Caio

Se tem uma coisa que me atrai é gente que destoa do comum. Semana passada eu estava fazendo minhas compras na feira, quando vi um rapaz agitado e falante, diante de um caixote de frutas, desses de madeira clara. Sobre o caixote havia vários objetos verdes, de um material que não consegui identificar à primeira vista. Seriam bichinhos de plástico made in China? Um olhar mais acurado e um toque nas peças me revelaram que se tratava de material natural, folhagem de alguma planta.

__O senhor gostou? – me perguntou o rapaz?

__É você que faz?

__A gente mesmo é o artista, meu senhor.

__E isso é feito com folha de que? Palmeira?

__Não, senhor, é com folha de coqueiro, do anão.

__E onde você arruma as folhas de coqueiro?

__A gente é andarilho, não para nunca. Sou que nem maluco de BR, tenho rodinha no pé, quando eu topo com um coqueiro, vou lá e zápt, corto um tanto que não prejudique a planta, tá ligado?

O rapaz pegou uma folha que estava ao lado do caixote, cortou-a com uma faca de mesa comum, dessas de serrinha e começou a trançar. Tive dificuldade de acompanhar os movimentos dele, era muito rápido demais! Corta daqui, trança dali e de repente, surge nas mãos dele um grilo, perfeito! Pena que eu estava sem minha câmara, queria ter registrado o feito…

__Escuta, eu quero filmar o seu artesanato, como eu posso fazer para encontrar você? Você tem um celular pra eu ligar e combinarmos?

__Não, não mexo com essas coisas, senhor. A gente é desapegado das tecnologias…

__Não tem celular? Mas você mora onde?

__Por aí, a gente dorme onde dá, por aí mesmo. Pode procurar a gente ali na pracinha da Igreja de São Dimas, todo mundo conhece me conhece nessas redondezas. Eu não saio de lá.

__E o seu nome?

__Caio.

Dois dias depois apareci na pracinha de São Dimas procurando por ele. Ninguém conhecia o tal Caio. Fiquei decepcionado, será que o cara tinha mentido pra mim? Já ia indo pro carro quando vi uma molecada, 3 meninos desses de rua, sujos e mal vestidos, carregando umas folhas de coqueiro. Me aproximei deles e perguntei:

__Vocês mexem com artesanato? Conhecem o Caio?

Eles me olharam desconfiados e desafiadores. Senti o peso no ar…

__Aqui não tem nenhum Caio.

__Eu encontrei com ele na feira do Santos Dumont, ele faz artesanato com folhas de coqueiro, iguais e essas que vocês estão carregando. – Descrevi o Caio para eles, gorro vermelho, falante, 1,70m, etc…

__Ah, você tá falando do Grilo, o nosso professor!

__Professor?

__É, o Grilo foi o nosso professor, ele ensinou a gente a fazer 28 tipos de objetos com folha de coqueiro, gente boa.

__Então, onde é que está o Grilo.

__Mas o que você quer com ele?

__To querendo filmar o cara enquanto ele monta uma peça, só isso, ele sabe já falei com ele sobre isso.

Eles me mediram mais um pouco, se entreolharam e resolveram que iam chamar o Grilo pra mim.

Dez minutos depois me aparece o Caio, já veio pedindo desculpas, não ia dar pra filmar naquela hora, que eles estavam indo tomar banho. Dali um minuto ia passar a Ronda Social, um serviço da prefeitura que recolhe moradores de rua e dá um trato neles. Achei que ele estava me enrolando, mas não deu um minuto e apareceu mesmo uma Kombi. Antes deles entrarem no veículo, combinei de nos encontrarmos na semana que vem, na mesma feira em que eu o tinha conhecido.

Dessa vez deu certo, na semana que vem eu o encontrei no mesmo lugar, vendendo seus objetos na feira. Fizemos o filme que você pode conferir abaixo e ele me contou um pouco da vide dele.

Disse que abandonou o lar logo cedo, porque não se entendia com o padrasto. Este queria que ele estudasse, fosse alguém na vida e o Caio nunca gostou de contas, fórmulas, cadernos e livros seu negócio era trabalhar com as mãos, criar com o que estivesse a seu redor. Assim sendo, Caio fugiu da casa da mãe em Jundiaí e procurou o pai, um hippy que na época estava no Paraná. Com ele aprendeu a dobrar arame e montar bijuterias com durepoxi. Mais tarde conheceu os indios que ensinaram o tal do encarpeamento, que segundo ele é o nome da arte de fazer objetos com folha de coqueiro. Caio se considera um homem livre, que não gosta de ter coisas e se diz desapegado de tudo que a sociedade de consumo pode proporcionar ao ser humano. Por isso, vive com o que pode carregar na mochila e não tem parada, não consegue se imaginar tendo um CEP.

Perguntei a ele há quanto tempo está em São José dos Campos e para onde pretende ir depois daqui.

__Já estou aqui há dois anos.

__Dois anos? Mas pra quem tem rodinhas nos pés isso não é muito? Por que você está aqui há tanto tempo?

__Porque aqui é a cidade do Tio Patinhas. Aqui a gente vende bem, o povo tem grana sobrando!

Não pude deixar de concordar com ele, a cidade é rica, tão rica que pode se dar ao luxo de abrigar “desapegados” como o Caio…

 

 

 

 

 

 

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2 Respostas to “Caio”

  1. Fernando Says:

    Parabéns por registrar este trabalho. Encontrei o “Caio” em Canasvieiras, dia 22/02/15. Me surpreendi com a arte dele.

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