Cordeirinho

Aurélio saiu para o trabalho naquela manhã ensolarada, pilotando seu Cherry QQ cor-de-laranja. Nada poderia estragar o seu dia, ele se sentia o dono do mundo, feliz da vida, ontem havia pago a última prestação de sua casa. Podia dizer com orgulho para os vizinhos que agora ele passara a ser um proprietário! Um vencedor! Começou de baixo, como aprendiz, agora era chefe de seção.

Tinha um bom emprego na montadora chinesa e as crianças estavam estudando em uma escola particular. Mercedes, sua esposa, apesar de trabalhar como secretária numa clínica, ainda tinha tempo de administrar a casa e não deixava faltar a cerveja que ele religiosamente tomava no fim de tarde em frente à TV, quando retornava ao lar. Que mais ele poderia querer da vida? Ah, sim o futebol no sábado de manhã, claro, essa era a cereja do bolo dele…

Aurélio resolveu pegar a via expressa de seis pistas, novinha em folha, o caminho era bem mais longo, mas preferiu evitar o centro congestionado e se sentir no primeiro mundo naquele dia especial. Foi olhando os edifícios do bairro novo, construidos onde antes havia os casarões antigos da cidade, do tempo dos escravos. Sentiu orgulho de ver o progresso se impondo a passos largos, dando uma cara bonita de primeiro mundo àquela provinciana cidade, que um dia fora apenas apenas um pouso de tropeiros no Vale do Paraíba.

Terminada a dívida com a casa, ele sonhava agora com a compra de um apto na região de expansão da cidade, onde o pasto e a floresta vão cedendo lugar ao concreto. Para investimento, um aluguel que se somaria à aposentadoria, nada muito luxuoso, que ele não tinha o nariz empinado como muitos amigos da fábrica. Ou quem sabe ele não comprava o anel de brilhantes que dona Mercedes andava namorando na joalheria do shopping? Ou ainda um título no clube de campo, que as crianças queriam tanto frequentar?

Ainda não havia decidido o que fazer com a sobra do salário. Mas uma coisa era certa, precisava comemorar. Ia pegar as crianças e dona Mercedes e comer até se esbaldarem no New York Ribs ou no Outback, desta vez ele não ia economizar nem se controlar na bebida.

Ajeitou-se no banco do carro, Aurélio é um homem de tamanho avantajado, precisa mudar de posição várias vezes durante o trajeto, para evitar uma cãibra desagradável ao volante. De uns tempos para cá, uma dorzinha nas costas tem incomodado nosso feliz metalúrgico e ele tem tomado uma dose à mais do analgésico. Felizmente o plano de saúde da fábrica é muito bom, se a coisa piorar ele tem onde recorrer. Doença é a ultima coisa que ele quer pensar neste momento de júbilo.

No acostamento da via expressa, reparou que havia viaturas policiais, no que lhe pareceu ser uma batida, dessas que param alguns carros aleatoriamente. Sentiu-se seguro, apoiava a ação repressiva como medida de educação. Um guarda fez sinal para que ele parasse. “Caramba, justo eu que ando sempre com tudo em cima? Se esse cara não for com a minha cara vou chegar atrasado!”

Mas na verdade estavam parando todos os carros e pedindo que voltassem. Havia grande confusão, um desvio havia sido feito por cima do canteiro central e todos instruídos que voltassem atrás, que encontrassem outro caminho para seus destinos. À frente havia uma barricada de pneus em chamas, impossível de passar. “O que está havendo aí, seu guarda?”. “O pessoal do Cordeirinho tá fazendo protesto e bloqueou a pista, ninguém passa, tem que retornar por ali, faça o favor!”.

Aurélio indignou-se, o pessoal do Cordeirinho tinha que estragar seu dia! “Esses nordestinos não tem mais o que fazer? Vem para cá, pegam nossos empregos, ocupam uma terra que não é deles e ainda mexem com o meu direito de ir e vir? Ora essa, estão protestando de barriga cheia!”

Um gosto amargo de fel subiu do estômago, sentiu a raiva tomando conta de suas ações, esqueceu-se da felicidade de apenas alguns minutos atrás. A náusea foi tão grande que ele teve que parar o carro e vomitar no acostamento o sanduíche de mortadela com coca cola que tomara no café da manhã.

Enquanto estava parado, se recuperando do revés, um homem bateu no vidro e pediu carona pra cidade, comentou que não havia ônibus. Ele olhou bem, mediu de alto a baixo o sujeito, imaginou o pior cenário e recusou com um meneio da cabeça. “Vai que o cara é um assaltante, hoje em dia quem é que sabe? Meus filhos não merecem ficar órfãos.”

Na fábrica, o comentário geral era o clima de guerra no Cordeirinho, aquilo o irritou novamente. Proibiu seu pessoal de conversar durante o serviço, ameaçou punir quem o desobedecesse e não se mantivesse calado fazendo seu serviço.

No almoço nem foi para o refeitório, ficou em sua sala, estava sem fome e não estava disposto a escutar falatório, sua cabeça doía. O resto da tarde ele passou sorumbático, não conseguia digerir o clima de insegurança que pairava no ar. Na volta para casa foi escutando na rádio local, as ultimas notícias sobre o Cordeirinho.

“População, armada de paus e varas de bambu afiadas, resiste à reintegração de posse comandada pela polícia!” – gritava o locutor.

Teve medo. “E se esse pessoal resolve invadir a cidade fazendo arruaça? Eles não tem nada a perder… Será que polícia ia dar conta deles?” 

A chegada ao porto seguro, sua casa, aliviou um pouco a tensão que sentia desde a manhã, mas tomou um susto a ver a casa em desordem, os jogos das crianças espalhados na sala, os pratos sujos na cozinha, do mesmo jeito que estava quando ele saíra. “O que houve, Mercedes? Que bagunça é essa aqui em casa?”

“Pois não sabe o que está havendo no Cordeirinho? O bairro está em pé de guerra. A pobrezinha da Deusodete mora lá e não pode vir trabalhar, não tinha ônibus, Aurélio”.

“Mas ela poderia ter vindo à pé, ou de taxi, ou de carona, não podia? Mas que inferno, onde é que vamos parar?”  – Aurélio sentiu novamente o gosto de amargo na boca…

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2 Respostas to “Cordeirinho”

  1. edna Says:

    Muito boa! O pior é que não é ficção…Quanta gente pensa exatamente assim…Nascidos pra ver o próprio umbigo!
    Bj Chico

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