A Profecia Cigana

Até nos domingos já não está fácil encontrar lugar pra estacionar no centro de São José dos Campos. Finalmente, depois de rodar uns 15 minutos, minha amiga e eu encontramos uma vaga não muito distante do nosso destino. Nossa missão era entrevistar um carnavalesco tradicional da cidade, que morava por ali. Carro parado, nós dois já na calçada, a amiga comenta que a rua onde estamos é muito agradável, não tem prédios de apartamentos, ainda é cheia de casinhas antigas com grades baixas e jardins bem cuidados. Caminhamos os metros que nos separavam do endereço do nosso entrevistado e paramos em frente ao numero 157 daquela rua.

Gelei. Eu já estivera naquela casa há uns 5 anos e não guardava boas lembranças da experiência. Tinha sido arrastado por uma amiga, a Sandra, que me dissera haver encontrado uma cigana espetacular, que iria me dar a solução para um problema que eu vivia na época. Sandra é uma intelectual, com diploma da Sorbonne, eu sempre botei a maior fé nela e em tudo que ela faz, mas dessa vez o tiro passou longe do alvo. Ela já havia feito uma consulta com a vidente, ficou muito bem impressionada e resolveu me presentear com a indicação.

Me lembro muito bem de nós dois adentrando aquela casa, que de fora parecia absolutamente normal. Logo na sala já senti uma estranheza, aquela não era uma casa normal. Demos de cara com dois indivíduos mal encarados, sentados num sofá, que era a unica peça da sala. Minha imaginação já os rotulou como guardas costas da cigana. Um dos homens nos indicou com um gesto, que passássemos ao comodo contíguo, uma cozinha onde havia grande movimentação de mulheres de todas as idades, a hora era próxima do almoço. Da cozinha nos indicaram um corredor, ao fim do qual havia uma porta fechada, era lá que nos esperava a tal cigana que iria resolver meu problema.

Batemos à porta, ela gritou que entrássemos. Era um quarto pequeno, medindo uns 3 por 2m, chão de taco e paredes nuas, a não ser por uma imagem num pedestal na parede, de uma santa que não pude reconhecer quem era. Sentada numa mesa de escritório, de costas para a única janela do comodo, as mãos sobre seu instrumento de trabalho, vestida a caráter para a ocasião, encontrava-se Dona Cida.

A primeira coisa que eu reparo numa pessoa que acabo de conhecer, são olhos e os olhos de dona Cida me revelaram que ela era uma pessoa muito observadora. Aqueles olhinhos oblíquos e ligeiros, me mediram de alto a baixo e de fora pra dentro. Ela que é profissional, deve ter reparado que fiz a mesma coisa com sua pessoa, com a diferença eu eu não pude olhar a parte de baixo dela, já que estava sentada. Mas o importante para mim eram os olhos, o espelho da alma. Com a cabeça, indicou que sentássemos e parecia já saber que eu era a pessoa que tinha ido fazer a consulta, pois foi a mim que ela deu o baralho para cortar. Por um momento achei que ela era mesmo boa e que poderia me apontar alguma saída do labirinto em que me encontrava. Mas esta impressão não durou muito.

Mal ela abriu a boca, caíram por terra minhas esperanças. A mulher tirava uma carta de cada vez e desandava a interpretar, sempre com os olhos colados em mim e nas minhas reações. Quando eu me fechava, ela discretamente murchava e mudava a linha de raciocínio ou tirava outra carta. Era tão nitido o mecanismo que eu me incomodei. Será que ela não se dava conta que eu estava percebendo a manipulação?

A Sandra estava caladinha, eu nem olhava para ela, mas minha raiva já estava começando a subir pelo estômago, por ela haver me colocado nesta sinuca de bico.

Quando ela falou de uma viagem longa, meus olhos brilharam, eu adoro viajar e aí ela soltou a corda. Mas quando ela falou de alguém que tinha muito ciúme de mim, que esse alguém estava travando minha vida e que ela podia fazer um trabalho infalível para acabar com a pessoa, eu não tive nenhuma duvida que aquilo era marmelada e das boas! Nesta hora, sentindo-me superior, resolvi dar corda, coloquei a cara mais ingênua do meu repertório e perguntei:

__Puxa vida, e como é este trabalho, dona Cida?

Liberada pelo meu aparente interesse, ela extrapolou. Me falou das ervas que eu tinha que comprar e preparar em vários banhos de banheira, me disse quantas ave-marias que eu tinha que rezar e o melhor de tudo, que isso ia custar a bagatela de um salário mínimo. Quando ela falou o valor, levei um choque, não esperava que fosse tão alto assim. Claro que ela percebeu minha reação, pois logo em seguida falou que poderia reduzir o preço ou parcelar, se fosse preciso. Achei aquilo o cúmulo e disse que ia pensar, que voltaria outro dia se resolvesse fazer o trabalho. Ela não gostou e desandou a falar que eu estava numa situação muito perigosa e que se eu não fizesse, minha vida corria perigo.

Aquilo foi o bastante para eu decidir que era hora de cair fora. Dona Cida olhou para Sandra, como se pedindo uma aliada para não perder o freguês, mas Sandra me conhecia, sabia que eu não ia voltar atrás. A cigana foi mais rápida que eu e chegou antes à porta e quando forcei a passagem, ela pegou em minhas mãos e olhou bem dentro dos meus olhos e tentou a ultima cartada.

__Meu filho, você não sabe o que está fazendo, a gente só tem uma vida, não se pode brincar com ela.

Senti asco daquelas mãos mas disfarcei o quanto pude. Preferi acatar o que ela me dizia, sem demonstrar minha raiva e indignação, pois achei que isso não seria o mais inteligente naquela situação. No entanto, minha lingua não se conteve e com um sorriso doce eu disse:

__A senhora tem razão, vida a gente só tem uma e é bom estar sempre atento para não cairmos em armadilhas.

Não sei o o que ela entendeu, mas de má vontade me deu passagem, isso depois que eu coloquei em suas mãos o valor acordado pela consulta. Contudo eu ainda não estava a salvo, tinha ainda que passar pelos sujeitos na sala. Não sei se foi minha imaginação, mas a cara deles, que já não era de muitos amigos, estava pior ainda e para meu desespero, a porta da rua estava trancada. Senti a pressão no ambiente. Um deles gritou para dona Cida, se estava tudo bem, se ele podia deixar a gente sair. Deduzi que havia um código entre eles, algum sinal que não havia sido dado. De longe, escutamos a voz de dona Cida.

__Pode abrir, Sansão, eles vão mas eles voltam…

Saímos dali o mais depressa possível e senti um grande alívio quando ganhei a rua. Não sei se foi paranóia, mas tive a nítida sensação de que havíamos escapado por um triz de uma situação muito perigosa.

Passados cinco anos, já me esquecera do episódio e lá estava eu, diante do  numero 157, prestes a tocar a campainha daquela fatídica casa, prestes a realizar a profecia de dona Cida, de que eu iria voltar… Nervoso, pensei, será que o endereço estava certo? Conferi com minha amiga, não havia duvida, era o 157 mesmo. Eu já não tinha mais a barba e os cabelos compridos daquela época, isso me deu um certo alívio, mas não evitou que um suor frio ensopasse minha roupa. Minha amiga tocou a campainha e não demorou, uma senhora muito simpática abriu a porta. Nos apresentamos e ela respondeu:

__Ah, podem entrar, o Sebastião me disse que vocês viriam, podem entrar!

Na soleira da porta, perguntei à senhora, há quanto tempo eles moravam naquela casa.

__Nos mudamos para cá faz um ano, a muito custo conseguimos tirar um bando de ciganos que atrasavam os aluguéis e quase me botaram a casa abaixo. Uns salafrários se o senhor quer saber, salafrários de marca maior!

Em pensamento, concordei com a senhora, mas ao transpor a soleira daquela porta, fui obrigado a concordar com dona Cida também…

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