Assombrações e Fantasmas

Dizem alguns, que com a chegada da luz elétrica, desapareceram as assombrações e fantasmas, que antigamente assustavam as pessoas, na época da Quaresma. Já outros, dizem que foi a proliferação das igrejas evangélicas e seus exorcimos o que andou espantando os maus espíritos. Mas no Bairro do Cantagalo, um pedacinho de São Paulo enquistado no território das Minas Gerais, parece que as assombrações ainda estão muito vivas.

Cantagalo é um bairro da cidade de São Bento do Sapucaí SP, que hoje conta com umas 500 almas, mas isso nos fins-de-semana, que é quando aparecem os turistas e retornam alguns filhos da terra, gente que foi buscar trabalho mais bem remunerado nos aglomerados urbanos da região (durante a semana, o movimento cai uns 20%, no mínimo). Isolado por 11km de estrada de terra e distando 20km do centro administrativo, Cantagalo ainda mantém um romântico ar de roça, apesar de suas mais ou menos 50 e tantas casas, ajuntadas em torno da igreja de Santa Maria. Estando na praça central, em frente à igreja, para qualquer lado que se olhe, é só pedra, pasto e floresta; muitas araucárias e uma casinha aqui, outra ali, encravadas nas encostas das montanhas.

Fui parar no Cantagalo seguindo indicação de amigos, por conta das minhas pesquisas na área das manifestações populares espontâneas, desta vez focando na Quaresma e Semana Santa. Quem me indicou, garantiu que ali ainda se mantém algumas tradições rurais que a cidade tem devorado nos últimos tempos. Não me decepcionei, embora as tradições estejam muito mais na memória dos antigos, do que no dia a dia do povo. Os locais são gente muito simples, todos católicos, muito hospitaleiros e inocentes, tão diferentes do povo da cidade grande, que me pareceram saídos de um conto de fadas caboclo.

Estar no Cantagalo é como estar dentro de uma lenda viva. O próprio nome do bairro é envolto em mistério. Há diversas versões, todas, no entanto, convergindo para um mesmo galo, do qual se escuta o canto na mata, mas que ninguém nunca viu. Como se sabe, galo é uma ave de terreiro, não se esconde na mata, pelo contrário, está sempre perto da casa do homem.

Uma das versões, conta que este galo pertencia a um mascate cigano, que passou uma vez pela cidade e que tendo escapado da gaiola, teria ficado a cacarejar nas matas da redondeza. Outra versão reza que foi um padre, acompanhado de dois escravos, que ao abrir uma picada no meio da mata, teria escutado pela primeira vez o canto do misterioso galináceo, que nunca mais parou de cantar. Outra ainda, diz que um esta região era povoada por indios, que teriam passado a lenda aos primeiros brancos que apareceram, sobre um galo encantado, que só aparecia àqueles que não tivessem nenhuma maldade no coração…

O bairro é passagem do atual Caminho da Fé, um roteiro de peregrinos que tem muitas ramificações, todos eles convergindo para Aparecida do Norte. Por conta disso, abriram-se duas pousadas, que na verdade são duas casas de moradia, adaptadas para receber os passantes. Me hospedei em uma delas e na outra conheci o Rogério, um senhor cinqüentão e sua esposa Lucia, que me forneceram vasto material folclórico durante entrevista que realizei na varanda de sua casa/pousada.

Já de cara, me lascaram a história do corpo-seco, que seriam as almas daqueles que maltraram a própria mãe e teriam sido rejeitados por Deus e pelo Diabo. Repelidos pela própria terra em que foram enterrados, esses corpos perambulam pelas estradas,  grudam atrás do pescoço dos incautos e chupam o sangue até a morte, se a pessoa não tiver ajuda a tempo, para se livrar do corpo-seco. Em seguida, me falaram de um farol que aparece, de madrugada, nas desérticas estradas vicinais. Trata-se de um par de luzes, que acompanha a uma distância segura aqueles que se aventuram a viajar de madrugada. Se a pessoa parar, as luzes também param e se estão atrás, aparecem à frente e vice-versa. Não causam mal, mas assustam. Por conta dessas histórias, muita gente ainda evita sair depois do anoitecer, é sempre melhor prevenir do que remediar…

Mas Rogério e Lucia confirmam, depois do advento da luz elétrica essas histórias perderam um pouco da força que tinham antanho. No entanto, basta um apagão para que elas voltem como num passe de mágica! Nessas horas, só se fala de mulas-sem-cabeças, bois-tatáschupa-cabras!

Eu nunca acreditei nessas coisas, nascido e criado na cidade, esses personagens eu conheço apenas dos livros infantis de Monteiro Lobato, que li quase todos. Escuto com ouvidos isentos de pesquisador científico, sempre respeitando a crença alheia. Mas desta vez, nesta viagem, desde que saí para realizar esta pesquisa, fui perseguido por uma sombra que me incomodava.

No caminho até o Cantagalo, passei diante de um sítio em que morei por muito tempo e em seguida por Monteiro Lobato, uma cidadezinha que fez parte da minha vida por mais de uma década. Nos dois locais, tive a sensação de estar visitando um cemitério de memórias que eu julgava mortas e enterradas.

No Bairro do Cantagalo, tudo me parecia estranhamente familiar, embora fosse a primeira vez que botava meus pés por lá. Ao participar dos eventos da Semana Santa na pequena igreja de Santa Maria, me vi criança, muito pequeno, olhando o teatro dos adultos, sem entender nada do que acontecia. Ali naquela igreja, hipnotizado pelo som dos cânticos e rezas, a coisa se repetiu, uma sensação muito forte de irrealidade, mas com um tom vagamente familiar. O pensamento foi longe, me vi morando neste lugar, comprando uma terra por ali e fixando morada até o fim dos meus dias… Besteira, pensei comigo, minha esposa jamais iria aceitar viver nesse fim de mundo! E além disso, velho não gosta de frio, o Cantagalo está a 1200m de altitude em seu ponto mais baixo!

No penúltimo dia, estavam fazendo os preparativos para a Procissão do Senhor Morto e alguém veio me avisar, caso eu quisesse fotografar e filmar.  Estava chovendo e eu quase desisti de sair do conforto da pousada, mas acabei indo, afinal, eu tinha ido pra lá a trabalho e não podia me dar ao luxo de escolher. Se não fizesse o registro agora, outra chance só teria no ano que vem.

Ao chegar na casa paroquial, quem estava lá era a Fia, uma senhora em quem eu já havia botado reparo, tamanha a dedicação ao seu trabalho junto à igreja. Com um sorriso e uma expressão de serenidade e respeito, ela estava enfeitando o caixão com flores do campo, hortências e bom-senhores (crisântemos), ajeitando-as uma a uma, até que não sobrasse mais nenhum espaço sem flor. Depois de encher a mulher de perguntas sobre a parte prática da procissão, resolvi saber um pouco da vida dela.

__Fia, você é nascida aqui mesmo?

__Sou nascida aqui mesmo, seu Chico.

__E já morou fora alguma vez?

__Já, sim, eu passei 15 dias em Pindamonhangaba.

__E que outras cidades conhece além de Pinda, Fia?

__Ah! Eu já fui numa excursão para Aparecida e tive um dia em Taubaté também, pra ir no médico.

__E São Paulo?

__São Paulo nunca fui.

__E o mar, você também nunca foi?

__O mar não, nunca fui.

__E não tem vontade de conhecer o mar?

__Ah! De vez em quando eu tenho, mas não muito…

As respostas dela me deixaram perplexo! Uma mulher de 50 anos que nunca viu o mar, isso me pareceu tão inusitado! Sentindo-se à vontade,  agora era ela quem queria saber da minha vida:

__E você, é de São Francisco Xavier?

__Não, eu sou de São José dos Campos, por que?

__Ah, eu podia jurar que você era de São Francisco Xavier. Semana passada esteve aqui um rapaz que eu podia jurar que é seu irmão, e tão parecido com você. O nome dele é Hamilton.

__Hamilton? Um que me trabalha com turismo?

__É sim, esse mesmo, ele veio aqui com a mulher e os dois filhos ver umas terras. Mas você não é irmão dele mesmo? Vocês são tão parecidos!

Eu gelei, porque este Hamilton que ela falou, que tem dois filhos, que mora em São Francisco e que trabalha com turismo, foi o ex-marido da minha atual esposa e eu não me pareço em absolutamente nada com ele! Sou bem branco, olhos azuis e tenho o cabelo claro. Já ele é meio moreno, cara de índio e bem mais alto que eu. O que foi que esta mulher que praticamente nunca saiu do Cantagalo, viu de semelhança entre nós?

Não falei nada para ela, o povo do Cantagalo é muito moralista e religioso, fiquei com receio de ferir suscetibilidades. E além disso, eu estava ali no Cantagalo fazendo a pesquisa e dividindo o quarto da pousada com uma  mulher que não era a minha esposa; preferi não entrar em detalhes, mas tive a certeza que meu fantasma estava saindo da sombra.

Na volta para casa, fiz para minha esposa um relato completo da estada no Cantagalo. Mal terminei, ela já estava sonhando de comprarmos uma terra na região. Já marcamos uma viagem para daqui a 15 dias, ela quer ir lá conhecer. Juro que não fui tendencioso, falei de todas as mazelas, sem omitir nada…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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2 Respostas to “Assombrações e Fantasmas”

  1. doris Says:

    Chico, seus textos estão lindos !!!!!!! Bela “colheita” .

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