Dona Lili

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Sábado passado fui convidado para uma Folia de Reis na casa de dona Lili. Folia de Reis, para quem não sabe, é um festejo popular ligado às comemorações do Natal, no qual se reencena com danças, cantos e rezas, o ritual da visita dos 3 reis magos ao Menino Jesus. Dona Lili é uma senhora de 94 anos que teve o cuidado e a coragem de nunca deixar morrer sua curiosidade e inocência. O corpinho dela pode ser o de uma nonagenária, mas a alma ainda é a da criança que ela nunca deixou de ser.

Dona Lili recebe a Folia de Reis da Companhia Bola de Meia já há 14 anos. A dela é sempre a última casa visitada, aquela que oferece um reforçado “café com bolo”, aos cansados foliões, que passaram o dia todo visitando presépios. Neste sábado, a visita da folia estava marcada para as 8h da noite mas já eram quase 9h e nada do pessoal aparecer.

Eu havia chegado cedo e enquanto a turma da folia não aparecia, engatei conversa com o povo que se espalhava pela casa simples mas acolhedora de dona Lili; uma casinha de telha-vã, cercada de plantas por todos os lados, mais parece uma cabana na floresta, com fruteiras, temperos, chás medicinais e muitas plantas de flor pra colorir o conjunto.

O papo estava bom, eu conversava com o Dimas, um filho de dona Lili que acabara de voltar de uma fantástica aventura no Vale Histórico, acompanhando e registrando uma folia de reis que durante 10 dias, percorreu 300 km à pé, visitando presépios na zona rural, coisa que só se encontra por esses interiores menos contaminados pelos modernismos. O assunto me interessava muito, mas quando percebi que dona Lili estava sentada, sozinha, no sofá da pequena sala de visitas, não pensei duas vezes, larguei o Dimas e fui conversar com ela. Eu não podia perder aquela oportunidade. Tão afoito eu fui que me esqueci de pegar o gravador pra registrar nosso papo!

A conversa com dona Lili é fácil, basta se achegar e as palavras brotam dela como de uma nascente abundante e cristalina, saciando aqueles que tem sede daquele tipo de sabedoria que só uma vida bem vivida pode oferecer. Fiz apenas um comentário sobre as figuras de barro do presépio que ela mesma moldou e pintou e está montado na entrada de sua casa, à espera da folia e ela foi desfiando a história de sua vida.

Com cinco anos, a menina Lili se encantou com o trabalho de cerâmica que fazia a avó e começou ela mesma a moldar no barro, galinhas, patos e vacas, os bichos com os quais convivia. Na época do Natal, a menina quis fazer de barro as figuras do presépio.

__Isso só adulto pode fazer, menina, continue com suas galinhas e patos! – disse a avó.

Lili não se fez de rogada e fez um presépio completo, para surpresa da avó. Desde então, vem moldando o barro e ensinando a arte a quem quiser. Só parou por causa da criação dos filhos e do trabalho na roça e nas fábricas em que esteve empregada. Depois da morte do marido, há 27 anos, começou a fazer pra vender e passou também a ensinar, que é o que ela mais gosta.

__Vou guardar tudo isso que eu sei, só pra mim? Pra que? Já devo ter ensinado pra mais de cinco mil crianças e algum adulto mais curioso – que adulto já tem as idéias formadas, é difícil entrar novidade.

Novidade era o que mais atraia a menina Lili e por isso a escola era seu ambiente preferido. Mas aos dez anos, para desespero da professora, que via o potencial daquela menina esperta, ela foi praticamente arrancada da escola pelo pai. Era o ano de 1929, após o crack da Bolsa de Nova York e armazém do seu José tinha falido por falta de pagamento dos credores. Não tendo outro remédio, ele arregimentou os filhos para ajudar a fazer carvão. Se por um lado dona Lili lamenta ter largado a escola, por outro ela reflete:

__Será que eu teria sido essa pessoa que eu sou hoje se tivesse continuado os estudos? Será que eu teria ensinado esse mundo de gente a mexer no barro se eu fosse estudada?

Ela deixou a pergunta no ar e emendou a falar sobre como ensinou todos os filhos a arte de trabalhar o barro e agora ensina os netos e bisnetos. Dona Lili sabe, à sua maneira simples, da importância do seu trabalho na educação e formação das pessoas.

Neste momento alguém interrompe nossa conversa para tirar uma foto com dona Lili. Ela acede de bom grado, está acostumada ao sucesso e quando a pessoa pede ao fotógrafo para fazer uma foto bem bonita, ela brinca, fazendo troça de si mesma:

__Mas o fotógrafo não é Jesus pra fazer milagre! – e dá uma risada gostosa…!

Dona Lili faz uso de um andador para se deslocar, por causa de um problema que teve nas pernas e não gosta de pedir ajuda. Diz ela que sempre que perguntam da saúde da mãe para o Donizeti, seu filho, ele responde. “As pernas não estão lá grande grande coisa, mas a linguinha dela continua bem afiada!” E novamente ela ri de si mesma…

__Me sinto rica, porque é o amor que faz a gente se sentir rica. E o amor maior vem de Deus… 

Ela diz isso apontando para uma vela acesa num candeeiro no móvel na entrada da sala.

__Essa vela eu acendo para os Santos Reis, mas acendo sempre que surge uma necessidade. Tudo que eu preciso eu tenho conseguido. Minha família é pobre mas, graças a Deus é muito unida.

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Alguém vem avisar que finalmente a folia chegou. Antes de se levantar, dona Lili me diz que precisamos conversar mais, que tem muitas coisas ainda para contar, que da próxima vez eu a lembre de falar da história do “bolo de cinzas“. E lá foi ela, se postar ao lado do presépio, para receber a bandeira da folia.

Ah, em tempo! Esqueci de dizer que dona Lili teve o cuidado de confeccionar uma centena, ou quase isso, de anjinhos de barro, para presentear cada uma das pessoas que compareceram à visita da folia. Não tem um anjinho igual a outro, cada um deles é diferente. O que eu ganhei está na imagem abaixo, com asas azuis, minha cor predileta.

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4 Respostas to “Dona Lili”

  1. chicoabelha Says:

    Obrigado, Jane! Grato pelo feedback.

  2. doris Says:

    Sempre é bom ler sobre D. Lili ! Parabéns Chico !

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