O Crack

Já faz algumas semanas que durante a minha habitual caminhada diária pelas áreas verdes do condomínio em que eu moro, tenho encontrado vestígios de pequenas fogueiras ali pro lado do subidão, atrás do campinho de futebol. Misturados às cinzas, há sempre objetos diversos, todos semi consumidos pelo fogo. Já encontrei de tudo, desde CDs, vasilhames de plástico, latas de cerveja, talheres, até bilhetinhos de amor… Claro que isso me intrigava, mas eu acabei me conformando com a idéia que aquilo era obra da criançada ou de algum pedreiro de obra, que acende um fogo para esquentar sua marmita.

A cada vez que eu topo com esses restos não consumidos, recolho tudo e jogo na lata de lixo mais próxima. Da última vez que isso aconteceu, eu estava ao lado da lixeira e um vizinho apareceu para falar comigo, na verdade para fazer comentários e reclamações, já que ele sabe que eu faço parte da diretoria do condomínio. Primeiro ele desfiou suas lamentações sobre a qualidade dos prestadores de serviços de jardinagem e, depois, levantou suspeitas sobre tráfico de drogas na nossa comunidade, sugerindo que o crack desbancou a maconha e já está entre nós. Como ele mora bem em frente ao campinho, está ligado na movimentação toda naqueles lados, e disse que tem visto gente no subidão, altas horas da madrugada, se reunindo justamente onde tenho encontrado os vestígios de fogo.

À partir desse depoimento do vizinho, eu fiquei preocupado e quis me certificar de que não era alguma coisa da imaginação dele. O medo muitas vezes estimula a imaginação das pessoas. De modo que perguntei a ele se tinha certeza do que afirmava, porque a ser verdade nós tínhamos que tomar providências urgentes. Ele me garantiu que sim, que conhece o cheiro de maconha, que o cheiro da fumaça que ele sentia de madrugada era de outra coisa, e que eles até acendiam uma fogueirinha, necessária para o consumo do crack. Nessa hora eu comecei a achar que a história dele fazia sentido e prometi investigar.

Tão logo voltei para casa, comentei com o pessoal da diretoria sobre as suspeitas do morador e eles me autorizaram a armar um esquema com a empresa de segurança. Combinamos uma tocaia no mato, à partir da meia noite na próxima sexta-feira, que segundo o vizinho era o dia que a turma de crackeiros subia o morro. Quando foi lá pelas 3h da manhã, escutamos vozes e vimos um bando de gente subindo o morro, mas como estava escuro e nessa área não há iluminação, não dava para ver quem era. Eles chegaram murmurando baixinho, impossível entender o que diziam. Só quando acenderam o fogo é que a chama iluminou-lhes o rosto e pudemos ver a cara das pessoas. Tomei um grande susto ao ver que eram todos adultos e que havia mulheres dentre aquela meia dúzia de pessoas reunidas em volta do fogo. Mais assustado ainda eu fiquei quando reconheci a Dona Marica, minha fornecedora de mudas de bananeira e sementes de abóbora, e que mora a duas casas da minha.

Ainda sem saber que atitude tomar, ficamos observando aquele povo se ajoelhar e jogar objetos no fogo, enquanto pronunciavam palavras num tom de voz que me lembrou orações. Em seguida ficou evidente que estavam rezando, podia-se entender claramente o nome de Jesus ser invocado várias vezes. Nós tres atocaiados nos entreolhamos, mais relaxados agora que era claro que se tratava de um ritual religioso, e resolvemos que era hora de sair do esconderijo. Como se estivéssemos caminhando pela trilha, nos aproximamos do grupo, que naturalmente ficou espantado de nos ver surgir pelo lado da mata àquela hora.

Dona Marica logo me reconheceu, e acalmou as outras pessoas, que eu não sabia quem eram. Nos cumprimentamos e eu, com o máximo de diplomacia que fui capaz, perguntei a ela o que eles estavam fazendo ali àquela hora da noite. A resposta que ela me deu se antecipou a todas as perguntas que eu tinha na cabeça.

__O que a gente veio fazer aqui é a Oração do Monte, que é um rito da nossa igreja evangélica. E o senhor pode ficar tranquilo que não vamos botar fogo no mato, veja que a gente usa essa forma de bolo pra proteger o mato e não ter perigo de alastrar o fogo. Essas coisas que a gente queima são objetos que representam as pessoas para quem estamos orando.  Inclusive a gente faz sempre uma oração para proteger o condomínio e as pessoas da diretoria, para que não haja discórdia e que vocês possam decidir em harmonia pelo destino da nossa comunidade. Vocês não querem participar da oração?

__Muito obrigado, dona Marica, fica pra outra vez que hoje já está muito tarde.

E descemos o morro os tres, nos segurando pra não dar risada…

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