Coisas Velhas…

Aqui no Vale do Paraíba, a cada dia que passa, os processos artesanais de produção de alimentos estão afundando mais e mais no buraco escuro do esquecimento. Hoje, só quem faz uma farinha de milho ou de mandioca, uma rapadura ou uma taiada, é a gente mais velha, que acaba fazendo mais por saudosismo do que por necessidade. Comprar pronto é tão mais fácil e barato que ninguém quer se dar o trabalho de plantar, moer, torrar, cozinhar, apurar, secar, etc… Pra que fazer se o supermercado está aí na esquina, oferecendo variedades e sabores para todos os gostos e bolsos?

No entanto, graças a Deus, ainda existem algumas gentes teimosas, que insistem em fazer como antigamente. É o caso dos meus amigos lá no Bairrinho, que todos os anos fazem rapadura e taiada. Taiada, pra quem não sabe, é a rapadura com o acréscimo de farinha de mandioca e gengibre. Só comendo pra saber que gosto tem e eu garanto que é gostoso, menos enjoativo que a rapadura pura, que é feita só do caldo da cana apurado.

Pois bem, no inverno chove pouco, a cana está madura e o teor de açucar elevado. É o momento ideal para se fazer a rapadura. Sabendo do meu interesse pelo folclore e tudo que envolve a sabedoria popular, meus amigos do Bairrinho me convidaram para assistir o ritual da feitura da rapadura. Eles são uma família de origem rural, que andou flertando com a cidade por uns tempos, mas que acabou voltando para a roça. Seu Sebastião, dona Dora e seus filhos, Elder e Eden, moram num pedacinho do paraíso aqui na terra, cuidam de uma chácarazinha deliciosa na periferia da cidade, uma peça de resistência que vem bravamente enfrentando a especulação imobiliária que vem devorando a bocadas gulosas, a nossa combalida zona rural.

Cheguei cedo na chácara para fotografar o pessoal ainda decepando a cana, mas não deu tempo, ela já estava toda cortada e empilhada ao lado da moenda elétrica. Tinha sido cortada um dia antes, pra ir amolecendo e facilitar a moagem. Seu Sebastião já estava terminando de limpar a moenda e em seguida pos-se a enfiar a cana, explicando que as melhores variedades são a Javanesa, a Cristal e a Caiana verdadeira, que dão um caldo mais doce e bem clarinho.

Enquanto seu Sebastião vai moendo a cana, dona Dora limpa um enorme tacho de cobre, com ajuda de seu filho Elder. É preciso tirar todo zinabre, que é um baita veneno e isso se faz esfregando muito limão cravo com sal grosso, que atua como abrasivo. Eu não sei a capacidade do tacho, só sei que foram despejados bem uns 120 litros de caldo de cana ali dentro, devidamente coados num grande coador de pano. O bagaço que sobra da cana moída eles levam de peruzinho para se decompor ao lado da horta, que nesta família nada se perde, tudo volta para a terra, fechando o ciclo da vida.

Caldo coado já no tacho, é hora de acender o fogo no fogão construído pelo seu Sebastião. Éden, o filho mais novo, se encarrega de colocar os paus da maneira certa, que acender o fogo exige ciencia, não é qualquer um que faz não… E depois de aceso, tem que controlar bem, não pode ser muito fogo porque senão entorna o caldo e não pode ser pouco senão demora demais.

Quando o caldo começa a ferver, tem que ir tirando a espuma, procedimento que além de ajudar a não entornar, faz a rapadura ficar mais clarinha porque se remove as impurezas. O processo todo demora horas, dependendo da quantidade de caldo de cana. O pessoal vai revezando, porque o braço cansa e o calor é intenso ao lado do fogo.

Enquanto Eden, Elder e até mesmo eu cuidamos de mexer o caldo fervente, dona Dora vai preparar o almoço e seu Sebastião prepara as forminhas de madeira onde será despejada a rapadura no ponto certo. Aliás, é muito importante ficar atento ao ponto; tem o ponto de melado, ponto de açucar e ponto de rapadura. Tem gente que sabe do ponto só de olhar para o caldo fervendo, mas pra se ter certeza, o melhor é pegar um pouco de massa quente, jogar numa panela com água fria e ver o que acontece. Se formar uma bola consistente, que não se desfaz na mão, é chegada a hora de tirar o tacho do fogo e colocar no chão, continuar mexendo até esfriar um pouco e só então enformar, despejando nas forminhas uma por uma. Dez minutos depois a rapadura está durinha e pode ser desenformada.

Depois que o tacho esfria, sempre sobra um pouco de açucar endurecido grudado nas bordas. Diga-se de passagem aí está a origem do nome rapadura. Quando se fazia açucar no Brasil colonial, a sobra endurecida nos tachos era raspada pelos escravos, e assim foi batizado este delicioso doce nacional.

Como meus amigos do Bairrinho não gostam de perder nada, jogam uma agua quente no tacho “sujo” e com ela preparam o que chamam café de rapadura, uma bebida deliciosa, parecida com café, mas com um sabor mais suave.

Os homens terminam a faxina e dona Dora vai passar o café de rapadura na cozinha. Eu a acompanho pois quero registrar mais esta novidade que ainda não conhecia. Dona Dora gosta de conversar e eu de perguntar. Vou fuçando a vida dela, perguntando onde aprendeu isso e aquilo, é uma delícia escutar essa mulher, uma aula de história viva.

No meio da nossa conversa ela diz que se lembrou muito de mim quando foi visitar sua terra natal no fim de semana passado. Eu estranhei ela dizer isso, pois não tenho ligação com a cidade de Redenção da Serra. Perguntei a ela:

__Mas por que a senhora se lembrou de mim, dona Dora se eu nem conheço a cidade de Redenção?

__Ah, porque ocê gosta de fotografá as coisa véia e eu tava visitando a igreja de lá, que é de 1902 e virô um museu com essas coisa antiga, penêra, monjolo, sabe? Desse jeito de fazê de antigamente…

Não me contive e interrompi a fala dela com a minha risada solta. Ela riu também, porque dona Dora é uma pessoa de bem com a vida, pega carona fácil na felicidade do outro. Mas minha risada foi pelo inusitado da observação dela. As coisas que ela vê como antigas e velhas, eu vejo como novas e inspiradoras, para quando o homem esgotar essa sua mania de fazer em série e sem personalidade. Para quando a humanidade perceber que o artesanato dá sentido à vida, enquanto o mecanicismo empobrece o espírito.

Processos como este, feitos em escala familiar, sem cartão de ponto e salário, dignificam o homem e é disso que a humanidade está precisando hoje em dia.

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2 Respostas to “Coisas Velhas…”

  1. FABIO Says:

    Bom demais da conta!

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