O crime das flores

O destino me presenteou com um enorme de um terreno vazio em frente de casa, uma área plana de subsolo, resultado da retirada de terra para aterro de alguns lotes na várzea do Rio Parahyba (algo totalmente irregular, diga-se de passagem; mas isso não vem ao caso). O solo é árido e duro, nele só cresciam tufos do teimoso barba de bode e algumas touceiras de brachiárias anêmicas. Logo que me mudei para cá, procurei saber de quem era o terreno, cujo tamanho é pouco menor que um campo de futebol e descobri que pertence à prefeitura. Depois de algumas visitas ao Paço Municipal, onde me fizeram de bolinha de pingue-pongue, desisti de conseguir uma autorização, decidi que iria passar por cima da burocracia oficial, que começaria a plantar naquele terreno e que fosse o que Deus quisesse.

Comprei uma cavadeira, um enxadão e uma enxada, e abri as covas para plantar as árvores da floresta dos meus sonhos, que eu já antevia crescida e cheia de passarinhos e flores. Arrumei mudas de ipê-amarelo, sibipiruna, quaresmeira, jacarandá, paineira e jambolão e coloquei-as nas covas abertas. Entre as árvores, preparei alguns canteiros de hortaliças e plantei couve, cebolinha, manjericão e flores, muitas flores. Com o incentivo dos meus vizinhos do condomínio, que gostaram da iniciativa, comecei a transformar aquele quase deserto, numa área bonita para os olhos. Passei a cuidar desse terreno como se fosse meu filho.

Uma bela manhã, durante a rega que eu fazia bem cedinho, antes do sol forte, notei que faltavam algumas flores. Um punhal varou coração ao vela-las, murchas, espalhadas ao lado dos canteiros. A primeira idéia que me veio à cabeça é que algum cachorro havia comido as flores; esses bichos costumam ingerir mato quando tem dor de barriga. Mas olhando melhor, percebi que alguns galhos de árvores mais grossas, também haviam sido quebrados e descartei os cachorros como os responsáveis pelo estrago. Alguma criança malvada, um doido varrido, quem ou o que teria feito aquilo com as plantas?

Estava perdido nessas conjeturas, quando o guarda noturno passou por mim e entregou o nome do responsável. Ele presenciara o crime na noite anterior. Explicou que fora a moradora da casa da esquina, que qual um trator descontrolado, destruíra os meus canteiros de flores, logo depois do meu telefonema, às 23h, pedindo que ela respeitasse o horário de silêncio e baixasse o som do pagode que rolava em sua casa. A indignação tomou conta de mim e se não fosse o guarda, eu teria ido imediatamente à casa da mulher, tomar satisfações por tamanha afronta. Ainda bem que ele me segurou, senão eu teria perdido a razão, tamanha a raiva que me possuía nessa hora.

Nos dias que se seguiram, pensei em todo tipo de represália, desde lavrar um B.O. na delegacia, mandar uma carta malcriada, até denuncia-la no Ibama, por ter danificado as árvores já crescidas. Acabei não fazendo nada disso, decidi replantar tudo e encarar o fato como um acidente de percurso. Sou muito esquentado no calor da situação, mas não sou de guardar mágoa, de modo que com o tempo acabei esquecendo de tudo aquilo, certo de que a existência, e não eu, se encarregaria de dar uma lição à vizinha malvada.

Hoje à tarde, dois anos passados do incidente, eu estava na horta, arrancando mato dos canteiros, quando uma criatura de não mais de um metro de altura, linda como uma fada, me aparece do nada, e me pergunta com a voz mais inocente do mundo.

__Tio, essas flores são suas?

Nessas horas eu não sei o que responder, não tenho uma resposta pronta e cada interlocutor recebe uma resposta diferente.

__Não, essas flores não são minhas, mas como elas não tem pai e mãe eu resolvi cuidar delas.

__Elas são bonitas, posso pegar algumas para dar para minha mãe?

__Claro, pode sim, vamos apanhar algumas flores para a sua mãe. É aniversário dela hoje?

__Não, é que ela está triste, mas quando ela ganha flores fica contente.

Colhemos um bom maço de cosmos, primaveras, alamandas e alguns ramos de capim, tudo amarrado com um fiozinho de sisal, o resultado foi um bouquet à altura desses que fazem nas floriculturas. A menina ficou radiante, me agradeceu e já ia saindo quando me veio à cabeça de perguntar onde ela morava.

__Eu moro lá naquela casa da esquina, tio.

Olhei a menina correndo com as flores para a mãe, constatei que o tempo é mesmo sábio e que não poderia haver punição mais feliz para o “crime das flores”.

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2 Respostas to “O crime das flores”

  1. Cintia Bordwell Says:

    Eu adorei o texto.

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