A Bicicleta e a Inocencia

Eu não sei bem como foi que aconteceu, mas o fato é que a bicicleta já não é mais o meu meio de transporte preferido. A velocidade se impôs ao bom senso. Em outras palavras, eu escolhi fazer mais coisas em menos tempo, o que, de bicicleta, seria humanamente impossível.

Eu poderia culpar os automóveis e o risco de ser atropelado pelo fato de ter abandonado a bicicleta. Ou então a prefeitura, que privilegia o automóvel e não constrói ciclovias e ainda por cima espalhou placas proibindo bicicletas em alguns dos principais corredores de tráfego. Mas não, fui eu mesmo quem escolheu mudar a velocidade do tempo e agora fico correndo atrás das horas, que me parecem cada vez mais curtas…

Ultimamente, a bicicleta, que já foi minha companheira inseparável nos deslocamentos urbanos, só tem me servido para um passeio eventual, quando consigo cair fora da camisa de força das metas e objetivos e deixo que o presente se imponha. Para estas escapadas, aproveito as horas mais calmas, quando todos estão dormindo ou assistindo uma final de campeonato, como na quarta-feira passada, durante o jogo do Corinthians e Boca Juniors. Sem carros trafegando, foi possível relaxar e me deixar levar pelo movimento repetido das pedaladas, como se elas fossem um mantra silencioso. Me percebi voltando no tempo, quando a cidade não era tão barulhenta e violenta e eu era o dono inquestionável do meu tempo. Porque, hoje, quem é que pode dizer que é dono do seu tempo?

A cortar o silêncio, de vez em quando algum rojão estourava – seria gol dos brasileiros ou dos argentinos? E eu lá me interesso por isso? Os fogos me lembram mais as festas juninas do que futebol ou qualquer outra coisa. E foi para uma dessas festas que minha nostalgia me transportou, trinta anos atrás, quando eu ainda namorava com aquela que seria minha primeira esposa.

Minha namorada era oriental, tinha o biotipo oriental mas eu a considerava muito mais brasileira que eu. Seu nome e compleição sugeriam uma origem chinesa, mas na verdade, em suas veias corria o sangue do povo do Império do Sol Nascente.

Liang era falante e extrovertida e suas roupas sempre tinham alguma coisa estrategicamente colocada, com o intuito evidente de pescar a atenção de olhos distraídos. O que me fascinava nela era uma mistura de docilidade e rebeldia, combinadas em doses que a tornavam irresistível, pelo menos para mim.

Pois bem, fazia muito frio naquela noite de junho, a festa de São João no CTA (área militar em que eu morava com minha familia) já ia terminando, a fogueira só nas brasas e nós tínhamos que acordar cedo no outro dia. Eu para trabalhar e ela para o cursinho pré-vestibular. Era começo de namoro e a gente estava com muita energia sobrando para simplesmente voltar para casa e dormir. Uma troca de olhares foi o suficiente para combinarmos que naquela noite iríamos, como em tantas outras, dormir no Hotel Castilho, uma espelunca localizada no centro da cidade, que nem banheiro nos quartos tinha…

Naquele tempo, eu não tinha carro ainda, nosso meio de transporte era a bicicleta e para ela nos dirigimos, a fim de pedalar os 5 km até o centro da cidade. Ao chegar na bicicleta, uma Caloi Barra Forte aro 24 vermelha, percebi que havia um grande volume amarrado no bagageiro. Olhei para Liang, ela me devolveu um sorriso maroto e eu entendi que aquele era seu presente de aniversário para mim. Desembrulhei o pacote de papel kraft e descobri um edredon com grandes quadrados vermelhos e amarelos, confeccionado por suas habilidosas mãos. Iríamos estreá-lo naquela noite mesmo!

Montamos na bicicleta, eu pedalando e ela na garupa, segurando com uma mão a minha cintura e com a outra o edredon, que tinha quase o mesmo tamanho que ela. Lá fomos nós, alegres de despreocupados, conversando pela madrugada fria e vazia de São José dos Campos do começo dos anos 1980. Não pensávamos, nem no que iam pensar daquela exótica dupla, nem em um possível assalto, isso era coisa de noticiário, não poderia acontecer nunca com a gente. Apenas nos deixávamos guiar pelos impulsos do corpo e do coração.

Ao chegarmos à Praça Afonso Pena, acorrentei a bicicleta em um poste em frente ao hotel, como sempre fiz todas as outras vezes. Pagamos adiantado, como era praxe neste tipo de estabelecimento e fomos logo para o quarto, pois não tínhamos muito tempo para curtirmos nossa liberdade antes do sol apontar no horizonte. Dormir, mesmo, era a última coisa que fazíamos, talvez durante uma ou duas horas. Naquela idade, dormir não era importante, o que contava era viver intensamente, de acordo com o que os instintos e a fantasia pedissem, ou melhor, exigissem!

Lá pelas 6h da manhã, a nosso pedido, o dono do hotel bateu na porta para nos acordar. Nos lavamos rapidamente na pia do quarto, com ajuda de uma toalha e fomos depois para a cozinha, tomar um café da manhã bem do ordinário; café com leite ralo, pão francês borrachento e margarina Saúde. Ruim que fosse, a gente comia com apetite, a fome aumentada pelas horas sem dormir.

A gente estava com pressa, eu ainda tinha que levar Liang para casa dela, mas ainda deu tempo de ler com o canto dos olhos a manchete do jornal O Vale Paraibano, nas mãos de um senhor sentado no saguão do hotel. Ela dizia: “Polícia às voltas com quadrilha de ladrões de bicicleta”. Claro que eu gelei e pensei no pior, mas relaxei quando saímos do hotel e vi que minha bike ainda estava amarrada ao poste. Mas à medida que nos aproximávamos dela, uma sensação de irrealidade foi me tomando. O guidon estava lá amarrado mas eu não conseguia ver o resto da bike! Cheguei a dar duas voltas no poste, em busca da parte faltante do meu veículo! Foi um choque! Era a primeira vez que a vida me levava algo de valor. Cheguei a abrir o cadeado e ia pegar o guidon que fora serrado do corpo da bike, mas me dei conta que seria inútil, um peso morto que eu ia carregar.

Voltamos de ônibus, cada um para sua casa. Eu me sentia como um general derrotado, sentado no ponto de ônibus, segurando aquele edredon colorido. Não conseguia ter raiva de quem me roubou, o sentimento era de frustração ao me deparar com a inexorabilidade da perda. Este episódio marcou o começo do fim da minha inocencia.

Depois desse revés, passei bem uns 20 anos sem bicicleta, acabei me mudando pra roça e quem me levava pra cima e pra baixo era um fusquinha velho. Foi só quando voltei para a cidade que arrumei uma outra bike e nunca mais tive coragem de amarra-la em um poste na rua, deixo sempre em estacionamento de carros ou dentro de alguma casa.

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