A Festa do Divino Espírito Santo

Andressa estava desesperada e Alexander deprimido, se arrastando cabisbaixo pelos cantos da casa. Fazia meses que a oficina de funilaria e pintura do casal andava muito mal das pernas, afundada em dívidas e sem clientes. Andressa sabia que a culpa não era do marido, um profissional honesto e trabalhador, mas algo estava muito errado e Andressa precisava, urgentemente, fazer alguma coisa. Melissa, a filhinha do casal, pedira uma mamadeira e as moedas na sopeira da sala não eram suficientes para comprar um simples litro de leite. Era preciso tomar uma providência, a situação chegara a um ponto insustentável.

Com lágrimas brotando dos olhos, Andressa abraçou a filha, se ajoelhou no canto da sala em frente ao retrato amarelado da família, velho de vinte anos. Era uma foto tirada quando ela era criança, numa Festa do Divino Espírito Santo, no sitio do avô em Roseira. Fechou os olhos e deixou-se transportar para aquele tempo de fartura e despreocupação. Ouviu as violas chorando e os tambores rufando, batendo no ritmo acelerado do seu coração ansioso. Sentiu na boca o gosto esfarelento e macio do bolo de fubá com queijo e do café quente e doce, que era servido no sitio do avô nos dias da festa. Lembrar das comidas da infância era como receber um abraço por dentro, um conforto naquele momento de dor.

Há muito que não se realizavam mais as festas do Divino, daquelas que reuniam toda a família. A tradição foi morrendo junto com os velhos e os novos não tinham mais tempo nem espaço para ela, agora que tinham sido engolidos pela lula-lufa das cidades…

Com o coração um pouco mais calmo, Andressa olhou para Melissa e reparou que o vestidinho da filha era o mesmo que ela usara quando a foto da família havia sido tirada. Reparou, também, que a fita que apertava o vestido na altura da cintura, ainda estava faltando o pedaço que tia Amélia tinha cortado para amarrar na bandeira do Divino. A tia estivera desenganada e o que a salvou foi sua fé no Divino. Muitas eram as histórias de graças alcançadas por intermédio do Divino, havia mesmo relatos de milagres… Milagres? Era isso que Andressa estava precisando naquele exato momento!

Sem pensar, como se estivesse sendo conduzida por uma mão invisível, pegou a fita que amarrava o vestido da filhinha e com o restinho de fé que ainda carregava no seu coração, pediu ao Divino que nunca mais deixasse sua filha passar fome. E se seu pedido fosse atendido, ela prometia que, enquanto vivesse, todos os anos, na época de Pentecostes, ia fazer uma festa em sua homenagem, do mesmo jeitinho que seu avô fazia.

O Divino se apiedou de Andressa e não demorou para os clientes começarem a aparecer na oficina de Alexander e o dinheiro entrar no caixa. A situação melhorando aos poucos, as dívidas materiais sendo pagas, mas Andressa não se esquecia da mais importante delas, aquela que fizera com o Divino. Ela queria começar a pagar logo naquele ano e começou a anunciar entre os mais chegados, que quando chegasse a época ela faria uma festança do Divino, em agradecimento à graça alcançada. E na bandeira que ela mesma já confeccionara, ela iria amarrar a fitinha do vestido de Melissa.

O povo achou que ela estava doida, pois Andressa não passava de uma remediada, sua situação ainda não permitia o luxo de dar uma festa nos moldes daquela que o avô patrocinava, com muita comida distribuída a quem chegasse, música, leilão e baile. Mas ela tinha fé, uma fé que crescia a cada dia, na certeza de que o Divino estava por trás da paz que voltara a reinar em seu lar e que Ele iria dar um jeito da festa acontecer. E aos que afirmavam que ela estava ficando louca, dizia que quem daria a festa não seria ela, seria o Divino, ela seria apenas o instrumento.

E realmente, foi se aproximando a época de Pentecostes e a festa se desenhando. Através de pequenas contribuições daqui e dali, toda gente que ficara sabendo da promessa de Andressa quis contribuir com alguma coisa. Um prometeu um porco, outro uma galinha, um saco de batatas, o que estivesse sobrando em casa. Ela não pediu nada, só fazia afirmar sua certeza de que daria a festa e o povo foi doando o que achou de doar.

Na semana da festa, estava quase tudo já preparado e Andressa sentiu saudade do bolo de banana, um quitute que nunca faltou na festa do avô. Foi ela dar falta do bolo que bateu na porta um desses vendedores ambulantes, que carregam a mercadoria num peruzinho. O pai dela foi atender a porta e anunciou que era um vendedor de… bananas, oferecendo dois lindos cachos de nanicas bem granadinhas.

__Ah, meu pai, mande o homem andar, que dinheiro não estamos tendo pra comprar essas bananas.

__Vá lá falar com ele, minha filha, que ele mandou chamar foi a dona da casa.

Ao chegar no portão, o homem já havia descarregando os cachos do peruzinho, dizendo que mandaram entregar naquele endereço. Andressa chegou a perguntar quem havia mandado aquele presente tão providencial, mas o homem não se deu o trabalho de responder, deu as costa e se foi… Ela sentiu um calor percorrendo seu corpo, aquilo, mais uma vez era obra do Divino.

No dia marcado, a festa teve lugar no pátio da oficina do casal, todo enfeitado com bandeirinhas coloridas, ia chegando gente não se sabe de onde, todo mundo com o intuito de ajudar, coisa bonita de se ver. Apareceu até um grupo de Folia do Divino, gente que não se reunia há anos. Eles se organizaram, fizeram as capas vermelhas com a pomba bordada em branco e saíram uns dias antes pela vizinhança, pedindo ajutório para a festa. Montou-se uma cozinha improvisada, com um fogão de lenha feito às pressas, com tijolos de demolição e uma chapa de ferro doada pelo depósito de material. O afogado, prato feito com carne ensopada e farinha de mandioca, estava delicioso segundo os que comeram.

Na hora das rezas, Andressa foi se lembrando de tudo e puxou cada uma delas, inspirada pela devoção e fé que só faziam crescer, à medida que via que tudo ia dando certo e ela pode, sem ter os meios, realizar a festa prometida. A primeira fita a ser amarrada na bandeira, foi, claro, a dela. Seguiram-se muitas outras fitas, de gente buscando ajuda ao Divino, a fama da bandeira se espalhando e a festa crescendo a cada ano.

No primeiro ano, consumiram 15 kg de carne e agora que a festa está em sua décima edição, são precisos 150kg de carne para preparar o afogado. Começaram com não mais de 100 pessoas, se apertando no terreiro da oficina, hoje comparecem mais de mil. O pessoal cede o sitio, a chácara, fazem questão de que seja no local deles, em agradecimento a alguma graça alcançada. Um dia Andressa ainda quer ter o próprio local, um sitio com largueza, para construir sua capelinha e lá colocar sua bandeira do Divino. Ela sabe que vai conseguir, mas não tem pressa, que o Divino faz tudo na hora certa, não é na hora que a gente quer e do jeito que a gente imagina.

Isso tudo Andressa me contou não faz um mes, quando a conheci. Ela se empolga quando fala da presença do Divino em sua vida e das transformações que Ele já fez em sua família e no seu grupo cada vez maior de amigos. É impossível não ficar contagiado com a fé desta mulher. Fiz uma longa entrevista com ela, sobre os aspectos folclóricos da manifestação, que era o que me interessava, mas ela não deixava de ressaltar que nada era por acaso e que só participando da festa eu ia entender o que ela estava contando.

Assim, no dia 03 de maio, bem cedinho, antes do sol nascer, lá estava eu, num sítio da periferia da cidade de São José dos Campos, participando da alvorada da festa, que consiste de uma queima de fogos e a reza com o pessoal que passou a noite ajudando nos preparativos. A maior parte do pessoal do apoio é da família e está vestido com calça branca e blusa vermelha, as cores do Divino. Andressa comanda tudo, dando ordens pelo microfone, recebendo gente que chega e resolvendo os pepinos que vão aparecendo.

E eu ia registrando o que podia, porque acontecia tanta coisa ao mesmo tempo, que eu não dava conta. Num determinado momento, percebi que eu me emocionara e que tinha sido contagiado pelo clima da festa, foi difícil me manter isento e continuar o trabalho. Quando foi na hora de pegar uma fita e fazer um pedido, eu não pensei duas vezes, aceitei uma fita e fiz um pedido eu também. Fui até a bandeira, segurei a fita em baixo da mesma e fiz o meu pedido, a cabeça baixa e a testa encostada no pano vermelho. Não deu para segurar as lágrimas…

Saí do altar enxugando as lágrimas e com alguma dificuldade voltei à minha função de repórter do evento. Um homem se aproximou de mim e perguntou.

__Faz favor, o senhor sabe que horas vai ser o leilão?

__Puxa vida, não sei não moço, não tenho a menor idéia, eu estou aqui a trabalho, sabe?

__Mas o senhor não é da família?

__Eu não, por que?

__Ah, porque o senhor está vestido de vermelho e branco, por isso!

Me dei conta que naquele dia eu tinha escolhido vestir uma calça de veludo clara e minha blusa era de um vermelho muito vivo. Muita coincidência! Rindo, respondi:

__É, talvez eu tenha entrado para a família sem perceber!

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