Festa Junina da Dona Teresa

Quando eu voltei à casa de dona Teresa na segunda-feira para entregar o DVD com as imagens, encontrei-a na garagem, recolhendo as ultimas bandeirinhas da festança junina que ela havia dado no sábado anterior. Dona Teresa parece uma formiguinha, está sempre em movimento, nunca a vi parada. Ninguém diz que esta senhora tem 84 anos, tamanha a energia que emana de seu corpinho miúdo.

Na intenção de puxar conversa, disse à ela enquanto entrava:

__Ô, dona Teresa, mexer com festa junina na sua idade é muito trabalho!

__Que nada meu fio, isso aqui num é trabáio, a pessoa tendo saúde, nada é trabáio…

Dona Teresa me surpreendeu e encantou desde o primeiro encontro. Cheguei até ela por indicação de um amigo comum, que sabe que eu gosto das festas tradicionais, dessas que ainda não se deixaram contaminar pelas modernidades pasteurizantes que acabaram reduzindo os eventos juninos num festival de barraquinhas de comidas típicas.

A festa de dona Teresa ainda é à moda antiga, do mesmo jeitinho que ela e seu marido faziam na roça, lá no bairro do Cantagalo, 59 anos atrás. Tudo começou com seu falecido marido, que era devoto de São João e que ganhou do bisavô um quadrinho com a imagem do santo. Chamaram os amigos, rezaram o terço, acenderam a fogueira, levantaram o mastro com a bandeira e ofereceram alguma comida e bebida. Desde então, tem feito a festa todos os anos e depois da morte do marido ela pegou o encargo para si. Só falhou duas vezes, quando estave doente e acamada.

O ritual não é diferente hoje; acendem a fogueira lá pelas 19h e rezam o terço para abertura da festa, estouram rojões e sobem o mastro; só depois deste ritual é que a comida é servida. A única diferença é que agora a festa é na cidade, num bairro de classe média, com a rua devidamente interditada para que se possa acender uma bela fogueira e também porque na casa de dona Teresa não haveria espaço suficiente para os mais de 200 convidados, que costuma ser a média de pessoas que aparece por lá.

Uma festa deste porte não sai barato, mas dona Teresa oferece tudo de graça aos convidados. Nada é cobrado e ela recusa ajuda, a não ser dos filhos, que ajudam a enrolar os 1200 bolinhos caipiras, cortar bandeirinhas e uma ou outra coisa que ela não consiga fazer sozinha.

Autosuficiencia é a palavra de ordem da vida desta mulher. Vejam o que ela me disse quando eu ofereci ajuda para ela descer 3 lances de escada em sua casa:

__Pode dexá, meu fio. Ocê pode faiá e eu caio, mas a parede eu sei que não sai du lugá… – Falou isso e deu uma boa risada…

Um dia antes da festa eu apareci na casa dela para fazer uma entrevista. Encontrei uma turma de umas 10 pessoas, entre filhos e noras, todos ocupados em enrolar os bolinhos caipiras. Eu não conhecia ninguém ali, mas a simpatia e hospitalidade com que fui recebido fizeram com que eu me sentisse imediatamente à vontade, como se estivesse em minha própria casa. Fizeram questão de me convidar para a festa, ou melhor me intimaram a comparecer no dia seguinte e que eu trouxesse também a família!

Liguei o gravador e fiz algumas perguntas, mas nenhum dos filhos quis responder, todos afirmavam que quem sabe dos detalhes da festa é dona Teresa e passaram a bola pra ela. Com evidente orgulho, ela foi me mostrando o que já estava preparado para festa. Me chamou para dentro de um quarto e foi abrindo caixas de papelão cheias de broas de fubá embrulhadas em folha de bananeira e biscoitos polvilho, todos assados por ela mesma. Num outro comodo da casa havia um fogão com uma panela enorme, de onde exalava um cheiro delicioso, era a quirerinha com carne de porco, que borbulhava apetitosa. No fogão de lenha, as batatas doces já estavam dispostas em assadeiras dentro do forno e na chapa as panelas e chaleiras esperavam pelo vinho quente e o quentão.

__Antigamente, lá no Cantagalo não existia quentão, Chico. A gente pegava umas fôia de figo, dexava di môio no árco uns dia, fazia uma carda grossa de açúca e fervia numa lata de dezoito litro. Era isso que a gente bibia e comia os pinhão, as batata doce, a quirerinha e os doci di abóbra, mamão...

Este ano não houve doce na festa de dona Teresa, pois a filha que mora em Minas e que costuma trazer o doce de abóbora, não pode vir. Mandou apenas uma abóbora madura, mas ninguém se candidatou a transformar a enorme cucurbitacea num doce… Cadê tempo pra tanto trabalho?

Com uma cara de menina marota, Dona Teresa me mostrou os fogos, várias caixas deles, que São João é fogueteiro e gosta de fogo e barulho. Eu não vi, mas as filhas me garantiram que no dia da festa ela acorda cedo e a primeira coisa que faz é estourar uns rojões. E vai estourando outras vezes durante o dia, na hora de levantar o mastro e até o fim da festa, que não é antes da meia noite. E tem o arrasta-pé, que dona Teresa é pé de valsa, dança com filho, neto, quem tirar pra dançar ela aceita e não faz feio.

Eu, que não gosto de barulho, perguntei se os vizinhos não reclamavam, se ela nunca tinha tido problema por causa da algazarra:

__Os vizinho é a gente qui fais, Chico. Tem que conquistá eles. Ninguém nunca reclamô, a gente cunvida i eles vem tudu na festa tamêin.

Por fim, ela me mostrou o mastro, que estava deitado no corredor na lateral da casa. Levantou-o sozinha do chão, apoiou-o numa escadinha e falou que ia dar uma mão de tinta nele, ainda naquela tarde. Reparei que o pé do mastro estava meio podre e dona Teresa, mais que depressa, apanhou um serrote e cortou fora uns 30 cm de madeira. Não deu nem tempo de eu ajudar, quando eu vi ela já tinha feito o serviço. Eita velhinha lampeira!

Em seguida, não por cansaço, ela sentou-se no sofá e me mostrou os detalhes das fitas que ela cuidadosamente amarrou na bandeira dos 3 santos. Me contou que cada fita é um pedido que foi feito e que não pode ser tirada da bandeira. Curioso, perguntei o por que de 3 santos na bandeira, se a festa é para São João. Ela me explicou:

__É que nos mes de junho tem os 3 santo, não pode deixá nenhum de fora, eles podia achá ruim.

__Mas a sua festa é em julho, dona Teresa, por que a senhora deixa pra fazer a festa só no 15 de julho, depois de todo mundo?

__É o seguinte, em junho tem muita festa e o povo espaia por tudu elas. Como eu quero que a minha festa encha de gente, eu faço num dia em que num tem concorrência.

__Mas a senhora tem medo da concorrência, dona Teresa?- falei provocativo.

__Não é medo, é por causa das criança, que eu por mim enchia isso aqui de criança, que elas precisa conhecê uma festa de verdade que nem essa que eu faço, conhecê o santinho, não é bonito o santinho? – e ela aponta a bandeira, abrindo um sorriso gostoso.

No dia seguinte, durante a festa, quando eu estava filmando o terço, na hora em todos rezavam o Pai Nosso, eu fiz um pedido. Que se possível, se não fosse muito trabalho para o Todo Poderoso, que ele nos enviasse para o planeta Terra algumas dúzias de pessoas iletradas e sábias, iguaizinhas à dona Teresa.

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2 Respostas to “Festa Junina da Dona Teresa”

  1. chicoabelha Says:

    teste 2

  2. chicoabelha Says:

    tesyte

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