Santo Antonio

O pessoal estava rezando o terço em frente à casa do festeiro, eram quase umas 50 pessoas, a maioria crianças e senhoras. As crianças eram divididas em meninas, que se fantasiaram de anjinhos e os meninos, todos vestidos de freis franciscanos. De homens adultos, havia dois rapazes para carregar o andor e mais um ou outro senhor de cabelos brancos. Essa pequena multidão ocupava metade da faixa de rolamento, todos convergindo os olhares para o andor de Santo Antonio. Os carros que vinham daquele lado da rua tinham que desviar e trafegar um trechinho na contra mão.

O terço ia lá pelo seu penúltimo mistério, quando um carro estacionado a 30 metros dali abriu o capo traseiro e  inundou a rua com uma música techno, num volume bem mais alto que um ouvido normal pode suportar. Resultado, ninguém mais conseguia escutar dona Vitória, a puxadora do terço. Os devotos de Santo Antonio se entreolharam, alguém tinha que tomar uma providência, não ia dar pra continuar a reza com aquele ensurdecedor bate-estaca eletrônico… Um senhor crente muito bem vestido, devidamente equipado com sua bíblia, passou exatamente nesta hora e não disfarçou um sorriso de escárnio, pelo visível mal estar instalado entre os adoradores de imagens.

Depois de um minuto de desconforto, seu Dorival, marido de dona Vitória, tomou a iniciativa e foi pedir ao jovem um pouco de respeito pelo santo. O rapaz não desligou o som, apenas baixou o capo e saiu cantando pneus. Pude ouvir de uma beata que falou baixinho:

__Este mundo está mesmo perdido… Rezar que é bom ele não quer…

O último mistério foi rezado durante a procissão, que percorreu o quase quilômetro entre a casa do festeiro e a pracinha do bairro, que era onde as barraquinhas da quermesse e o palco já estavam montados. Rojões estouraram e vivas foram dados a Santo Antônio quando ele adentrou a área cercada de cavaletes, colocados pela prefeitura para isolar a área. Rezou-se então um novo terço, dessa vez um terço luminoso, durante o qual são acesas velas, que os devotos seguram durante toda a reza. As crianças, os anjinhos e os capuchinhos já estão impacientes, não é de sua natureza ficarem quietas durante tanto tempo. Os pais pedem a eles, inutilmente, que se compenetrem e fiquem em oração.

Ao fim do terço, anuncia-se a distribuição de pães bentos. De cima do palco, gentilmente montado pelo candidato a vereador, dona Vitória e seu Dorival distribuem algumas centenas de francesinhos bentos, acondicionados em caixas de papelão, oferta da padaria do portuga.

Novamente se ouve os fogos, agora anunciando o mastro que será erguido, com a bandeira de Santo Antonio. Os mesmos dois jovens que carregaram o andor, agora pregam a bandeira do santo na ponta do mastro de metal e plantam o axis mundi no centro da praça. Em outros anos o mastro já foi de madeira devidamente escolhida, cortada segundo um criterioso ritual pelo padrinho do corte e ornamentado e pintado pelo capitão do mastro. Optou-se pelo metal depois que os vândalos passaram a destruir os de madeira. Só não conseguiram resolver o problema das moças que raspavam um pedaço da madeira do mastro, para fazer o chá milagroso, que teria o poder de trazer aos pés delas um noivo, já no ano seguinte.

Rezas terminadas, pães distribuídos, mastro erguido, começa a parte dita profana. O povo forma imensa filas para comprar ficha e consumir os comes e bebes; quentões, vinhos quentes, bolinhos caipiras e doces diversos. E se divertir na barraca de pescaria, no castelo de plástico inflável, com o bingo, com o correio elegante e finalmente, lá mais para o fim da festa, com a quadrilha improvisada. Alguns pés-de-valsas mais afoitos não se contiveram e já bailaram ao som de pagodes, sambas e sertanejos que rolaram durante toda a festa. Meia noite, pontualmente, encerra-se a festa, foi o combinado com a prefeitura, um acordo conseguido a duras penas, pois muitos vizinhos reclamaram do barulho depois das 22h e quiseram boicotar o evento.

Quando a festa terminou e começaram a desmontar as barracas, dona Vitória se deu por satisfeita, tudo deu certo e não houve nenhum contratempo. Mesmo que o padre tenha se recusado a rezar a missa na praça, como nos anos anteriores. Ele havia proposto que a festa fosse transferida para o pátio da igreja, para congregar os fiéis mais próximos do templo cristão, o que foi veementemente recusado pelos organizadores. Levar a festa para a igreja iria esvaziar o evento! Afinal, o mutirão para a realização desta tradição conta com a ajuda de crentes, umbandistas, espíritas, budistas e até ateus! Se fosse junto à igreja, que por sinal fica a dois quilômetros da praça, muitos desses ajudantes não iriam querer participar.

Ela pensou com seus botões: “Bem que o padre Vicente poderia ter sido mais flexível”…

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