para a estrada de terra que levava ao povoado.

Nunca mais ouvi falar de Κυρία Sophia. Quando contei aos alemães, eles deram risada, falaram que eu tinha que tomar cuidado com as muitas viúvas que eles tinham feito na guerra…

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