Carpição

carpição
car.pi.ção
sf (carpir+ção) Ação de carpir ou desmoitar uma roça; capinação.

Segundo o dicionário Michaelis online, esta que se lê acima é a definição da palavra carpição. Para quem não é da roça, para aqueles que não são familiarizados com a terminologia do meio rural, explico; capinar quer dizer passar uma enxada num terreno, de modo a deixa-lo livre de mato.

Etimológicamente, carpição vem de carpere, em Latim e significa arrancar ou colher. Houve um tempo em que carpir significou arrancar os cabelos para demonstrar a dor da perda. Daí a palavra carpideira, pessoa a quem se pagava para chorar os defuntos durante os funerais. Não tenho notícia de que esta prática esteja em uso ainda hoje, mas sei que na roça a palavra carpir está bem viva e não tem caboclo que não saiba o seu significado.

Pois bem, semana passada fui convidado a conhecer uma manifestação popular denominada Carpição, que tem lugar ao pé de uma Santa Cruz, na capela de Nossa Senhora dos Remédios, Bairro dos Remédios, em São Francisco Xavier. Tendo morado por mais de 30 anos no meio rural e não muito longe desta capela, jamais eu havia ouvido falar dessa tal de Carpição. Descobri, depois, que pessoas morando há mais de 40 anos na região, também nunca haviam ouvido falar da Carpição.

Por se tratar de um evento ligado à igreja, imaginei um bando de mulheres vestidas com túnicas pretas, entoando lamentos em volta de um caixão. Nada mais longe da realidade, pois trata-se de uma festa na qual pratica-se um ritual que remonta ao século XVII, segundo consegui saber numa pesquisa rápida. O ritual consiste em carregar 3 viagens de terra de um ponto a outro, nas imediações da capela, com a intenção de que aconteça uma cura ou se resolva um problema qualquer. Neste caso específico que visitei, a terra é retirada de um monte nos fundos da capela e levada até o pé da Santa Cruz, em frente à entrada principal. Antigamente carregava-se a terra dentro de um lenço, num guardanapo de pano ou mesmo nas palmas das mãos, mas hoje, a imensa maioria das centenas de devotos que comparecem a esta festa usam mesmo sacolinhas descartáveis, dessas que dão nos supermercados.

Dizem alguns que o nome dessa tradição teve origem na necessidade de se acertar o terreno para a construção de uma nova igreja na zona rural. Daí o capinar, ou carpir o terreno para limpa-lo e depois cava-lo e acerta-lo, fazendo assim uma terraplenagem na base da enxada. Como o solo destinado à nova igreja era benzido pelo padre, não se podia simplesmente descartar a terra, a qual era depositada ao pé da Santa Cruz e daí para que ela começasse a produzir milagres foi um pulinho. Os devotos que carregam esta terra afirmam que foram curados das mais diversas enfermidades; das mais triviais, como uma dor no braço até casos graves e desenganados de cancer.

É verdade que esta capela de Nossa Senhora dos Remédios já está pronta há muito tempo, o terreno todo acertado, já não há mais onde cavar e hoje a terra é trazida pelo caminhão da prefeitura, uns dias antes da festa. Mas tradição é tradição e uma vez que a coisa continua funcionando e as pessoas alcançando as graças pedidas, quem é que vai questionar esta adaptação circunstancial?

A data convencionada para a realização da Carpição é 15 de agosto, mas com a opção da primeira segunda-feira de agosto, para aqueles que por um motivo qualquer não podem comparecer no diz convencionado. No dia 15 pp, lá fui eu registrar a tal Carpição no Bairro dos Remédios, que fica a uns 60 km de onde eu moro. Saí bem cedinho, pois minha informante me dissera que os primeiros devotos chegam de madrugada e a coisa vai até de noite. Dizem que antigamente era feriado, ninguém trabalhava neste dia, mas hoje é só na roça que alguns ainda guardam este dia.

Lá chegando, a primeira coisa que vi foram os devotos, uns 10 deles, carregando as sacolinhas, pareciam formiguinhas baldeando terra. Uns colocavam a sacola na cabeça, outros nas pernas, em volta da barriga, nos braços e outros, ainda, tinham levado seus animais e os faziam transportar a sacola de terra. Sim, a cura funciona também para os animais e pode-se carregar terra e pedir favores para terceiros, caso em que é preciso aumentar o numero de viagens, desde que sejam sempre múltiplos de 3.

Estacionei o carro, preparei o gravador e a camera fotográfica e já ia partir para o trabalho, quando me lembrei da sugestão de uma sábia amiga. Que antes de mais nada, deve-se participar do evento que se vai registrar, até para que o entrevistador não seja percebido como um intruso. Assim, peguei uma sacolinha no carro e a enchi de terra. Mas o que eu iria pedir? Não me sinto doente! No meio da caminhada tive uma idéia. Resolvi colocar a sacola na altura do coração e pedi que ele nunca se endurecesse. Não sei se foi autosugestão, mas depois que cumpri minhas 3 viagens, uma sensação de leveza muito gostosa me invadiu e permaneceria comigo ao longo de todo aquele dia.

Dentre as pessoas que estavam ali baldeando terra, reconheci vários amigos do tempo em que morei na região. Isso ia me facilitar o trabalho, pensei, pois é sempre mais difícil abordar desconhecidos e quebrar o gelo da desconfiança. Resolvi esperar que um dos meus conhecidos terminasse seu ritual, mas antes disso chegou Antonia, a pessoa que me convidou para conhecer a Carpição.

Antonia foi muito gentil, me trouxe café e umas broas de milho e desandou a falar sobre a Carpição, da beleza que é a fé dessa gente, pessoas de todas as idades cumprindo suas promessas, agradecendo, pedindo graças. Algumas delas vindas até de outros estados! Antonia estava visivelmente empolgada de estar ali. Perguntei se ela iria carregar sua terra ou já havia feito o ritual. Ao que ela respondeu:

__Não, Chico, a minha fé é outra, eu respeito e acho bonito, mas não posso participar.

__Como assim, Antonia? – perguntei sem entender nada, já que era por causa dela que eu estava ali e era evidente que ela estava achando aquilo maravilhoso!

__É que eu sou evangélica e o pastor não permite que a gente frequente essas coisas… Eu venho aqui escondido, eu gosto tanto de ver isso, Chico… – e ela me deu um sorriso maroto!

Enquanto eu reordenava meus pensamentos para dar algum sentido ao que ela acabara de me dizer, meus amigos foram aparecendo e entrevistei-os um a um. Pessoas que eu nem imaginava que fossem religiosas estavam ali, carregando a sua terrinha. Me dei conta que todos eles tinham mais de 80 anos, alguns já estavam na casa dos 90 e vieram todos de ônibus, taxi ou à cavalo. Estes senhores foram os que me ajudaram a construir minhas casas no mato, me ensinaram as plantas boas de fazer chás, a época certa de cortar madeira para não carunchar, como encabar uma enxada, essas coisas que não se aprende na escola. A maioria conheceu a Carpição através dos pais, vinham quando eram pequenos e passaram a vir sempre. Eu estava me sentindo em casa, feliz de reencontrar meus amigos e eles felizes de me ver, depois de tanto tempo.

Lá pro meio dia, senti fome. Eu poderia ter comido um pãozinho e tomado o café que era servido aos devotos por um senhor que fazia este serviço para pagar promessa. Diz ele que vai servir o café até morrer e antes disso vai passar a incumbência para outro (já tem até um candidato na fila…) Mas eu queria comida de verdade, meu corpo magro não pode ficar muito tempo sem combustível. Pensei em pegar o carro e ir até a cidade mais próxima, São Francisco Xavier e bater um rango mineiro, mas quando eu ia entrando no carro estacionado na praça, percebi uma senhorinha apoiada numa dessas portas cortadas na metade e não resisti, pedi para entrevista-la.

Sem me dar conta, acabei falando que estava com fome e, claro, ela me convidou para comer. Enquanto eu me deliciava com as sobras do almoço de dona Virgínia, fui dando vazão à minha curiosidade. Descobri que dona Virgínia tinha vindo morar ali na praça para ficar perto de sua santa de devoção e nunca mais deixar de participar da festa dela em outubro, e da Carpição, que o pai dela proibia quando era criança. Dizia ele que era perda de tempo e não deixava nenhum dos 19 irmãos saírem neste dia, tinham que ficar em casa e trabalhando! Só depois de casada é que dona Virgínia conseguiu vir e, mais tarde, depois da morte do marido, comprou uma casinha e veio morar ao lado da capela de Nossa Senhora dos Remédios. Já está ali há 13 anos, mas tem vindo já há 45 anos.

Diz dona Virgínia que “nos tempo de antes” era muito mais animada a festa da Carpição, que no lugar que eu parei o carro nem se podia entrar, de tantas que eram as barraquinhas vendendo quentão, cerveja, salgadinho, etc… e que vinha muito mais gente. Eu quis saber qual seria o motivo desse “encolhimento” da festa, na opinião dela.

__Ah, seu Chico, “é u povo qui tá perdeno a fé… andô aparecendo muita religião aí, dos crente, tá saino muito dessas igreja dos crente em São Francisco i eles num dexa mexê com santo, aí a turma foi afastano tudo…”

__Mas será que foi só isso mesmo, dona Virgínia? Será que a culpa é só dos  “crentes”?

__Ah, não! “Tem os padre tamém, eles quere mudá tudo nas festa que é tradição di nóis! Num pódi mexê nessas coisa… tem qui cumpanhá do jeito qui vinha vindo, sinão bagunça tudu!”

__É mesmo, dona Virgínia? Eles quiseram mexer na tradição da Carpição?

__”Quisero mas num consiguiro, a gente si uniro i dissemo qui respeitamo a igreja, mas a tradição num podi sê mudada! A gente se unimo i a festa continua, tá menos mais continua”…

Antes de voltar para São José dos Campos, enchi uma sacolinha com terra do monte ao pé da Santa Cruz. Dona Virgínia me disse que é bom levar pra casa e botar no jardim, que ajuda a família a ter harmonia. Não quis esperar a missa nem o lanche que haveria em seguida, um pão com carne e um café com leite.

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11 Respostas to “Carpição”

  1. José Ramalho Says:

    Muito bonito Chicabeia, vc tem alguma duvida que a carpição funciona?

    • chicoabelha Says:

      Nenhuma, Ramalho.

    • Vera Ribeiro Says:

      No Bairro dos Remédios, município de Gonçalves onde moro também tem carpição. Nossa festa é no dia 15 de Agosto independente do dia da semana. É uma festa onde recebemos várias procissões, uma que vem dos Martins desde a segunda guerra mundial e outra mais nova de motoqueiros que vem da cidade de Brasópolis. Na chegada as procissões são recebidas pelos moradores do bairro cantando músicas para cada procissão escritas pela Dona Rosa.
      Uma delas diz: Motoqueiro que veio de longe pela estrada afora
      Ei motoqueiro vem louvar Nossa Senhora…..
      Saí pela estrada afora
      Cortando vales e serras
      Pra louvar Nossa Senhora
      Padroeira desta terra…

      • chicoabelha Says:

        Grato pelo comentário, Vera Ribeiro. Gostaria de fazer um registro de Carpição este ano. Vou anotar em minha agenda, mas você pode me avisar quando estivermos mais perto da data. Imagino fazer um video com alguém mais antigo, você poderia indicar alguma pessoa?

  2. Rogério Lacaz Ruiz Says:

    Legal! Dia 15 de agosto é a festa da Assunção de Nossa Senhora, que foi mudada para o domingo seguinte, isto é, hoje! A simplicidade e a fé das pessoas é algo que impressiona! Valeu!

  3. MariaHelena Says:

    Gostei da simplicidade das pessoas.

  4. antonio augusto Says:

    me senti nas paisagens de sao francisco, pude ver as caras das pessoas, at’e o cheiro da terra, lembrei dos devotos e procissoes e caipiras do mercado de jacarei dos anos 60. Caramba chico, voce ‘e bom de contar escrevendo.

  5. Elder Says:

    Tinha noção de que carpição era o que diz no começo, do texto mas ao le-lo surpreendi, muito bom!!! Tem um pouquinho de terra aí ainda ou já usou, se tiver, quero um pouquinho ok

  6. Lucas LACAZ RUIZ / A13 Says:

    Maravilhosa ! Simplesmente maravilhosa !

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