Cabeça de Indio

Para ganhar o pacote cheio de doces, cada criança na fila tinha responder à pergunta feita pela dona Antônia, uma das organizadoras da Festa da Santa Cruz no Tataúba, zona rural de Caçapava:

__Você é devoto de quem?

Só depois da resposta é que podia apanhar o seu pacote com doces. Eram uma dez crianças e eu, que estava ali ao lado fotografando, escutei toda sorte de respostas, menos a certa. As crianças diziam que eram devotas de Deus, de Jesus, teve até uma que  disse que era devota da pipoca (uma alusão à pipoca doce feita com arroz)… Ninguém dava a resposta que dona Antonia queria, que era:

__Sou devoto da Santa Cruz.

Muito provavelmente, aquelas crianças que ficaram reinando durante toda a reza, estavam ali apenas porque não podiam ficar sozinhas em casa e tiveram que acompanhar as mães contra suas vontades. E Dona Antônia estava fazendo seu trabalho de evangelização da melhor maneira que podia.

Aquela cena, para mim constrangedora, me fez lembrar os primórdios da catequização dos índios aqui no Brasil e as origens da Festa do Cruzeiro, ou Festa da Santa Cruz, como também é conhecida.

A adoração à Santa Cruz teria começado como um artifício dos padres jesuítas, unindo o simbolo máximo do cristianismo à importância que os índios davam às danças. O que fizeram eles? Muito inteligentes, fincaram uma cruz nas praças centrais das tribos, onde os índios dançavam o seu “sarabaquê”, para a festa de adoração à Santa Cruz. Pelo que tudo indica, a estratégia deu certo e os indios até deram um nome para a Santa Cruz, adaptado de uma palavra foneticamente parecida, da língua guarani. Para eles a Santa Cruz era Santa Curuzú. 

Curioso que sou, fui ao dicionário, procurar o significado da palavra curuzú. Teria sido apenas uma aproximação fonética da língua indígena ou a palavra existia em guarani e vinha acompanhada de algum significado? Não sei, o que posso dizer é que o significado que encontrei para curuzú é excremento ou bolo fecal… Teriam os indígenas feito uma brincadeira com os jesuítas? Quem sabe? Deixo esta questão para os linguistas e folcloristas resolverem. Até porque o que inspirou este texto foi uma outra coisa, mas que eu resolvi juntar com a distribuição de doces para as crianças, quando me dei conta do paralelo deste tipo de sedução, com as quinquilharias que os europeus trouxeram para cativar os indios.

Antes da festa da Santa Cruz, fiz uma pequena estrevista com dona Cida, uma das moradoras do Tataúba, participantes da festa e que também é curiosa como eu. O marido dela é um indio de verdade, o Adão, que ela foi buscar lá no Pará e com quem vive muito bem, graças a Deus, há 35 anos. Estávamos todos à mesa, dona Cida, Adão e eu, o gravador ligado e ela falando das origens da festa, de como os jesuítas deram um jeito de transformar uma festa pagã em cristã e de como eles ameaçavam com o fogo do inferno, os indios que não se curvassem aos mandamentos da igreja. Mas não era um foguinho qualquer, que se apaga com qualquer chuva, era um fogo muito forte e que não acaba nunca, o tal do inferno, o fogo eterno.

Diz dona Cida, que pelo menos na tribo do marido dela, essa história de inferno, longe de assustar os indios, fazia grande sucesso entre os mesmos, já que eles o imaginavam como um lugar maravilhoso, onde nunca mais teriam teriam que juntar lenha para acender fogo nenhum… Acho genial essa maneira de pensar, dos antigos donos desta nossa terra brasilis

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