Finados

Num dia nublado e úmido, como sói acontecer a cada Finados, apanhei meu equipamento fotográfico, mais o gravador e saí em direção ao cemitério Padre Rodolfo Komoreck, no centro da cidade, para fazer o registro do folclore em torno dos mortos. Quinze minutos mais tarde eu estacionava em frente ao cemitério, diante de um vendedor de velas que a cada 2 de novembro volta ali para pagar uma promessa que fez para as almas, quando sua esposa ficou doente. Ele me garantiu que as velas são vendidas a preço de custo, sem lucro, o ganho ele já teve, com o restabelecimento da saúde da esposa. Não se deixou ser fotografado, por medo da foto ir parar nas mãos de algum fiscal…

Depois de atravessar o mar de vendedores de flores, cheguei ao portão do cemitério e fiquei assustado com o que considerei um numero exagerado de policiais, civis e militares. Ao lado de destes, um batalhão de evangélicos distribuindo panfletos de propaganda de seus credos. Fingi que não os vi. Não me agradam, nem o proselitismo religioso e nem a liberdade vigiada.

Dentro, o cemitério ainda estava vazio, mas entre os túmulos, munidas de baldes, panos e vassouras, havia um exército de mulheres, todas vestidas com camisetas amarelas. Aproximei-me de uma delas e descobri que se tratavam de lavadoras de túmulos, muito solicitadas neste dia de Finados. Elas prestam serviços às famílias dos mortos, tirando mato, varrendo, lavando e polindo os túmulos. Ganham por mes, 10 ou 20 reais por túmulo, diretamente das famílias, sem intermediários. As camisetas amarelas elas ganham de um outro cemitério, particular, que assim faz propaganda de seus jazigos.

Saí fotografando os túmulos que me pareceram mais extravagantes e me deparei com um rapaz de seus 20 e poucos anos, fitando o infinito, sentado sobre um túmulo. Na certa ele está se lembrando de algum ente querido, pensei comigo. Mas me enganei, todos os entes queridos de Daniel estão enterrados em outro cemitério, bem longe dali. O rapaz toma conta de carros e estava ali simplesmente matando tempo, enquanto o povo não aparecia. Quando falei do meu interesse pelo “folclore das almas”, Daniel se colocou à minha disposição, pois mora vizinho ao cemitério e frequenta-o desde criança.

Falou-me do túmulo sobre o qual ele estava sentado, o túmulo do Desconhecido, um dos muitos do cemitério que abrigam almas que tem fama de milagreiras e que atendem pedidos. Ele mesmo não acredita, já que é evangélico e sabe “que morto não faz nada pra ninguém“, mas ouve o povo dizer que o Desconhecido tem ajudado muita gente, que houve até quem conseguiu casa própria por intermédio dessa alma.

Fizemos um tour pelo cemitério e ele foi me mostrando os túmulos das figuras ilustres ali enterradas. O de Alvarino, o do Padre Rodolfo, o do Padre Vagner, todos eles “milagreiros” e cobertos de placas de agradecimentos pelas graças alcançadas. Perguntei se ele conhecia alguma história de assombração, mas Daniel não quer nem ouvir falar delas. Indicou-me dona Durvalina, uma senhora que há 40 e tantos anos trabalha como limpadora de túmulos, pode ser que ela conheça…

Dona Durvalina é uma senhora toda encurvada e enrugada, simpática e falante que ela só. Mineira de Lima Duarte, saiu da roça diretamente para São José, com a família, quando o pai arrumou emprego na Tecelagem Parahyba. Perguntei sua idade, ela se virou para a filha que estava ali ao lado, também limpadora de túmulos e perguntou:

__Minha filha, quantos anos a mãe tem?

__Uns oitenta e poucos, por aí – respondeu a filha.

E dona Durvalina remendou:

__Sei que para cem faltam vinte, o senhor calcule quantos anos tenho – e abriu um sorriso sem dentes…

Dona Durvalina faz troça do povo que acredita nos milagreiros do cemitério. Quem faz milagres é Deus, diz ela. O máximo que as almas podem fazer é conversar com a gente e ela já conversou com muitas, nesses mais de quarenta anos limpando os túmulos.

Conta de um senhor que apareceu uma vez, logo que ela começou a limpar as tumbas, pedindo para limpar um túmulo. Dona Durvalina não sabia que era o próprio morto pedindo e atendeu o pedido do morto, que nunca mais apareceu para pagar. Um dia, vendo uma senhora de joelhos ao lado deste túmulo, foi conversar com ela e descobriu, descrevendo o senhor que pedira a limpeza, que era o finado marido da mulher! Diz que desde então, a viúva vem pagando pela limpeza.

Outra vez, foi uma voz que gemia, lá de baixo da terra. Todas suas amigas limpadoras já tinham ido embora, era mais de 6h da tarde, mas ela, compadecida dos gemidos de dor, foi lá ver o que se passava. E se fosse alguém que foi enterrado vivo? Dona Durvalina chegou perto da sepultura de onde vinham os gemidos e percebeu que aquilo era voz de alma, não era voz de gente estava viva não. Diz ela que se fosse qualquer colega sua já tinha corrido dos gemidos, mas ela conversa com todos as almas que aparecem, sabe que elas precisam de ajuda. Leva um papo, diz para elas sossegarem, pedirem perdão de seus pecados e que parem de assustar os vivos! Não ela, porque ela não se assusta com almas. Durvalina só tem medo de ladrão de túmulos e de uns fumadores que de vez em quando aparecem no cemitério. Desses ela corre…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Uma resposta to “Finados”

  1. Paulo Gomes Says:

    Placas Para Cemiterio Do Vale Do Paraíba.

    http://www.placasvale.com.br

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