Mestre Tiãozinho

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Sábado passado, a convite de um amigo, o Orlando, fui conhecer uma folia de reis, na cidade de Caçapava SP. Até algum tempo atrás eu não tinha idéia do que era uma folia de reis. Se me perguntassem eu chutaria algo ligado ao carnaval, já que nesta festa pagã temos um rei Momo e muita folia.

Esta associação faz sentido, como me explicou Orlando, que é folião de reis desde criança. Disse ele que nunca usam o nome folia para referir-se ao próprio grupo, justamente por causa da conotacão desta palavra com bagunça ou baderna. Preferem denominar-se Companhia de Reis, ao invés de Folia de Reis.

Folia de Reis, para quem não conhece, é um festejo popular ligado às comemorações do Natal, no qual se reencena com danças, cantos e rezas, o ritual da visita dos 3 reis magos ao Menino Jesus. De origem portuguesa, segundo os estudiosos, teria chegado ao Brasil na virada do sec XVII para o XVIII e aqui adquiriu características próprias da nossa cultura.

Pois bem, num sábado de manhã cinzento, lá fomos nós, Orlando e eu, em direção ao bairro Nossa Senhora de Guadalupe, zona rural da cidade de Caçapava. Depois de 7 km de muito barro, chegamos a um grupamento de no máximo 50 casas, que arrodeavam uma capela, o prédio da escola e o campo de futebol.

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Orlando é agricultor, mora em São José dos Campos e, por sua vez, foi convidado para esta festa por Mestre Tiãozinho, que foi quem o introduziu nas folias de reis, quando ambos moravam em Areias SP, há quase 50 anos. Orlando tinha sido convidado para cantar com a folia neste dia e chegamos mais cedo para que ele pudesse ensaiar e ver sua sua voz “encaixava”.

A movimentação já era grande no bairro. Um palco com alto falantes sendo montado em frente ao campo de futebol, muitas bandeirolas colorindo a capela e o caminho com os 3 arcos já delimitado e devidamente enfeitado. Entramos na casa de Mestre Tiãozinho e encontramo-lo sentado na varanda, disputando o espaço com uma quantidade enorme de roupas que estavam a secar, ao abrigo da chuvinha que caia fina e intermitente. Fazia frio e Mestre Tiãozinho vestia casaco e na cabeça tinha um gorro azul-claro de lã. A varanda era escura e por isso estranhei os enormes óculos escuros que escondiam seus olhos.

Orlando me apresentou como pesquisador que viera fazer uma entrevista com seu mestre e “filmar” a Festa de Santos Reis. Mestre Tiãozinho não levantou-se da cadeira mas alcançou minhas mãos, segurou-as com força e com uma voz muito baixa, como se estivesse fazendo uma oração ou me abençoando, me deu as boas vindas e disse que estava inteiramente à minha disposição. Aproveitando a oportunidade, liguei a camera e comecei a entrevista imediatamente.

Mestre Tiãzinho fazia muitos movimentos com as mãos, para enfatizar seu discurso e várias vezes eu tive que desviar a camera, para que ele não a golpeasse. Foi então que a ficha caiu e me dei conta do óbvio. Ele era cego…

No quintal de sua casa, rojões espocavam e um grupo de músicos da folia ensaiava. O barulho era suficiente para encobrir a voz baixa de Mestre Tiãozinho e eu tive muita dificuldade para entender o que ele dizia. Depois das perguntas e respostas de praxe, como nome, idade e origem, perguntei sobre a folia, como foi que ele começou a participar das folias. Eu não conseguia escutar direito o que ele dizia e me pareceu que ele fazia um discurso decorado sobre a origem da folia de reis, algo que ele havia lido em algum livro. Como ele estava muito sério e compenetrado, deixei que ele falasse à vontade, não quis interromper aquele senhor de 72 anos que tirou mais de meia hora para me atender, neste que era um dia tão importante para ele. Depois eu escutaria em casa e escolheria as partes que me interessavam.

Algumas vezes as pessoas resolvem falar sobre o que leram nos livros e deixam de lado, como menos importante, aquilo que é a experiência delas, que, na verdade é o que mais me interessa.

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Depois da entrevista, foi servido um almoço para mais de 100 pessoas, tudo de graça. Barriga, cheia, a folia saiu da frente da casa de Mestre Tiãozinho bairro afora, rezando e cantando, seguida de populares e crianças arreliando os palhaços que iam à frente da procissão. Foi rezado todo o terço, que terminou na pequena capela do bairro. Em seguida foram até a casa do festeiro buscar a bandeira e dirigiram-se aos arcos. Passados os arcos, chegaram ao palco, onde foi feita a passagem da coroa, do festeiro atual para o próximo. Passada a coroa e tiradas as fotos posadas com todo o grupo, teve início o leilão.

Toda essa movimentação, desde a saída da procissão, até a passagem da coroa, tudo isso foi coordenado por Mestre Tiãozinho, que volta e meia era consultado sobre o percurso, canções, seqüência do rito e coisas que não pude escutar pois cochichavam somente no ouvido dele. Foram mais de 3 horas, do início ao fim das rezas e cantorias e eu estava cansado de ficar com a camera suspensa, cuidando para não perder nenhum detalhe e ao mesmo tempo não atrapalhar ou interferir nos rituais, o que é praticamente impossível de se conseguir. Como Orlando havia dito que tinha que trabalhar cedo no dia seguinte, resolvi que era hora de irmos, mesmo sem ver o leilão e a roda de viola que estava programada para mais tarde.

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Nos despedimos de Mestre Tiãozinho e ele foi enfático ao dizer que gostaria que eu voltasse ao bairro, que as portas estariam abertas para mim e que gostou muito da visita. Lembrou do meu nome e isso chamou minha atenção, pois havíamos nos falado apenas uma vez.

Já em casa, no dia seguinte, ao escutar as gravações, me surpreendi com o que eu achei, durante a entrevista, fosse apenas um discurso decorado. Como eu não havia escutado direito o começo da gravação, fiquei apenas com uma parte da história, que agora vocês vão ler inteira.

Quando jovem Mestre Tiãzinho tinha saído a passeio com amigos, nas cercanias de Areias. Encontraram um museu e neste museu havia uma Escritura Sagrada, que ele garantiu que não era uma Biblia Sagrada. Neste livro, ele encontrou o relato que o inspirou a compor as musicas e letras que atualmente toca em sua folia de reis. Segundo Mestre Tiãozinho, Deus o conduziu diretamente às paginas que relatam os eventos que antecederam o nascimento do Menino Jesus.

Ele começou a contar do ponto em que o O Pai Eterno conversou com Santana, mãe de Maria Santissima e resolveu que, através de Maria, enviaria um menino para tomar conta do mundo e endireita-lo, pois que na época, todos estavam imersos em uma grande confusão. Este mundo era governado pelo rei Herodes, pelo rei Congo, rei Davi e um outro que ele não conseguiu lembrar o nome.

O Pai Eterno deu então início à “formatura do presépio” e começou a preparar o “Divino Espírito Santo” para trazer o Menino Jesus ao ventre de Maria. Enviou o Divino Espírito Santo à Terra para que ele procurasse e encontrasse aquela que tivesse o poder de ser a mãe de Jesus. A quarta mulher que ele encontrou foi Maria, a escolhida. Maria dormiu e num sonho, o Divino Espirito Santo teria dito ao seu ouvido, que ela seria a mãe de Jesus.

Nessa hora aparecem o Pai Eterno e os anjos Daniel e Gabriel e este ultimo é que teria colocado Jesus no ventre de Maria. Gabriel disse a Maria, enquanto ela dormia, que ela seria a mãe do Filho de Deus. Maria pensou que estivesse sonhando e o Pai Eterno teve que voltar, acompanhado de Gabriel, Daniel e o Divino Espírito Santo, para que ela acreditasse que seria a mãe do Menino Jesus. Só então o anjo Gabriel pode colocar o menino no ventre de Maria, depois que ela adormeceu novamente.

Maria acordou, ajoelhou-se, cobriu o rosto com um véu e agradeceu o Divino Espírito Santo, pelo presente que ela tinha recebido naquele momento. Aquele seria o Menino Jesus, que nasceria para “tomá conta do mundo“. Depois disso, o anjo Gabriel pediu autorização à Maria, para que compusessem um hino em louvação ao Menino Jesus, para alegrar o Menino Jesus quando ele nascesse. Maria autorizou e eles “subiram e fizeram o hino“.

Quando nasceu o Menino Jesus, o Divino Espirito Santo avisou Gabriel e Daniel, “cês pode descê, cantá o hino que o Menino já foi nascido“. Eles desceram justamente na vespera do dia 6 de janeiro, perto da meia noite. O anjo Gabriel trouxe um violino e o anjo Daniel uma varinha para o acompanhamento e quando iam começar a tocar, chegaram os 3 reis com os presentes. Os 3 reis “achô bonito e ajudô eles cantá o hino também“. Estava formado um grupo com 5 integrantes, “os dois anjo e os trêis reis santo“.  Quando eles terminaram de cantar, Nossa Senhora abençoou-os como “Folia de Santos Reis” e São José marcou a data, véspera do dia 6 de janeiro.

O Divino Espírito Santo voltou ao céu e pediu ao Pai Eterno, que consultou Santana e a Virgem Santíssima para imprimir o livro da Profecia. Este livro foi entregue para o anjo Gabriel, que o entregou para os 3 reis santos. Ele teria dado nas mãos do rei Gaspar, “aquele que chega no presépio e joêia“. E foi desse livro que mestre Tiãozinho “encontrou o nascimento inteiro, aí… pelo nascimento eu tirei a cantoria da folia de reis… então o povo que vê nóis cantano, fica espantado e vem… turma de mestre folião perguntano com quem que nóis aprendemo cantá reis… porque eles num tem a disciplina que nóis tem, pra cantoria de reis“.

Na sequencia da entrevista, não entendendo que ele tinha encontrado a escritura sagrada, perguntei a Mestre Tiãzinho, como tinha que ser uma folia de reis, na concepção dele. Ao que ele respondeu:

“__Cada uma é diferente da outra. Cada uma delas tem um tipo de cantoria e tem um tipo de apreparo, entendeu?… cada uma delas. A folia de santo reis num podi sê tocada de quarqué manera, mai num pódi tamém se exibí, porque a cantoria de santo reis num pódi se exibí. Tem qui sê cum fé, cum amor i siguí a tradição qui é. Tem qui sê bem preparado mai na tradição antiga, si botá exibição, aí já fica na mudernage di hoje, aí já num é mais a tradição… que Deus dexô… A tradição qui Deus deixô é a… a bandeirinha simpre, igual nóis tem, noi tamo cum esse uniforminho nosso, de apresentação, a tradição nossa, a bandeira nossa é enfeitadinha, bem enfeitadinha, mas sem exibição, é tudu mundo… sem exibição, sem querê sê grande, sem altral arto… humirde.”

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Depois de escutar tudo isso, a figura de Mestre Tiãozinho cresceu para mim. Ele se considera uma pessoa especial, um escolhido. Fiquei sabendo depois, que ele é um benzedor. Cresceu meu interesse pelo homem e resolvi que vou aceitar seu convite para voltar ao bairro Nossa Senhora de Guadalupe. Aguardem, devo voltar com novas histórias…

 

Aqui abaixo, um pequeno vídeo com trechos escolhidos da Festa de Santos Reis do Bairro de Nossa Senhora de Guadalupe.

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4 Respostas to “Mestre Tiãozinho”

  1. Elder Says:

    Simplesmente belo!

  2. chicoabelha Says:

    Dona Angela, já mandei o texto para o grupo da Comissão Paulista de Folclore e devo enviar para avaliação de uma possível publicação no Caderno de Folclore também.
    Grato pelo incentivo.

  3. Diana Says:

    Gostei muito do texto e das fotos.

  4. Angela Says:

    Francisco, que trabalho precioso!. Seu ” relatório” é claro, muito bom. O que voce acha de enviá-lo para a Comissão Paulista de Folclore, como já uma participação do Núcleo Içá Bitu? Parabens. Espero que muitas pessoas tenham acesso à esse seu trabalho. É uma grande oportunidade para refletirmos sobre o que é uma manifestação de fé e o que move um homem a cumprir esse ritual. Parabens mais uma vez.
    Angela

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