Carne de Macaco

Quando o estoque de proteínas começava a chegar perto do fim e tudo que restava pra comer eram hortaliças, bananas, palmitos e inhame, eu programava uma visita à cidade. Isso acontecia mais ou menos uma vez por mes. Eu escolhia um dia mais seco, pra não correr o risco de pegar uma estrada lisa e ter que colocar correntes nas rodas de trás e descia para Monteiro Lobato, a 12km do sítio. Ia buscar uns ovos, queijo e proteína de soja. Fechava bem a caixa de madeira com as bananas, para evitar um ataque dos esquilos, dava uma molhada na horta, pegava a lista de compras e caminhava em direção ao fusca, feliz da vida, pensando em quanta gente deveria me invejar por eu morar no meio da floresta, ser livre e poder fazer o que bem entendesse do meu tempo.

Cada vez que eu saia do sítio, não via a hora de voltar… Nesse tempo eu tinha a ilusão de que viveria ali para sempre, que morreria e seria enterrado ali naquele pedaço de chão, um velhinho magro, barba branca e um sorriso desdentado, ao lado de um  vira lata fiel, que seria o único a sentir minha falta… Ir para a cidade era penoso, eu só fazia mesmo por causa da falta de comida. Claro que havia os amigos, que eu acabava encontrando quando descia. Não tinha muitos amigos, mas os poucos que tinha eram figuras peculiares, cada um me nutria com sua doideira particular.

Tinha o Déo, um músico que queria ser prefeito da cidade só para mandar tirar todo chão de asfalto, pintar cada casa de uma cor diferente e fazer um anel viário numa cidadezinha de meia dúzia de ruas, só para os carros não passarem pelo centro, que seria tomado pelas crianças. Tinha o Jarbas, um magrelo que saiu do Brasil e foi até o Alaska de bicicleta, esse tinha histórias que não acabavam mais! Eu precisava apertar o botão de stop do rapaz, senão ficava o dia todo escutando suas peripécias… E tinha a Cris, uma ecologista vegetariana, que fumava um cigarro lascado, mas era muito engraçada, minha alma saia lavada a cada encontro que eu tinha com ela.

Uma vez eu encontrei a Cris no correio, ela era nordestina e naquele tempo as notícias da terra dela chegavam por carta, nem se sonhava com internet e telefone era artigo de luxo. Estávamos batendo um papo na fila, ela com eterna conversa da destruição das florestas, que era preciso que o povo parasse de comer carne, que o peido das vacas estava destruindo a camada de ozônio, que tínhamos que fazer um abaixo assinado para mandar ao presidente, tudo isso em voz alta, meio que para todo mundo escutar.

Na frente da gente estava um casal, um homem de cabelos muito brancos, vestido como se fosse para a missa de domingo, naquele que deveria ser o seu melhor traje, e a mulher com uma camisa estampada, saia listada e uma calça florida. Nos pés, a mulher tinha um par de borzeguins. Não sei se por causa da nossa conversa, a mulher virou-se para trás e pudemos ver que ela era bem velha, devia ser esposa do homem, mas seu cabelo escorrido, tipo indio, não tinha nenhum fio branco. A Cris ficou admirada com os cabelos da velha, que pareciam naturais e quis saber qual a tintura que ela usava.

__Mas que cabelo mais lindo o da senhora! Qual é a tintura que faz esse efeito tão maravilhoso?

A mulher era muito simples, tímida mesmo, e respondeu num caipirês bem arrastado:

__Meus cabelo é naturá, dona, nunca viro tinta.

A Cris arregalou um olho, incrédula e soltou uma pergunta arriscada, inda mais em público:

__Mas a senhora quantos anos tem?

A velha não titubeou, respondeu na lata:

__Setenti i oitu, dona.

A Cris estava encantada com a mulher, eu podia ver a admiração pela velha estampada na cara dela:

__Mas qual o seu segredo, minha senhora? Me conte que eu também quero chegar na sua idade com cabelos maravilhosos como os seus!

Os zóinho da mulher, nessa hora eu percebi, pareciam os de um bichinho da floresta, assustado quando está acuado. Ela pensou alguns segundos, seguramente para pesar o efeito que suas palavras teriam sobre a interlocutora e respondeu finalmente:

__Sabi, dona, minha vó qui mi insinô isso. Desdi pequena eu só como carne de macaco, é issu qui faiz os meus cabelo num perdê a cô.

A Cris ficou roxa de indignação e claro, começou um discurso em defesa dos animais da floresta. Eu peguei minha correspondência e fui embora. Ainda deu tempo de escutar a velhinha defendendo seu direito de comer macaco, afirmando que tinha muito desses bichos, que eles destruiam as roças de milho e que era bom matar uns de vez em quando…

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4 Respostas to “Carne de Macaco”

  1. Luciaurea Kaha Says:

    Essa foi realmente nova pra mim meu amigo…
    Então quer dizer que carne de macaco deixa os cabelos bonitos?
    Será que se eu comer isso eu vou poder me libertar das tinturas? rrrssss
    Gostei do post!
    Gratidão 🙂

    • chicoabelha Says:

      Luci, repare quer ela comia carne de macaco desde pequena, não sei se funciona depois de adulto… Mas você pode experimentar e depois me conta se funcionou, só não sei onde vai arrumar a carne aqui no Brasil… rsrsrs!
      Bj! Eu é que agradeço!

  2. chicoabelha Says:

    Edna, acho que o estoque está acabando, vou ter que apelar para a memória de outras vidas… rsrsrsrss!
    Deixa a Natura descobrir essa coisa da carne de macaco, eles vão dar um jeito de isolar o princípio ativo e bolar uma loção capilar… rsrsrss!

  3. edna Says:

    Deixa as peruas saberem dessa novidade…hahahaha
    Não vai sobrar macaco na face da terra pra contar história!
    Ai Chico…Que vida maluca essa a sua…Quanta gente diferente e interessante! Não é a toa que você precisava de um bocadim de isolamento né não? O Jarbas ja era daquela época então?
    Você deve ter zilhões de histórias ainda nessa cachola!
    Conta mais vai!
    Bjuss

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