Cobras

Há muitas lendas em torno das cobras, um animal sempre presente no imaginário popular. Como passei grande parte da minha infancia na roça, escutei todo tipo de histórias sobre cobras, desde as mais simples até as mais elaboradas. Por exemplo, quando eu ia tomar banho no açude, nem em sonho pensava em fazer xixi na água, pois isso poderia atrair uma cobra. Nos passeios pelos pastos, não podíamos nos esquecer de botar um dente de alho no bolso, isso era nossa garantia de que as cobras não iam chegar perto da gente. Mas a mais mirabolante de todas era a história da cobra que mama, contada em volta das fogueiras ou nas conversas que varavam a noite, ao pé do fogão de lenha. Essa lenda diz que existem cobras que mamam na mulher lactante e durante o ato, colocaria a ponta da cauda na boca do bebê para que este não chorasse. Eu, criança que era, ficava assustadíssimo ao imaginar uma cobra invadindo o quarto na calada da noite e se insinuando por debaixo dos cobertores… Muitas vezes tive pesadelos com cobras, por conta dessas histórias.

Eu acreditava em tudo aquilo, mas nunca pude comprovar e atribuia minha sorte de nunca ter cruzado com uma cobra ao alho enfiado no bolso ou ao  xixi que nunca arrisquei fazer no açude. Até a idade adulta, nunca tive a oportunidade de encontrar uma cobra solta na natureza, todas as que eu vi foram no Butantã ou no Jardim Zoológico, a uma distância bem segura. Só bem mais tarde, com 24 anos, quando fui morar na floresta, é que me deparei com cobras em seu habitat natural. Encontrei cobras na varanda de casa, dentro do guarda roupas, no jardim brigando com um lagarto, estendidas no meio da trilha, passeando majestosas no madeiramento da casa, dentro de um dos pés das minhas botas de borracha e talvez em algum outro lugar que agora já não me lembro onde foi. Encontrar cobras era corriqueiro, já que elas e eu morávamos no mesmo espaço e nunca criei galinhas, ou patos, ou gansos, tidos como animais que espantam as cobras.

Estaria mentindo se dissesse que tenho medo das cobras, tenho é muito respeito por elas, já que com uma simples mordedura podem causar um grande estrago, até mesmo a morte. Esse mesmo respeito fez com que eu nunca tenha matado nenhuma cobra e se dei cabo de uma ou outra, foi sem querer ou saber, enquanto roçava um mato, sem me aperceber da presença delas. Esse respeito talvez tenha nascido da minha primeira experiência com uma delas, que poderia ter sido traumatizante, mas que me ensinou alguma coisa sobre o comportamento dos ofídios.

No tempo em que eu morava na roça, meu banheiro de residuos sólidos, para os que não sabem, era no meio da floresta, num buraco que eu fazia ao pé de uma árvore, que assim se beneficiaria do esterco. A cada vez que era usado, eu cobria com um pouco de terra, por causa do cheiro e das moscas. Habitualmente, ainda meio sonado, lá pelas 6h da manhã, lá ia eu para o buraco me aliviar. Minha constituição física me permite ficar totalmente relaxado quando estou de cócoras, de modo que eu me instalava nesta posição, mirava o buraco, fechava os olhos e entrava num transe meditativo, deixando que a matéria continuasse seu ciclo e me sentindo totalmente integrado com a natureza.

Um dia, na época da Quaresma, tinha sido uma noite muito abafada, eu acordei mais cedo, ainda estava meio escuro e cumpri o ritual de todas as manhãs. Já aliviado, abri os olhos e já ia tirando do bolso um tanto de papel higiênico, quando vi, bem na minha frente, a menos de um metro do meu nariz, uma cobra enrolada e com a cabeça levantada. Foi como se eu tivesse dado um “pause” num vídeo, tudo ficou congelado, menos o meu pensamento. Este acelerou e me bombardeou com todas as lembranças das histórias que eu ja tinha ouvido contar sobre cobras.

A primeira coisa que eu pensei foi o seguinte: as cobras são cegas e surdas, se eu não me mexer ela não vai me ver e não vai me atacar. Mas logo em seguida me lembrei que as cobras hipnotizam suas vítimas antes de atacarem e subitamente minha teoria não tinha mais validade… Procurei pelo rabo da bicha, para saber se afinava de uma vez, o que caracterizaria minha opositora como venenosa. Mas que nada, o rabo estava escondido debaixo dela, não dava para ver. Meus olhos não desgrudavam da cobra, eu comecei a achar que estava sendo hipnotizado, queria me mexer, mas tinha medo que isso assustasse a cobra… Preferi correr o risco de ser hipnotizado e fiquei na mesma posição.

Pensei que tivesse começado a chover, mas era simplesmente o meu suor que escorria pela testa. Por causa do suor, lembrei do cheiro de urina, que atrai as cobras quando estamos nadando e isso aumentou o meu terror. A situação só se complicava, o medo contaminando o pensamento e nenhuma solução se apresentava. Eu estava sozinho, não dava pra contar com ajuda no caso de um acidente e eu a mais de 5km do vizinho mais próximo. A cobra lá, imóvel e aparentemente tranquila; eu cá imóvel e completamente apavorado. Não dava para recuar, atrás de mim se erguia um barranco, não havia espaço. Eu tinha certeza de que a cobra iria me atacar e estava me torturando, como faz um gato que sadicamente brinca com sua presa acuada. O que fazer?

No meio daquele desespero, imagens da minha infancia começaram a surgir de repente; seria o efeito da hipnose da cobra ou aquele filme que dizem que acontece na nossa mente, instantes antes de morrermos? Eu já estava quase a ponto de rezar e me reconciliar com Deus, coisa que eu abominava naquela época, quando um barulho de latidos me trouxe de volta ao presente. Era o cachorro do vizinho, que de vez em nunca aparecia lá em casa, um filhotão, desses que gostam de fazer festa por qualquer motivo. Não deu tempo nem de pensar. Quando me dei conta, o cachorro, o Duque, já estava fazendo festa com a cobra. Surpreendentemente, a cobra não o atacou e começou a se afastar, parecia até que estava brincando com o cachorro, executando os passos de uma dança. Quando achei que estava a uma distância segura, levantei-me e me afastei o mais que pude, mas com os olhos fixos nos dois bichos.

O Duque, vendo que eu caí fora, veio em minha direção fazer festa. Abracei-o com alegria, ainda meio abobado pela tensão de ainda há pouco. Ele nem se deu conta do quanto eu estava feliz com a sua chegada. Atribuí sua coragem à ignorância do perigo, se ele soubesse o risco que correu, será que  teria dançado aquele balé com a cobra? Ou será que ele sabia de alguma coisa que eu ignorava? O fato é que depois desse episódio ganhei confiança, sumiu meu medo das cobras e eu sempre soube o que fazer quando as encontrava, nunca mais fiquei paralisado. Cheguei até a pegar algumas pelo rabo e jogá-las de volta pro mato…

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2 Respostas to “Cobras”

  1. José das Couves Says:

    O Duque foi um anjo, ontem enquanto escrevia me dei conta disso. Na época eu não acreditava em nada, só no dinheiro, na comida e no sexo. O resto era tão distante…
    Grato pelo comentário. Posso copiar e postar no YuBliss?
    Bj!

  2. edna Says:

    Linda a imagem!
    Minha avó sempre tinha muitas histórias sobre cobras e assombrações…Eu adorava ouvi-la contando essas histórias mesmo que depois ficasse morrendo de medo. Uma ocasião fui colher laranjas com meu pai em um sítio…Ele gostava de te-las bem frescas! Mais atrapalhava que ajudava, ou me perdia observando as flores e os pássaros…Me lembro que o local tinha pés de carambola e um açude por perto…Ficava perambulando enquanto ele colhia…Certa vez pisei em uma cobra que se levantou na minha frente…Ela correu pra um lado e eu pro outro…Vi algumas nas cachoeiras que frequentei…Eu ainda sinto medo delas! rs
    Acho que você tem muitos anjos da guarda…Ja passou por tanta coisa e saiu ileso! Muito boa a história…Bj

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