O Corpo Seco

A casa da Marinalda fica na zona central da cidade, atrás da rodoviária, numa região onde só existem casas populares, alguns bares e uma infinidade de salões de beleza. São duas águas de telha van com uns 8 metros de frente, paredes caiadas de branco esmaecido pelo tempo, uma casa simples mas bem ajeitadinha. Há um vitrô de cada lado da porta da frente da casa. Antes da porta, que está aberta, um alpendre minúsculo. Faz calor. Bato palmas e grito o nome da dona da casa. Uma voz de mulher me diz pra esperar. A menina que aparece à porta confirma que aquela é a casa da Marinalda e que ela já vem vindo me atender.

Achei o endereço pelo Google Maps, esta é uma região da cidade que eu não  conheço bem. Não é passagem e não há comércio por ali, de modo que quem transita pelas ruas são somente os moradores.

É sábado e no bar da esquina, uns 30 metros dali, os homens jogam truco numa mesinha de plástico na calçada, enquanto bebem cerveja. Sinto um cheiro diferente vindo de dentro da casa, um perfume gostoso, parece incenso de igreja. Mais tarde ela me contou que faz defumações periódicas com folhas secas de guiné, arruda e incenso em sua casa, que segundo ela é mal assombrada.

Marinalda aparece, para debaixo do batente da porta e me olha com um olhar de bichinho do mato e um sorriso que parece que nunca abandona os seus lábios. Me convida para entrar.

__Cheguei muito cedo, Marinalda, não estou atrapalhando?

__Nada, Chico, tenho todo tempo que você precisar.

Eu estava ali para entrevistar Marinalda sobre uma experiência que ela teve com o Corpo Seco, que é um mito para alguns e lenda para outros, aqui no Vale do Paraíba do Sul.

A lenda do Corpo Seco tem muitas versões, diversos são os relatos de pessoas que tiveram o infortúnio de topar com esse ser horripilante, mas todos concordam num ponto: só se transforma em Corpo Seco quem judiou de pai e mãe. Desrespeitar pai e mãe seria um pecado imperdoável e quando enterrada, esta pessoa seria recusada pelo céu e pela terra, transformando-se, assim, num corpo seco como uma múmia, que sai pelo mundo afora assombrando as pessoas.

Marinalda, depois de pedir para eu não reparar na bagunça, me convidou para sentar num dos dois sofás da pequena sala de visitas, já avisando que eram duros. Expliquei, mais uma vez, o motivo da minha presença em sua casa e pedi licença para ligar o gravador e ir tirando umas fotos durante a conversa. Jamais conheci uma mulher que estivesse preparada para ser fotografada e com Marinalda não foi diferente, mas com um pouco de insistencia ela cedeu e concordou com as fotos.

Marinalda é o tipo de pessoa que começa a falar sem ser perguntada. Adora contar histórias. Antes de conseguirmos chegar ao Corpo Seco, ela falou sobre os misteriosos túneis que ligavam a Igreja Matriz à de São Benedito, nos quais se fartou de brincar quando era criança. Esses túneis, diz ela, eram usados pelos padres, para fugir de uma igreja para a outra, no caso de um ataque dos índios. Falou da noiva do banhado, uma mulher, que por desgosto amoroso, jogou-se contra o trem de aço da Central do Brasil e que aparece em noites escuras, pedindo para que alguém se case com ela. E contou com orgulho algumas das histórias que seu avô, um escravo liberto, repetia para ela quando menina, na intenção de faze-la dormir. Os olhos de Marinalda se encheram de água para explicar que o avô sabia muitas histórias do tempo da senzala, pois lá não havia muito o que fazer e, para passar o tempo, as pessoas ficavam contando histórias umas para as outras.

Se eu não interviesse ela iria longe, fiquei com a impressão que estava evitando falar no tal Corpo Seco. Fez questão de se dizer católica, de uma modalidade diferente, que eu nunca havia ouvido falar. Ela se definiu como”católica passageira”. Explicou que é “passageira” porque bem de vez em quando ela dá uma passada na igreja, que os padres de hoje ela não entende muito bem, gosta é daqueles antigos, os que falavam uma língua que ela entendia…

Ainda tive que escuta-la desfiar algumas receitas de plantas que ela conhece, para curar dores de pancadas, bolhas nos pés e gargantas inflamadas, antes que, finalmente, ela chegasse à famosa assombração que me levara àquela casa.

Marinalda teve o seu primeiro filho com 14 anos, uma linda menina de 3,5 kg. Para ajudar no sustento da casa da tia, com quem ela morava, teve que trabalhar como doméstica, enquanto a tia cuidava da criança pequena. Foi trabalhar num lugar ermo, a Vila Tatetuba, que hoje é um bairro, mas que naquela época eram chácaras esparsas, com as casas bem longe umas das outras. Marinalda fazia todo o serviço da casa, passava grande parte do dia sozinha, enquanto os patrões trabalhavam fora e as crianças estudavam. À noite, pousava num quartinho nos fundos da cozinha. Ela gostava do lugar, não fossem as investidas do patrão que era metido a engraçadinho e o fato de eles não permitirem nenhuma luz acesa durante a noite; isso incomodava a adolescente Mariana que gostava de ver o mundo muito bem visto, antes de pregar os olhos.

Um dia, fim de tarde, ela estava passando roupas sozinha soprava um vento noroeste daqueles de destelhar casa e as portas e janelas começaram a bater. Marinalda correu fechar tudo antes que o vento e a chuva fizessem estrago. Quando foi fechar a porta balcão da sala, ela viu uma sombra, que julgou ser um pedaço de papelão que o vento arrastou pra dentro da casa. Procurou pelo papelão mas não achou nada. A chuva caiu, o céu abriu e baixou a noite escura, com sua animada orquestra de grilos e pererecas. Mas naquela noite havia um som que deixou Marinalda com os cabelos em pé; ela escutava lá no fundo, insistente, um bater de metal com metal, como se alguém estivesse andando com latas amarradas aos pés. Trancou bem a casa, acendeu todas as luzes e continuou a passar roupa para se distrair, tremendo de medo e esperando que a família chegasse logo.

Nessas alturas ela já estava começando a desconfiar que o pedaço de papelão que entrou pela porta poderia ser o Corpo Seco. Seu avô tinha explicado direitinho pra ela que o Corpo Seco viaja no vento e que nos dias de tempestade era fundamental fechar tudo que é janela e porta, sob risco de que a casa seja invadida pelo Corpo Seco. Marinalda emendou um mistério no outro e já estava no meio do segundo Terço, quando a família chegou. Levaram um susto, mas não foi com o Corpo Seco e sim com a cor da empregada, que de manhã cedo àquela hora, tinha mudado de morena para branca!

Marinalda contou a história do vento e do barulho das latas, já adiantando que o Corpo Seco, coisa que a família nunca tinha ouvido falar, poderia estar instalado dentro da casa deles. Claro que todos pensaram que era fantasia da moça. Afinal, coitada, ela ficava sozinha o dia todo e, certamente, estava imaginando coisas. Neste momento, as roupas que estavam em cima da tábua de passar, começaram a voar pela cozinha. Foi uma gritaria geral. A patrou desmaiou e as crianças grudaram nas calças do pai. Marinalda, sem saber o que fazer, juntou-se às crianças e agarrou-se também à perna do patrão, que por sua vez também começou a gritar como uma criança.

A cena durou apenas um minuto, mas pareceu uma eternidade, as roupas da família dançando pelo recinto, como se um redemoinho as tivesse colhido da mesa de passar roupas. Só que não havia vento, apenas as roupas voando.

Quando a patroa voltou a si, a situação já estava mais calma, as roupas espalhadas pelo chão e todos roucos de tanto gritar. Ainda sob choque, ela seguiu o conselho de Marinalda, de que era preciso chamar um padre para capturar o Corpo Seco. A patroa foi até o telefone e ligou para o único numero que sabia de cor, o do Padre João. Meio sem jeito mas pressionada pela cena que acabara de presenciar, ela explicou ao padre que havia suspeita de uma invasão de Corpo Seco na casa dela. Não deu meia hora e o padre apareceu, com sua infalível arma anti-corpo seco, um litro de água benta.

Para surpresa da família, o padre conhecia muito bem o Corpo Seco e tranquilizou a todos; não era o primeiro caso que ele enfrentava e em todos os anteriores ele havia sido bem sucedido. Um a um, ele benzeu os cômodos da casa. Quando chegou a vez da cozinha, um vento frio começou a soprar e ouviu-se o barulho das latas arrastando. O padre, mais que depressa, abriu um enorme saco de estopa, pronunciou algumas palavras numa algaravia que ninguém entendeu e de repente, para espanto de todos, viu-se uma horrorosa sombra transparente entrar pela boca do saco.

Marinalda contou que o padre recomendou à família que nunca mais deixassem abertas portas e janelas antes de uma tempestade, pois é justamente neste momento que eles adentram as casas. E lá se foi o padre levar o Corpo Seco para o Campo Santo, de onde ele nunca deveria ter saído. O Campo Santo é um lugar ermo e cercado de água, uma prisão para essas assombrações, não são capazes de transpor o obstáculo líquido.

Marinalda me contou que algumas senhoras piedosas costumam freqüentar o Campo Santo, claro que muito bem protegidas por rezas poderosas, afim de cortar as unhas e cabelos dos Corpos Secos, que nunca param de crescer, na tentativa de proporcionar um pouco de alívio para essas almas já tão sofridas.

Durante todo o tempo da entrevista, ficamos mais de duas horas conversando, eu pensei que estivesse sozinho com Marinalda na casa, pois a menina que me atendeu à porta havia saído. De repente, surgiu na sala um vulto de um metro e noventa, magro como um bacalhau de porta de venda, mas muito magro mesmo e ficou me encarando. Claro que me assustei, pois não esperava ninguém, especialmente depois da história do Corpo Seco! Era, Haroldo, o filho de Marinalda, um rapaz tímido e introvertido, que deve ter seus 21 anos, no máximo. Ele havia escutado, em silencio, toda a entrevista que eu fizera com a mãe e agora era ele que me enchia de perguntas sobre meu trabalho.

Quando ele terminou comigo, foi minha vez de perguntar sobre ele. Num papo rápido com o rapaz, fiquei sabendo que Haroldo não come carne de jeito nenhum,  praticamente não sai de casa, não estuda nem trabalha, passa o dia num computador numa conexão de internet discada e está esperando um emprego numa loja franqueada do Mac Donald’s. Mas o que me assustou, de verdade, foi saber que esse moço não tem uma conta de email.

Fiz as últimas fotos de Marinalda com ela me mostrando suas ervas no quintal, enquanto ela me contava mais receitas com plantas medicinais e garrafadas que ela faz. Ela falava mas não eu não prestava mais atenção, minha mente ficou presa no Haroldo. Eu fui embora pensando em como a vida pode ser árida e seca se por acaso esquecemos de rega-la todos os dias. Fiquei de ligar para o Haroldo e trocarmos umas idéias, já que ele manifestou interesse em ser repórter. Ali estava uma planta que já passou do tempo de sair do vaso e ir pra terra…

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8 Respostas to “O Corpo Seco”

  1. Mãe Maria Says:

    Oi Chico vc sempre com suas historias de fantasmas…
    São muito interessantes.
    Mãe.

  2. José Says:

    Este nosso folclore tem coisas assim. sei lá, não sei não…
    Como dizia meu pai,
    -Eu não acredito em bruxarias, mas que existem, existem
    Interessante
    Faltaram as fotos dos protagonistas

    • chicoabelha Says:

      Grato pelo comentário, José. As fotos vou ficar devendo, pois além de querer preservar as imagens para um futuro livro, eu quis preservar os protagonistas. Vai saber se eles querem ver a cara deles publicada na Internet! Não quis arriscar.

  3. edna Says:

    Me lembrei de quando minha avó vinha nos visitar…Naquelas horinhas calmas da tarde, ou antes de dormir, ela sempre tinha muitas histórias pra contar, sim histórias, pois sempre usava o argumento de que era uma vizinha ou um parente que era o protagonista ou antagonista da história…E sendo verídicas eram sempre muito assustadoras…Ainda bem que ela dormia em meu quarto quando estava em casa, assim o medo era menor! Me lembro de um dia em que ela contara muitas histórias com cobras, urutus, cascavéis encontradas dentro das casas ou no quintal e no meio da noite ao sonhar com elas ela acabou por derrubar o criado mudo…Barulho e risos no meio da noite! Fora vítima dos próprios contos!
    Eu tbm procuro os endereços no google! rs
    Gostei muito da metáfora: “Ali estava uma planta que já passou do tempo de sair do vaso e ir pra terra…”
    Como assim não tem endereço de e-mail se passa o dia conectado? rs
    Valeu Chico…Bora lá dormir com medo de assombração agora! rs

    • chicoabelha Says:

      Edna, juro por Deus, o rapaz não tinha endereço de email. Não perguntei o que ele fica fazendo na internet, devia te-lo feito, mas ele não tem mesmo um email e foi isso que me assustou! Como pode ser isso, um jovem tão desconectado do mundo e da vida?

  4. amigas inconfidentes Says:

    Porque será que eu tenho uma vaga impressão de conhecer Marinalva?

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