Medo de que?

Já me aconteceu muitas vezes de eu estar falando com alguém, olhando no rosto da pessoa e um outro rosto se insinuar. Hoje me aconteceu isso com a Érica, a ajudante aqui de casa.

De manhã cedo, a gente estava sentado na bancada tomando café juntos, percebi pela cara dela que algo não ia bem.

__O que foi Érica?

__Ah, essa noite eu não dormi bem.

__Ah, eu também não dormi, tava muito quente demais, nem o ventilador deu conta.

__Não, não foi por causa do calor, é que eu dormi sozinha em casa essa noite.

__E quando você fica sozinha não dorme bem? Eu durmo melhor quando não tem gente por perto…

__Deus me livre e guarde! Quando eu fico sozinha eu tranco tudo com duas voltas da chave, ligo a televisão bem alto, boto a geladeira barrando a porta da frente e deixo a luz acesa.

__Nossa, Érica, mas é por isso que você não dorme! Com tudo ligado não dá pra relaxar.

__Mas eu não sei ficar sozinha, Chico, nem sei o que ia acontecer se eu ficasse sozinha de tudo, tenho um medo que não tem nome, me dá um calafrio só de pensar nisso… Nossa Pai do Céu, ninguém merece!

Foi nessa hora que um outro rosto tomou o lugar do rosto da Érica, um rosto que eu conheci na India há uns 15 anos…

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Eu fazia um curso de massagem, uma técnica parecida com o Rolfing, e precisava de cobaias para praticar. Como eu queria me valorizar, cobrava pela massagem, acho que quando você dá de graça não é a mesma coisa, não tem o envolvimento do cliente. O quanto ele paga é a medida do quanto ele está engajado na cura.

Eu já tinha feito diversas massagens e os feedbacks eram sempre positivos. Por isso me sentia muito seguro do que fazia. A sensação que eu tinha durante o curso é que eu estava relembrando alguma coisa que já sabia e estava esquecida. Foi algo mágico.

Quando aquela mulher ocidental e gorda se apresentou como candidata a uma sessão, eu procedi como sempre. Fui ao apartamento dela e fiz os arranjos necessários na sala de visitas. Era dia, por isso eu fechei as cortinas para diminuir a luz, estendi um edredon em cima do tapete, acendi um incenso e coloquei um som relaxante. Ajoelhei-me ao lado do edredon e pedi a ela que se deitasse com o minimo de roupa possível.

A melhor maneira de dar uma massagem é sem roupas, os movimentos são mais flúidos e o toque de pele com pele é mais eficaz. Nem todo mundo tem a liberdade de mostrar seu corpo sem constrangimento, por isso a gente entra num acordo antes da sessão. Neste caso, a mulher ficou de calcinha e soutien. Ela não me conhecia, achei natural que quisesse se preservar.

Dei início à massagem pelos pés, para que ela não se sentisse invadida. Os pés ficam bem longe da cabeça e do sexo, são uma porta de entrada mais segura quando se percebe que há alguma resistência.

A mulher tentou estabelecer um diálogo enquanto eu dava a massagem, por diversas vezes ela começou a falar de coisas que não tinham nada a ver com o trabalho sendo feito. A cada vez que ela começava a falar eu pedia que ela respirasse fundo e me dissesse como estava sentindo o meu toque. A cabeça dela estava longe, queria falar do filho, das compras, da casa dela e estava evitando a conexão com o corpo. Aos poucos ela sossegou, e lá pro fim da massagem estava calada e se permitiu relaxar.

Como finalização, depende do momento ou do que rola na hora, eu coloco as duas mãos do cliente sobre a barriga, é algo que faço intuitivamente, não sei explicar o que acontece, mas a sensação é de que isso é muito bom. Fiz isso com essa cliente, dei por encerrados os movimentos, desliguei a música e me ajoelhei ao lado dela de olhos fechados, em silêncio absoluto.

Sempre dou alguns minutos para a pessoa sair do relaxamento e ir voltando devagar, principalmente quando a gente atingiu as profundezas e se desligou do mundo exterior. Se a pessoa demora muito a voltar eu ajudo, sussuro alguma coisa, coloco um som mais agitado ou abro a cortina para entrar luz natural. Nesse dia a mulher estava demorando a voltar, abri os olhos e ia chama-la mas me deparei com o edredon vazio! Ela tinha desaparecido!

Procurei-a por todo o apartamento e nada! Comecei a ficar nervoso, será que ela tinha evaporado? Olhei pela janela, temendo o pior, nada também… O coração estava a mil, não havia telefone celular naquela época eu não sabia mais o que fazer. Decidi sair à rua em busca de ajuda, talvez ir à polícia, toda sorte de pensamentos negativos embaralhavam meu raciocínio naquela hora.

Na India tínhamos por hábito tirar os sapatos quando entravamos em casa.  Pois quando fui calçar os meus, encontrei um bilhete e 3 notas de 100 rúpias. Na bilhete a mulher explicava que teve de sair correndo pois tinha um compromisso e não quis me tirar do transe (palavras dela). As 300 rúpias eram o pagamento e que eu enfiasse a chave por debaixo da porta depois de sair. Achei aquilo um pouco estranho, mas o alívio que senti não me deixou pensar muito sobre a fuga inesperada.

Dias depois, fiquei sabendo por um amigo comum que a mulher tinha odiado a sessão, disse que eu era um irresponsável de te-la colocado naquele estado, que eu jamais deveria ter feito um ritual de simulação da morte sem avisa-la antes. Nunca mais encontrei a tal mulher, mas sempre lembro dela quando finalizo uma massagem que resolvo cruzar as mãos do cliente sobre a barriga…

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Eu tenho muita liberdade com a Érica, de modo que foi natural perguntar:

__Érica,  mas do que exatamente você tem medo? O que você acha que pode acontecer nessas horas que você tá sozinha?

__É a solidão, Chico, eu tenho horror da solidão. O silêncio que fica quando tô sozinha representa que é a morte.

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