Luzes, cameras… ação!

Quem chega a Luminosa, vindo pela estrada do Bairro Cantagalo, é presenteado com uma vista ímpar deste povoado, distrito de Brazópolis MG. Visto de longe, o casario representa que é um presépio muito bem arrumadinho, no meio de um imenso vale cercado por altas montanhas. As casinhas todas ajuntadas, formando um anel em torno da igreja de Nossa Senhora da Candelária, me lembrou uma cidadela medieval. Em volta do anel de casas, um mosaico de tons de verde, formado por plantações de banana, eucalipto, milho e os pastos.

Luminosa é um pouso do roteiro do Caminho da Fé, um percurso de uns 500 km, que começa em Tambaú SP e termina em Aparecida do Norte, onde fica a imagem da padroeira do Brasil. Meu interesse em Luminosa não tinha nada a ver com fé, eu estava ali procurando o local que poderia vir a ser minha futura morada. Um pedacinho de uns 3 alqueires, para eu passar o resto de minha existência bem longe dessa loucura, que é a vida na cidade. É verdade que me encantei com o nome, Luminosa, que despertou fantasias de um lugarejo encantado, em que a Luz imperava sobre as Trevas. Isso durou até eu botar os meus pés na praça principal…

Antes de chegarmos ao povoado, por sugestão do Juarez, que foi nosso guia na região, demos uma parada no alambique do Guido, um aposentado, ex-funcionário da Telefônica, que resolveu produzir pinga nas terras do sogro. Fiquei encantado com o lugar, pois o que o Guido construiu, é mais ou menos o que eu pretendo para mim num futuro próximo. Além do alambique, Guido adaptou a sede da fazenda e recebe peregrinos, que tem a opção de comer no restaurante, comandado por dona Eloá, sua simpática e falante esposa.

A propriedade é grande, tem espaço sobrando para a manada de búfalos que corre solta pelos pastos. O ambiente é bem rural, não tem nada a ver com esses hotéis fazenda em que se pode circular de salto alto pelas dependências. Ali é pé no barro mesmo.

A principal atração do local são as pingas, de modo que Guido nem pergunta se queremos ou não ouvir e já começa a discorrer sobre os diversos tipos de destilação e mistura que prepara. São pelo menos uns 20 tipos diferentes de pinga que ele deixa descansando com frutas e ervas. Tem pinga com banana, jaboticaba, maracujá, café, cravo e canela, lima e cambuci. E cada uma dessas o fregues tem o direito de experimentar. Eu não tinha ido ali comprar pinga, mas depois das histórias e da degustação, não dá para não comprar nada. Acabei levando uma garrafa de pinga com cambuci, que é uma fruta silvestre muito azeda, com um perfume delicioso, que parece um disco voador, segundo alguns e uma empada, segundo outros. É pratimente desconhecida da gente da cidade. Quando se fala em cambuci, as pessoas associam à pimenta, não à fruta.

Depois das pingas, assuntamos um pouco sobre terras à venda e já íamos embora, quando eu vi um pé que suspeitei que fosse de ora-pro-nobis, uma trepadeira espinhuda, cujas folhas são altamente proteicas. Como faz tempo que eu procuro uma muda dessa planta, pedi um galhinho, depois de confirmar com dona Eloá, que era mesmo a tal ora-pro-nobis. Dona Eloá é uma figura, apesar de ter morado em São Paulo, é nascida ali mesmo e tem grande conhecimento de tudo que é coisa de roça. Nossa conversa engatou e fomos longe, falando de matos que se usa comer. Bredo, taioba, serralha, bertalha e mais um tanto de folhagem que o pessoal joga fora e não dá a mínima bola, tipo folha de mandioca, batata doce, etc…

Dona Eloá, vendo meu interesse pelas plantas e sabendo que íamos a Luminosa, me preveniu que eu ia ficar muito chateado quando chegasse no povoado.

__Mas por que, dona Eloá? Eu estou gostando tanto daqui, foi amor à primeira vista, desde lá em cima do morro, quando vinhamos descendo. Isso aqui é um beleza, parece um pedacinho do paraíso na Terra…

__Ah é! Mas isso é porque você ainda não chegou na pracinha e não viu as árvores que quase morreram, sufocadas de tanta fumaça de maconha.

__Como assim? Que história esquisita é essa?

Dona Eloá deu uma risada gostosa e emendou:

__Elas foram condenadas, ficaram doentes de tanta maconha que respiraram e tiveram que sofrer uma amputação… Vá ver com seus próprios olhos, daí você vai entender o que eu estou dizendo.

Saímos dali intrigados com a história da mulher. Quem sabe foi efeito do álcool, pois durante a nossa conversa ela enxugou um copo americano cheinho de pinga! Mas logo que chegamos ao povoado, uma visão terrível nos fez pensar que talvez a história de dona Eloá não fosse assim tão descabida. O que vimos foram os tocos de umas vinte árvores grossas que havia sido cortadas e de onde rebrotavam alguns galhinhos verdes, um horror! Quem tivera a coragem de cometer tal crime e para que? Teriam as árvores ficado doentes mesmo e por segurança tiveram suas copas podadas? Mas eram árvores de diferentes espécies, não podiam todas ficar doentes de uma hora para outra! Teria sido um vendaval? Mas neste caso as casas teriam sido destruidas também. Eu não encontrava uma justificativa plausível para a cena degradante daquelas árvores despojadas de sua dignidade e reduzidas a meros troncos com desajeitadas perucas verdes. Uma cena feia de ver, tão feia e triste que eu nem quis fotografar.

Indignado e curioso para saber o que tinha acontecido, resolvi perguntar na venda da praça, um armazém de secos e molhados, desses que vendem de tudo e que não existem mais nas cidades maiores. No balcão, Dona Cleide e sua filha Bernardete, modorrentamente saboreavam uma pipoca fria, espalhada em uma assadeira de bolo e um café doce e fraco. Mal entramos e já fomos convidados a partilhar do banquete. Na roça, é desfeita não aceitar, cada um pegou um copinho de café e um punhado de pipocas. Com a fome que eu estava, até que não achei tão ruim… Nessas comunidades pequenas, logo que veem que somos de fora, é comum perguntarem o que estamos achando do lugar. Foi o que Bernardete fez e ao que respondi.

__Olha, aqui é muito bonito, mas não estou entendendo esses tocos de árvores cortadas. Me disseram que elas estavam condenadas e foram cortadas por isso, é verdade?

__Ah! As árvores da praça, é uma tristeza o que houve, mas não teve jeito. Eles tiveram que cortar para instalar as cameras de vigilância. Se não cortassem as árvores, as cameras não iam poder vigiar nada. O povo ficou revortado, muita gente não gostou, mas não tinha o que fazer.

__Mas por que vocês não se mobilizaram, não fizeram um abaixo assinado para resolver o problema de outra maneira, sem ter que cortar as árvores?

Não sei se ela não entendeu o que eu perguntei, mas a resposta que me deu foi esta:

__A gente fez um abaixo assinado, mas foi para não construir um banheiro na praça.

__Como assim, não estou entendendo?

__É que se fizessem o banheiro, os maconheiros iam se esconder lá para fazer suas safadezas, não ia adiantar as cameras…

Nessa hora, se apagaram todas as luzes da fantasia que eu fiz do povoado de Luminosa e ela mergulhou numa região de trevas escuras… Pedi ajuda a Nossa Senhora da Candelária, que mande muita luz para aquele povo.

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