Urano

Urano é o planeta do imprevisível, das mudanças súbitas, de tudo aquilo que é original e excêntrico. Minha esposa é uma aquariana, de modo que eu posso esperar qualquer coisa dela, menos um relacionamento programado e sem sobressaltos. Talvez minha vida estivesse muito morna e sem sal quando me decidi por esta mulher; não sei. O fato é que já me acostumei a não ter nenhuma expectativa sobre o dia de amanhã. Ficar ao lado dela tem sido um ótimo exercício de desapego às idéias fixas e hábitos arraigados.

Semana passada, por exemplo, nós dois tínhamos a certeza (?) de que nossas vidas de aposentados, passaríamos numa roça bem distante da cidade, cuidando de um sitiozinho orgânico na serra da Mantiqueira. Eu já tinha traçado um plano detalhado, de como seria meu regresso à natureza, num lugar com muita água e floresta. Mas acontece que no meio da semana houve mudança de planos e por sugestão de uma paciente dela, fomos visitar um terreno na periferia da cidade, numa região que eu desconhecia e que imaginava muito deteriorada. Ledo engano! O local está bem conservado e a cidade ainda não conseguiu botar seus tentáculos por ali.

Na verdade, se fosse só por mim, eu nunca teria ido, pois a região que fomos visitar é muito próxima da cidade. Mas dessa vez resolvi fazer a vontade da esposa, até para não ter que conviver com cara feia… Assim, num ensolarado sábado de manhã, que eu teria passado junto às minhas plantinhas na horta, fiz o enorme sacrifício de ir conhecer um condomínio fechado, em nome da paz e da tranquilidade no meu relacionamento.

Já no caminho, uns 8km de uma agradável e pacata estrada asfaltada, o ambiente bucólico se fazia sentir. Comecei a mudar conceito, ou melhor, o preconceito que eu tinha daquela região. Decidi vestir a fantasia de comprador interessado e que fosse o que Deus quisesse. Afinal, eu não tinha muito a perder.

O porteiro nos recebeu com um sorriso, coisa incomum em portarias de condomínios fechados e nos apresentou o corretor, sr Kazuo. O sr Kazuo é um nissei muito simpático, que, com uma paciência que só os orientais tem, nos mostrou cada lote que havia disponível para venda; o que não era pouca coisa, pois o empreendimento é relativamente novo. Imagino que na intenção de nos agradar e estando acostumado com outro tipo de cliente, seu discurso salientava vantagens que não eram exatamente as que estávamos procurando. Foi dificil faze-lo entender que queríamos um lote mais afastado, contíguo à area de preservação, grudado mesmo com a floresta. Para ele, o ideal seria um lote ao lado das benfeitorias, da pista de bocha e dos equipamentos de fitness, cercado de vizinhos e de cimento…

Sendo zona rural, eu não tinha dúvida que a água ali seria de poço artesiano ou talvez de uma nascente ali mesmo. Para desencargo de consciência, perguntei ao sr Kazuo, que prontamente me respondeu:

__Ah! Água é da Sabesp,  muito boa, com isso o senhor não precisa se preocupar.

__Como assim, sr Kazuo, da Sabesp? São 8km daqui até a cidade, eles estenderam tubulação até aqui?

__Não, a água é de poço artesiano, mas o senhor não se preocupe que é tratada  e esterelizada pela Sabesp aqui no condomínio mesmo, não sobra nenhum microorganismo vivo!

O sr Kazuo falava aquilo como se fosse uma grande vantagem e eu nem me dei o trabalho de explicar que preferia água viva, de nascente, sem os venenos que a companhia de abastecimento coloca na nossa água…

Depois de mais de hora rodando no condomínio, minha esposa e eu nos entendemos e decidimos perguntar o preço de um lote que tinha conseguido a proeza de agradar nós dois.

__Sr Kazuo, aquele lote que tem o cupinzeiro, quanto…

Ele nem me deixou terminar a frase, me interrompeu, achando que eu poderia estar preocupado com um ataque de cupins…

__Sr Francisco não precisa se preocupar, esses cupins não são os mesmos que comem a madeira, pode construir no local tranquilamente, que eles não vão atacar sua casa.

Mais uma vez eu não retruquei, deixei ele continuar com ideia de que éramos clientes convencionais, assustados com a natureza. O que eu queria mesmo era saber o preço do único lote que tinha nos interessado ali. Para minha surpresa, o valor era razoável e compatível com nosso orçamento. Foi o que bastou para eu começar a mudar de ideia e considerar abrir mão do sonho de morar na roça. Um clima de encantamento tomou conta de nós, era visivel que minha esposa tinha ficado muito animada e, surpreendentemente, eu também embarcara na onda.

Ficamos de fazer uma contraproposta e na hora de ir embora, vi que havia algumas casas simples a uns 500m do condominio e perguntei quem eram os moradores. O sr Kazuo não pode esconder seu embaraço, quase ficou gago, e como deve ser uma pessoa que não sabe mentir, confessou:

__Sr Francisco, essas casas são de um assentamento de sem-terra, mas o senhor não precisa se preocupar que nosso sistema se segurança é muito bom, os muros são fortes e temos sensor no perímetro todo.

Disse isso quase que pedindo desculpas pela presença dos assentados. Mal sabia ele que, no meu modo de ver, isso não era, de modo nenhum, um ponto negativo. Eu me lembrei que esses assentados são os produtores de quem eu habitualmente compro verduras e legumes orgânicos, numa feirinha semanal, um pessoal que há tempos eu vinha ensaiando visitar.

Fiz cara de paisagem e, mais outra vez, não disse nada, ia dar trabalho explicar isso pra ele, nem acho que conseguiria tal façanha! Voltamos para casa e discutimos os prós e os contras de morar naquele local. Os prós ganharam de goleada e no mesmo dia à noite fizemos a contra-proposta, que no domingo mesmo foi aceita, quase que integralmente pela incorporadora.

No dia seguinte, uma segunda feira, eu voltei ao terreno com uma cavadeira, para cavar uns buracos aqui e eli e me certificar que o terreno era firme. Enquanto eu estava furando o solo, perdido no meio da braquiária, apareceu o Domenico, que se apresentou como o zelador do condomínio. Achei estranho, pois o sr Kazuo nem comentou que o condomínio tinha um zelador. Mas o Domenico se impôs pela simpatia e vontade de ajudar, seu discurso passou confiança. Logo percebi seu interesse pela preservação da natureza e amor pelo trabalho.

Terminados meus buracos e feita a confirmação de que o terreno era firme, Domenico me convidou para corrermos as divisas. Ele me mostrou os açudes cheios de peixes, as frutíferas que havia plantado e já estavam produzindo, me levou até uma nascente na mata, trocamos idéia sobre algumas ervas medicinais; acabamos passando bem umas tres horas explorando o condominio, indo a lugares que um morador comum nunca iria. Demos até uma escapada ao assentamento, onde travei conhecimento com o pessoal e conseguimos umas frutas frequinhas, colhidas no pé. Foi uma troca muito proveitosa.

Na hora de nos despedirmos, o Domênico, entusiasmado, disse:

__Seu Chico, na próxima gestação o senhor tem que ser o síndico aqui do condominio. O senhor é muito diferente do pessoal de poder requisitivo que eu conheço, o senhor pensa igual à gente!

Prometi a ele que ia gestar a ideia de ser síndico, conforme me foi requisitado… Daquele momento em diante me senti como se já estivesse morando naquele condominio. E tudo isso aconteceu em questão de menos de 3 dias!

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2 Respostas to “Urano”

  1. edna Says:

    Chico…Soube recentemente (semana passada) que ao abrir um poço artesiano é preciso fazer uma análise da água e repeti-la um tempo depois, pois é comum que seja contaminado no momento da abertura, não significando, necessariamente que o poço esteja contaminado…em geral são coliformes fecais, responsáveis por gastrenterites…Aconselho que refaçam a análise para averiguar se de fato o poço está contaminado de verdade, pois em caso contrário, a água poderá ser consumida sem a necessidade do uso do cloro para a descontaminação…
    Achei o arranjo muito bom…É difícil mesmo se esconder num fim de mundo quando a gente tem família! Felicidade no novo condomínio…Bj

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