Seu Zizo

Seu Zizo é um homem franzino, com poucos dentes na boca, mas é dono de uma força de vontade que não se encontra com freqüência por aí não. Seu Zizo praticamente não come, só belisca, que nem passarinho, pois um cancer levou mais da metade do seu estômago. Seu Zizo esteve para morrer, chegou a pesar apenas 30kg, um saco de ossos, estava desenganado pela medicina. Mas seu Zizo não tem apenas força de vontade, seu Zizo tem também uma fé inquebrantável na sua Santa Cruz. Foi nela que ele se agarrou para não ser tragado pela morte antes da hora.

A Santa Cruz entrou na vida do seu Zizo há 7 anos, quando da morte de sua mãe, dona Cida, que era devota fervorosa da mesma. Quando ela era moça, carregou por anos uma chaga na perna, uma coisa muito feia, que medicina nenhuma conseguia curar. Ela tinha tentado erva, garrafada, benzimento, nada dava certo. Um dia, dona Cida resolveu tentar uma promessa para uma cruz, dessas que se veem na beira da estrada marcando o local onde alguém morreu num acidente.

Ajoelhou-se em frente à cruz e depositou toda fé que lhe restava na oração silenciosa que fez ao cruzeiro. Se conseguisse a graça de se curar da ferida, ela prometia construir uma capelinha e todo ano festejar a Santa Cruz. Não deu um mes e a ferida secou; mais outro mes e quem olhasse a perna não via nem cicatriz…

Dona Cida, agradecida pela graça alcançada, construiu então uma capelinha em homenagem à Santa Cruz. Na verdade, a capelinha era apenas um teto de sapé, que servia de proteção à uma cruz de madeira que ela mesma montou, com uns paus do mangueiro velho que tinha sido reformado. Para que a criação não viesse bulir com as flores que plantou em volta da sua capelinha, ela cercou o bico do terreno com cinco fios de arame farpado. Pintou os esteios de branco para fazer vista e mantinha o terreiro em volta da capelinha sempre muito bem varrido. Todo santo dia, antes de reunir o gado para tirar o leite, ela se ajoelhava em frente da cruz e agradecia a sua Santa Cruz.

Fiel à tradição, a cada mes de maio, sempre no dia 3, se não chovesse, ela enfeitava o terreiro com bandeirinhas de papel de seda e dava uma festa em homenagem à Santa Cruz. Ela mesma ia no mato, escolhia e cortava um pau de piranga bem reto, descascava, deixava secar e pintava faixas de 3 cores alternadas. Lá no alto do mastro, que seu marido se encarregava de fincar ao lado da capelinha, ela punha uma bandeira, feita de lençol velho esticado, em que ela caprichosamente pintava a imagem da cruz.

Quando dava 6h da tarde do dia 3, ela soltava uns rojões, que era pra modo de avisar o pessoal que ia começar o terço da Santa Cruz. De primeiro vinham uns gatos pingados, mas com o correr dos anos a cruz criou fama de milagreira e o que eram 10 virou em 100. Dizem as más línguas, que muitos só apareciam pelo café com bolo de fubá que era servido no final, mas o fato é que o grupo de rezadores já estava beirando os 150 quando dona Cida morreu.

Um pouco antes do seu passamento, dona Cida, já desconfiando que não ia durar muito, mandou chamar os 4 filhos. Ela queria que alguém continuasse a tradição, pois sabia da força da sua Santa Cruz e tinha dó de ir embora e ela se acabar. Pediu que um dos filhos prometesse que ia cuidar da capelinha e fazer a festa todos os anos. Os 3 mais velhos deram as desculpas mais esfarrapadas e caíram fora. Sobrou o Zizo, que além de já ter sentido a força da Santa Cruz em sua própria carne, era uma pessoa que nunca soube dizer não.

__Minha mãe, se for para ver um sorriso no seu rosto, eu aceito a incumbência de cuidar da sua igrejinha, prometo cuidar dela enquanto Deus me der forças (seu Zizo chama a capelinha de igrejinha).

Dona Cida pode morrer feliz com a promessa do filho, sabia que Zizo não ia faltar com a palavra. Quem viu a defunta no caixão enfeitado de margaridões amarelos (era mes de abril), pode perceber a expressão serena no rosto da velha. Ela partiu com a sensação do dever cumprido.

A defunta ainda estava quente quando a mulher de Zizo caiu de pau em cima dele, por causa da promessa. Ela andava de namoro com a crença evangélica e já fazia tempo que vinha pedindo ao marido que largasse o culto às imagens. A promessa foi a gota d’água, ela exigiu o divórcio e a guarda dos 2 filhos. Seu Zizo, que não gosta de ver cara feia e não sabe dizer um não, aceitou tudo calado, para não piorar a situação.

Às pressas, ele construiu um 3X4 de bloco de cimento ao lado do ranchinho da Santa Cruz, fez um banheirinho que a pessoa tem que entrar de frente e sair de costas de tão pequeno que é, e foi morar lá sozinho. Com um dinheirinho que foi entrando, construiu com tijolos, uma capela com torre para a sua Santa Cruz, que mede, no mínimo, o dobro do local que ele usa de moradia. Na torre, seu Zizo teve o capricho de deixar duas fendas em forma de cruz e quem passa à noite em frente à capelinha, de longe enxerga uma cruz iluminada por dentro.

A Santa Cruz passou a ser a vida do seu Zizo. Isso eu posso dizer por te-lo conhecido, entrevistado e participado da ultima festa, que foi agora no ultimo dia 20 de maio p.p. A festa cresceu e hoje envolve mais de duzentas pessoas. A humilde reza e o café com bolo evoluíram para um evento que mobiliza toda a comunidade.

Agora a festa não é mais no dia 3 de maio. Ela é feita sempre num domingo e pode ser mudada em função de outras festas ou para conveniência dos participantes. Começa já no sábado, quando a turma faz uma “prova do tambor”, um evento em que o peão, montado em seu cavalo, tem de contornar três tambores no menor tempo possível para ser o campeão. Algumas vezes tem até uma Dança de Moçambique pra animar, mas nesse ano o grupo que costumava vir já estava comprometido com outra festa.

Na verdade a festa começa muito antes, com a “fazeção” de doces, arrecadação de ingredientes para o grande almoço de domingo e prendas para o leilão. No domingo, quem chegar no sitio do seu Antonio, um vizinho do seu Zizo, pode comer uma vaca atolada ou um afogado feitos no capricho, pela esposa do seu Antônio, e isso é de graça, ofertado pela festa. Depois desse almoço, saem em procissão uns 150 cavaleiros, umas 20 charretes e mais alguns automóveis buzinando, todos seguindo o mastro da Santa Cruz pelos 5 km de estrada que liga o sitio do seu Antonio à capelinha do seu Zizo.

A chegada do mastro é o ponto alto da festa, soltam-se rojões e dão-se vivas à Santa Cruz. Não sei se o povo estava muito animado por causa da cerveja, ou foi por causa da camera (eu estava filmando), mas acabaram se esquecendo de colocar a bandeira e fincaram o mastro sem ela, o simbolo da Santa Cruz! Imperdoável, pois o mastro é que leva para o céu os pedidos e promessas dos devotos, ele não podia subir pelado!

Foi um sufoco tirar aquele pauzão pesado de dentro do buraco e na afobação o povo perdeu o controle e o mastro acabou caindo. Sorte que foi em cima da capelinha, pois se fosse no meio do terreiro, certamente teria pego na cabeça de um e seria tragédia na certa. Ficou só no aviso de cuidado.

Em seguida, deveriam rezar o terço e fazer as orações à Santa Cruz, para depois servir um café com pão, enquanto alguém canta um leilão. Acontece que neste ano, a mulher que puxa as rezas está com o marido doente, não poderia vir e pediram a uma outra que viesse substituir. Mas a substituta não apareceu. Perguntaram entre os presentes se alguém saberia puxar, mas ninguém sabia… O remédio foi servirem o café com pão frances e margarina Qualy e darem inicio ao leilão, enquanto esperavam pela rezadeira. Foram saindo as prendas; um saco de ração, um cabresto todo enfeitado, um laço de couro, uma bicicleta ergométrica de segunda mão, um bolo de padaria, um garfo de bicicleta, etc… e nada da mulher chegar.

Eu já estava ficando aflito e cansado, queria ir embora para casa, tinha ficado o dia todo filmando e entrevistando o pessoal. E já estava anoitecendo, dali um pouco nem luz suficiente para filmar ia ter. Fui falar com o seu Zizo, dizer pra ele que me desculpasse mas eu ia embora, não dava mais para esperar.

__Seu Zizo, o que houve que a mulher não apareceu?

__Eu não sei, Chico, tava tudo combinado certinho com ela…

O semblante do seu Zizo estava triste, eu não tinha visto aquele homem desanimado, até aquele momento. Dava dó de ver. Eu tinha prometido a ele fazer um DVD e presenteá-lo mas ia ficar faltando a reza, fazer o que?

__Seu Zizo, eu vou ter que ir embora mesmo, não vai dar para esperar mais, já tá ficando escuro. O senhor não fica chateado, além disso eu estou muito cansado.

Num tom conformado, ele se despediu de mim dizendo:

__Tem nada não, Chico, a luta continua, ano que vem tem mais. Deus não faz nada errado, o que ele faz tá bem feito.

Fiquei sabendo que a mulher que iria puxar o terço acabou indo bater numa outra festa da Santa Cruz que estava acontecendo naquela redondeza e como o terço já havia sido rezado, ela ficou indignada e foi embora, sem ao menos perguntar se a festa era a do seu Zizo. Espero que os pedidos dos devotos da capelinha do seu Zizo não tenham ficado parados na burocracia do céu, por falta do terço não rezado…

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