Tudo por causa do Miojo

Depois que minha esposa descobriu o Facebook, a cozinha tornou-se um território acessível também aos outros membros da família – antes do Facebook, ela comandava sozinha o espetáculo culinário aqui em casa. O ritual diário de nos sentarmos juntos à mesa para comer, que até há pouco era sagrado, passou a ser exceção depois que ela se rendeu aos encantos da rede social…

Foi devido a essa mudança de costumes que, ontem à noite, eu acabei dividindo o fogão com meu enteado, cada um preparando seu jantar particular. Ele fazia seu macarrão instantâneo, aquele com o indefectível tempero pronto e eu a minha pasta italiana com berinjela e molho de cogumelos. Terminamos a preparação dos nossos quitutes ao mesmo tempo e quando sentamos para comer na bancada da cozinha, perguntei:

__E aí, meu, tá afim de experimentar o que eu fiz?

Ele me olhou de soslaio, pensando que eu estava de sacanagem, já que meus temperos exóticos não são sua primeira opção (nem a segunda, talvez a terceira…).

__Não, prefiro o meu miojo – ele respondeu, fazendo uma careta.

__Ficou bom “isso aí” que você preparou? – agora quem fazia careta era eu.

__Miojo não tem erro, é só seguir as instruções do pacotinho – ele respondeu, olhando nos meus olhos.

Uma obviedade dessas, dita com a maior naturalidade do mundo, deveria cair no esquecimento, mas não foi o que aconteceu; a frase ficou dando voltas na minha cabeça e eu divaguei, fui longe, enquanto saboreava meu delicioso macarrão…

“Não tem erro, é só seguir as instruções do pacotinho”

A frase era correta, eu entendia que para ele ela fazia todo sentido, mas para mim soava como algo novo e muito estranho… Seguir instruções?

Meu enteado é uma pessoa de bem com a vida e para ele, seguir instruções é o natural (cheguei a perceber em mim uma pontinha de inveja pela facilidade com que ele se enquadra nas diversas situações que a vida apresenta). Já eu, bem, eu sou mestre em inventar fórmulas mágicas e nunca leio manual de coisa alguma, não tenho um pingo de paciência com eles…  Que se trate de uma receita de bolo ou a instalação de um novo software, a resistência é enorme, eu prefiro errar mil vezes a ler o que diz o manual…

Lembro que quando eu tinha uns 9 anos, pouco mais, pouco menos, resolvi que ia fazer um pão. Depois de ter visto minha mãe fazer centenas de bolos, eu me sentia totalmente capaz de encarar o desafio de confeccionar meu primeiro pão, por que não? O resultado ficou mais parecido com uma pedra esfarelenta de cor clara, a massa não cresceu e o sabor não era nem doce nem salgado. Incomível! Mas a sensação foi muito boa, eu acabava de fazer o meu debut no mundo da cozinha e isso é que importava naquele momento!

À partir de então eu passei a me considerar uma classe especial de pessoa, eu era um cozinheiro!  Depois disso, emendei a fazer comidas e nunca mais parei, sempre na base da invenção e do improviso. Alguns anos depois, quando comecei a receber os primeiros elogios a coisa se consolidou, eu mesmo me dei o diploma de mestre e não tive mais dúvida de que eu havia nascido com o dom para cozinhar.

Mas se na cozinha foi fácil não seguir as instruções, o bicho pegou quando me recusei a seguir o “manual da vida” que me foi dado pelos meus pais. Lá pelos 12 ou 13 anos eu era assiduo freqüentador da igreja, ia sempre às missas dominicais e participava de um grupo de escoteiros. De um dia para o outro, resolvi que aquilo não me servia e chutei o pau da barraca. Claro que o espanto foi geral, afinal eu era um bom menino e houve uma grande reação por parte de meus pais e parentes, por eu ter deixado de frequentar as missas e as reuniões do grupo escoteiro. Mas, uma vez mais, a sensação de prazer e liberdade foi grande e superou qualquer repreensão por parte dos mais velhos.

Mais tarde, na época dos exames vestibulares, todos esperavam que eu fosse um engenheiro, um médico ou advogado, ou qualquer outra profissão respeitável, só que nunca me perguntaram se era isso que eu queria. Ainda tentei ver como seria isso de tirar um diploma para “ser alguém na vida”  e entrei numa faculdade, mas não consegui agüentar a vida acadêmica por muito tempo e caí fora na primeira oportunidade. Por sorte, a família possuía um pedaço de terra na zona rural e foi para lá que me mudei quando, finalmente entendi que eu não era compatível com o que esperavam de mim.

Na roça, construí uma casinha simples com uma horta e pomar ao lado, criava algumas galinhas e comecei a fazer licores e a produzir mel para comerciar, de modo que meu sustento estava garantido. Me sentindo muito bem instalado e fazendo o que eu gostava, joguei fora as ultimas esperanças e expectativas, minhas e dos que ainda acreditavam que eu iria seguir algum modelo de comportamento.

Os cabelos e barba cresceram e eu passei a ter tempo de olhar para mim mesmo de uma nova perspectiva, de dentro para fora e não de fora para dentro como vinha fazendo até então. Foram os melhores anos de minha vida, tempos de mergulhos no irresistível desconhecido, com muita aventura e descoberta. Estou convicto de que se eu tivesse vivido segundo o manual que me foi fornecido, já estaria morto ou muito doente.

Tudo isso eu pensei enquanto degustava minha pasta, que por sinal ficou deliciosa. Talvez movido pela ponta de inveja e querendo mostrar ao meu enteado que seguir as instruções nem sempre é sinônimo de sucesso, cutuquei-o com a seguinte observação:

__Já pensou que até um simples miojo pode dar errado se você seguir as instruções do pacotinho?

__Que é isso, Mano, é muito simples, não tem jeito de errar. Sé se o cara for muito burro e colocar o macarrão antes da água ferver.

__É, se colocar antes da água ferver, o macarrão vai virar uma papa, não vai ficar muito agradável de comer…

Quando eu disse isso, os olhinhos dele brilharam:

__Vai virar uma papa? Mas é desse jeito que eu gosto de macarrão, quando ele vira papa, “tá ligado“?

Por um viés inesperado, acabei dando o recado ao meu enteado e tenho certeza de que ele captou.  Ele é inteligente, apesar do seu pendor para as exatas.

Anúncios

Tags: , , , , , , , , , , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: