Abelhas

Semana passada, passeando pelo centro da cidade, encontrei com uma amiga que estava acompanhada por um senhor. Conversa vai, conversa vem, acabei reconhecendo o senhor que estava com minha amiga; era o Nelsinho, um deficiente mental que participou de uma história engraçada, dos tempos que eu estava começando a trabalhar com abelhas. O episódio se deu há uns 30 anos, quando eu ainda era jovem e inconsequente.

Nós morávamos todos em São José dos Campos, nenhum de nós era da roça, e nossas abelhas ficavam em Monteiro Lobato, num terreno que a gente arrendava de um cara que fazia um tráfico de maconha lascado; mas isso a gente só descobriu muito depois. Éramos 4 sócios, o Carlos, a Lúcia, o Clodoaldo e eu. O Nelsinho era irmão do Clodoaldo e tinha que ir sempre com a gente, porque não podia ficar sozinho em casa, devido ao seu problema mental. Íamos em dois carros, um Fusca e um Corcel, lotados de equipamentos apícolas, tudo no esquema para fazer a colheita do mel.

Lá chegando, acendíamos o fumigador, preparávamos os favos vazios nas caixas e vestíamos as roupas especiais, sem as quais nenhum cristão poderia lidar com a fúria das abelhas africanizadas. Pra quem não sabe, nos idos dos anos 1950, as mansas abelhas européias, quando foram acidentalmente cruzadas com as africanas, produziram uma raça muito agressiva, que andou matando muito bicho e muita gente, acostumados que eram à docilidade das européias. Com estas podia-se trabalhar sem proteção mas com as africanizadas, jamais!

Claro que o Nelsinho não ia até as abelhas com a gente, ficava fechado no carro, a uns 30 metros das colméias, com a recomendação expressa de não sair de onde estava. O Clodoaldo, olhando bem dentro dos olhos do irmão, fazia ele repetir que as abelhas eram muito perigosas e que não era pra ele abrir a porta do carro de jeito nenhum.

__Nelsinho não pode abrir a porta do carro, é perigoso, a abelha vai te ferroar! Entendeu? Então repete pra mim.

__Nelsinho não pode abrir a porta do carro é perigoso a abelha ferroar…

Os inocentes, parece que têm uma proteção especial, o Nelsinho nunca sofreu uma picada de abelha, nem quero pensar o que teria acontecido no caso de um acidente. Hoje, eu jamais arriscaria a vida de uma pessoa da maneira como fazíamos com o Nelsinho, mas naqueles tempos a morte era um idéia ainda muito abstrata nas nossas cabeças.

A colheita do mel durava mais ou menos uma hora e era preciso jogar muita fumaça para acalmar as bichinhas, que heroicamente tentavam defender o mel que estava sendo saqueado. Porque era isso mesmo que fazíamos, um roubo do precioso líquido que elas zelosamente armazenavam nos alvéolos, precavendo-se para os tempos de crise. Terminada a limpa, tínhamos que nos livrar das abelhas, para não entrarmos nos carros com os insetos, mas uma ou outra sempre acabava escapando da nossa vista. No entanto, das caixas de mel era impossível tirar todas as abelhas, até porque, na bagunça, elas melecavam as asas e não podiam mais voar. Por causa disso, acondicionávamos as caixas com mel no capô do Fusca e no bagageiro do Corcel e fechávamos bem fechado; só iríamos abrir de novo em casa, quando as abelhas estivessem mais calmas.

O trabalho com as abelhas era pesado e a gente suava muito dentro do macacão. Terminada a colheita, tudo que a gente queria era uma bebida gelada e um salgadinho, necessidade que satisfazíamos no bar da praça principal de Monteiro Lobato. Na cidade, descíamos do carro vestindo os macacões sujos e fedidos de fumaça, a aparência era a última coisa que nos importava e decerto provocávamos um impacto na vida da pacata cidade. O povo nos enchia de perguntas, queria saber de abelha dava muito dinheiro, se a gente podia ensinar apicultura racional, a conversa sempre tendendo para o lado profissional.

Um certo dia, um sujeito veio com uma conversa diferente, quis olhar o mel, disse que não acreditava que a gente colhia tanto quanto dizia que colhia. A gente falou que não dava pra ele ver, que o mel ainda estava com muita abelha brava, que era perigoso abrir ali na cidade, que ele fosse até onde centrifugávamos o mel, para conferir o que dizíamos. O cara parecia aqueles bêbados que ficam repetindo a mesma coisa, ficou bravo com a gente e só faltou nos xingar. Ficou enchendo o saco até entrarmos no carro.

Na única saída da cidade, havia uma rua estreita, na verdade era a própria estrada passando dentro da cidade. Pois bem, no fim dessa rua, avistamos uma multidão, um carro de polícia com a luzes piscando e uma meia dúzia de policiais fechando a rua. Decerto é algum acidente, pensamos, mas não tinha como desviar, aquele era o único caminho pra sair da cidade. À medida que nos aproximávamos, a situação foi se configurando bem diferente do que imaginávamos. O bloqueio era para nós, os guardas cercaram os dois carros, armas em punho e gritando alto:

__Todo mundo pra fora, as mãos na cabeça, qualquer movimento diferente a gente atira!

Aquilo foi um baita susto para nosso pacato grupo de apicultores amadores. Ninguém ali era do mal, não passávamos de um bando de hippies sonhadores, voltando para casa com o seu butim melado, de modo que saímos os 5 de mãos pra cima, sem pronunciar uma palavra.

__O que vocês estão levando aí no carro? Pra que essas roupas que vocês estão vestindo.

Eu respondi com o máximo de tranquilidade que o meu coração saindo pela boca permitiu…

__É mel, seu guarda e essas roupas são para proteção contra ferroada das abelhas.

Ali em volta devia ter uma pequena multidão, umas 50 pessoas acompanhando o espetáculo, como se fosse o último capítulo de uma novela da TV. Os guardas entraram nos carros e revistaram tudo, procurando não sei o que. Aparentemente não acharam nada e o guarda que havia feito falado antes, com pinta de machão, retrucou incrédulo:

__Que mel que nada, abre aí pra gente ver o que tem dentro dos bagageiros dos carros!

Nessa hora foi o Clodoaldo que respondeu:

__Seu guarda, não pode abrir o bagageiro que a abelha tá brava, é perigoso, ela vai ferroar! – e imediatamente o Nelsinho, escutando o irmão todo nervoso falar, emendou em voz alta, pra todo mundo ouvir:

__Não pode abrir o bagageiro que a abelha tá brava é perigoso vai ferroar!

O guarda ficou impaciente, entrou no Fusca, destravou a maçaneta e levantou o capô do carro. Ah, pra quê ele fez aquilo!?! Não deu um segundo e uma valente abelha saiu do mel e sentou o ferrão dentro do nariz do enxerido policial, que imediatamente perdeu a compostura e passou a se debater no asfalto, como um animal acuado. Formou-se um branco na frente do Fusca, todo mundo afastou de medo das abelhas. Compadecido do incauto polícia, corri para socorre-lo e sem pensar, meti a mão na narina do homem, pois se o ferrão não fosse retirado, continuaria a injetar o dolorido veneno. Ele não ofereceu resistência, tamanha a dor que devia estar sentindo. Depois de tirar o ferrão, esfreguei o local da ferroada com um pedaço de cebola, que eu carregava no bolso, ela funciona como um atenuante da dor.

A cena era patética; o policial sentado no chão, eu ajoelhado ao lado dele, esfregando a cebola. Aliviado da dor, ele me olhou como se fosse um feiticeiro que praticou sua magia. Nessa hora, decerto repetindo o que o Clodoaldo disse baixinho, o Nelsinho falou pra todo mundo ouvir:

__Bem feito eu disse pra não abrir o bagageiro que a abelha estava brava…

E o que se ouviu foram as gargalhadas e o aplauso do povo que admirava a cena. Anos mais tarde, quando eu me mudei para Monteiro Lobato, acabei ficando amigo desse policial e ele me contou que a operação havia sido montada para flagrar o tráfico de maconha que eles sabiam que estava acontecendo no sitio em que ficavam nossas abelhas. Sorte que eles estavam procurando coisa grande, porque se tivessem procurado nos bolsos do Nelsinho eles iam encontrar os baseados que a gente tinha enrolado, prontinhos pra fumar. O Nelsinho era o nosso esconderijo mais seguro, no caso de sermos parados uma batida policial…

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