Piracema

Era uma vez um peixe que andava meio triste, entediado de se deixar levar ao sabor da correnteza, que insistia em leva-lo para águas cada vez mais sujas e mal cheirosas, o Reino das Águas Turvas. Um dia, nosso amigo peixe bateu a cabeça numa enorme pedra preta, ficou todo zonzo e perdeu o caminho de volta para sua loca. Desorientado e sem saber o que fazer, resolveu pedir ajuda a um cardume de jovens guarús, que passava por ali naquela hora.

Os guarús nem se deram o trabalho de parar, simplesmente acenaram com as guelras, fazendo sinal para que o nosso amigo os seguisse. E foi o que ele fez, atrás dos guarús ele foi, como se tivesse sido encantado. Era difícil acompanhar o ritmo dos guaruzinhos, que nadavam ligeiros contra a correnteza. Ele já estava começando a ficar cansado, quando reparou que as águas estavam ficando mais transparentes. Foi então que uma energia desconhecida invadiu seu corpo e o cansaço foi sumindo. Reparou que mais e mais peixes juntavam-se ao bando e que tomaram um afluente em que as aguas eram ainda mais puras e cristalinas.

Deixou-se levar pelo turbilhão em que fora envolvido, ele agora não pensava em mais nada, queira nadar rio acima, atraído por uma força até então desconhecida para ele. No seu intento de subir, chegava mesmo a saltar fora d’água, coisa que nunca se imaginara capaz de fazer. Quanto mais longe ele subia, mais força ele ganhava, mais prazer ele tinha. Esqueceu que estava procurando o caminho de volta para sua loca, esqueceu-se do cansaço, esqueceu-se de tudo, ele só queria subir, subir, subir…

Quanto mais ele subia, mais encantado ele ficava, ao reconhecer lugares que ele nunca tinha visto, mas que produziam em seu coraçãozinho de peixe, uma estranha familiaridade. O ponto alto, de altura e de extase, aconteceu quando ele chegou a um remanso tranquilo e foi tomado por uma vontade parecida com a vontade de fazer xixi, só que dez vezes melhor. Nessa hora ele se sentiu do tamanho do universo inteiro e esqueceu-se de quem ele era, para onde ia e o que estava fazendo ali…

Neste lugar maravilhoso, de águas puras e cristalinas, nosso amigo peixe reencontrou o prazer de viver e resolveu construir seu reino encantado.  Arregimentou peixinhos e peixões e criou um exército do bem, que ao invés de servir para proteger o local, luta para que ele seja invadido constantemente por mais e mais foragidos do Reino das Águas Turvas.

Vinte anos se passaram desde a criação deste reino.  Hoje, contrariando todos os meus hábitos de permanecer os domingos em casa com a família, resolvi seguir um bando de guarus que me acenaram com suas guelras, e fui parar sabem onde? Sim, no reino encantado do nosso amigo peixe!

Este peixe tem nome, chama-se Elder, assumiu forma humana e hoje atrai todos aqueles que um por este ou aquele motivo, resolveram nadar contra a correnteza. Cansado de sua vida de bancário, largou a profissão e fixou-se na zona de periferia semi-rural de São José dos Campos, onde constituiu o Espaço Piracema, dedicando-se a despertar a poesia e alegria de viver em quantos se aproximam deste lugar encantado.

Nadando contra a correnteza da mesmice, e utilizando-se de materiais que estão à sua volta, tais como bambu, farinha de trigo, jornal velho e tudo quanto a cidade despreza, ele e seu irmão Eden, mantém hoje uma oficina de confecção de pereirões (bonecos gigantes), envolvendo uma ampla rede de crianças e voluntários dedicados. Todo tipo de gente é atraída e bem vinda, desde o pessoal mais simples da comunidade, até pedagogos que se empolgaram com a idéia.

A idéia de trabalhar com esses bonecos nasceu da lembrança dos carnavais que passou em Redenção da Serra, terra de seus avós, quando o menino Elder se assustava com as figuras dos gigantes Maria Angú e João Paulino. Viu na confecção destes bonecos a oportunidade de dar uma ocupação à criançada de rua e recriar uma fantasia de sua infância.

O nome Piracema é uma alusão ao retorno às origens, às fontes puras da nossa tradição, que hoje estão tão contaminadas pelas modernices enlatadas e massificantes. Piracema, pra quem não conhece o nome, é uma palavra de origem Tupi, que se decompõe em,  pira (peixe) e sema (sair). Segundo o dicionário, piracema designa um conhecido fenômeno da natureza, quando os peixes migram no sentido das nascentes dos rios, com fins de reprodução. Por extensão, designa também um movimento e o rumorejo dos cardumes quando sobem as correntezas.

O fenômeno da piracema, apesar de muito estudado, ainda é um enigma para os cientistas, no que diz respeito a suas razões maiores. Por motivos que só a natureza sabe, os peixes são movidos por incontida pulsão de voltar ao lugar onde nasceram, para nele projetar o futuro através da desova. Portanto, a imagem de um mergulho na tradição para, a partir dela, instalar a vanguarda, é a linha mestra do Espaço Piracema em São José dos Campos.

Eu fui parar neste lugar como pesquisador e curioso que sou, de todas as manifestações culturais espontâneas, essas que vem diretamente das entranhas do inconsciente. Quero voltar outras vezes, pois o que vi no Piracema é a vida pulsando em toda sua pujança. Assim, tive o cuidado de perguntar ao Elder se nossa presença não ia atrapalhar quando eles estivessem trabalhando e a resposta que ele me deu foi o fecho de ouro da visita de hoje.

__Chico, mas claro que não, vocês quando vierem vão fazer o boneco de vocês também. Vocês vão ser batizados, vão virar Piracema também…

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2 Respostas to “Piracema”

  1. edna Says:

    Que trabalho legal esse que estão fazendo…Muito interessante isso de juntar as pessoas em torno de um objetivo com ajuda da criatividade e arte!
    Seu texto ta muuito bom Chico…O trabalho do pessoal te inspirou positivamento! bj

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